domingo, 31 de outubro de 2021

Dois Poetas nordestinos


Por BARROSO da FONTE



Não há pandemia que resista à liberdade poética, porque a poesia é vacina permanente que protege os infetados. Digo isto porque as gráficas estão pejadas de edições digitais, presumindo-se que as artes e as letras, beneficiaram das quarentenas sanitárias.

Ocorre-me salientar esta curiosidade quando acabo de ler dois livros de Poemas de autores Transmontanos: Flávio Henrique Vara e Elmiro Barbeiro.

Nos 68 anos que levo de crítico literário, desde o Diário de Notícias, ao Século Ilustrado, ao Debate, à Tribuna, à Permanência, à Parábola, e ao Poetas & Trovadores, sempre segui o conselho de Nuno Júdice que recomenda: começar pela leitura da biografia do autor. Foi o que fiz destes dois autores Transmontanos que apenas ouvia falar. De Elmiro Barbeiro já eu escrevera umas palavras no Tempo Caminhado em Novembro de 2020.

Enalteci Conversas de Viagens – Contos, Histórias e Poemas. Como transmontano revi-me nesse percurso de vida que, nos anos cinquenta, era comum a todos os jovens que nasceram no interior do país, longe dos liceus, dos seminários e dos colégios. Sobretudo em Trás-os-Montes quem vê um povo vê o mundo todo.

Fragmentos de vida são quase 200 páginas ilustradas, carinhosamente distribuídas, com imagens campestres que o autor selecionou, ao longo da sua caminhada existencial. A biografia nas abas, com a capa da igreja Matriz de Lagoaça e, na contracapa, o rio da sua Terra, contemplando a grandeza das suas margens serranas. Todo o miolo do livro é descrito em verso prosaico. Armando Palavras que no seu blog tem promovido os autores periféricos, em testemunho sábio e prudente, afirma que se trata de um livro de memórias fragmentadas. Nelas o autor reencontra os seus ancestrais em momentos da meninice e segue ligeiro por várias fases da vida...E se a poesia é uma das suas paixões, com ela encerra chave de ouro este volume».

Se Elmiro Barbeiro mereceu um prefácio abonatório que apresenta um cidadão probo, laborioso e honesto, Flávio Vara, desceu, igualmente do nordeste Transmontano, depois de passar a infância e a adolescência, até Coimbra para frequentar o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras.

«O transmontano insubmisso, que já «suportava mal a carga opressora Salazarista, não aguentou somar a essa ditadura uma outra, demencial que ignorava em Coimbra e se chamava Praxe Académica. Ao 3º ano atreveu-se a escrever um livro onde arrasava os dogmas e as  liturgias do ídolo da praxe: - O Espantalho da Praxe Coimbrã». Na sequência  desse escândalo no meio estudantil, viu-se forçado a sair de Coimbra, rumando à Universidade de Lisboa, onde concluiu a licenciatura com distinção. Aí defendeu a sua tese Virgílio e a Écloga Portuguesa Quinhentista, trabalho académico que lhe conferiu o «Prémio Professor Simões Neves». Foi aí colocado como docente. Mas, por ter denunciado no Jornal Diário de Lisboa, aquilo que o próprio tratou como «a pornografia académica», acabou por demitir-se da qualidade de docente. Mas como o próprio declara na badana, «de então para cá nunca vendeu a alma ao diabo», Manteve o idealismo e o inconformismo dos verdes anos. E em 2007 publicou o livro «A Bem soada Gente». Mais perto de nós trouxe a público: «A Nata do Povo» que é uma coletânea de sátiras dirigidas aos «barões assinalados» e às conspícuas baronesas da portuga gente que faz parte destes inolvidáveis tempos…

Curioso é o subtítulo: Cantigas de Despairecer de Escárnio e de maldizer.

Na antologia de Autores Transmontanos, Durienses da Beira Transmontana (Maio de 2018) escreveu-se que Flávio Vara «é um escritor primoroso, mordaz, perspicaz e erudito. Zurze em gente sonante da nossa praça, sem apelo nem agravo. É satírico, e ousado na denúncia dos disparates que todos os dias acompanham o banquete do país»

 São 116 poemas num macio e apetitoso volume que a Chiado Books pôs em circulação nacional.

 

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