Alberto Gonçalves - Observador
À primeira vista, parecia
que o militar organizara uma viagem tripulada a Marte, e não a supervisão de
uma rede de tendas entre Monção e a Fuzeta, onde enfermeiros cometiam
injecções.
02 out 2021, 00:1440
Quando se anunciou a
campanha de vacinação, liderada por um daqueles matraquilhos que o PS vai
buscar às profundezas, apostei com um interlocutor indefinido que a coisa
correria mal. Nas primeiras semanas, “correr mal” foi eufemismo: as vacinas não
chegavam, as que chegavam eram imediatamente açambarcadas por caciques locais
ou aparentados, os grupos prioritários mudavam a cada dia ou a cada pressão do
mais recente grupo prioritário, etc.
A fim de me estragar a
aposta, o dr. Costa despachou o matraquilho e, uma vez sem exemplo, recrutou um
sujeito exterior ao partido. E, até porque piorar seria impossível, a coisa
melhorou.
O que aconteceu? Nada de especial. Ao invés do antecessor, que aparentemente coordenava as operações a partir de casa, através de Zoom e à frente de um retrato de “Che” Guevara, o novo responsável optou por trabalhar.
O vice-almirante Gouveia
e Melo imitou o que acontecia nos países em que o objectivo da campanha de
vacinação era, imagine-se, vacinar o povo e não alimentar propaganda. Apesar de
se manter típicas excentricidades de terceiro mundo, como a de privilegiar
profissões em detrimento da idade e da situação clínica, montou-se enfim a
logística necessária – e o nosso atávico pavor à exclusão encarregou-se do
resto.
Em questão de meses,
alcançou-se e de seguida superou-se a média europeia na matéria. Mérito do
vice-almirante? Com certeza, e só na medida em que é meritório cumprir a função
que se aceita desempenhar. Por azar, como estamos em Portugal, não houve
maneira de escapar à hipérbole e ao espectáculo, quer na veneração do homem,
quer no comportamento do homem.
Começo pela veneração.
Não falo da urgência em atropelar a hierarquia para subir o homem a um posto de
chefia, um expediente matarruano habitual no governo. Nem falo da condecoração
atribuída pelo prof. Marcelo que, havendo oportunidade, pendura uma medalha no
quarto classificado do Torneio Ibérico de Pesca à Linha. Falo do dia em que se
encerrou a famosa “task force” e em que uma extraordinária quantidade de
criaturas achou indispensável exibir nas “redes sociais” um comovido
agradecimento ao vice-almirante.
À primeira vista, parecia
que o militar organizara uma viagem tripulada a Marte, e não a supervisão de
uma rede de tendas entre Monção e a Fuzeta, onde enfermeiros cometiam
injecções. Há quem ache o vice-almirante o principal motivo de orgulho das
Forças Armadas nas últimas décadas (a competição não é feroz).
Há quem o garanta
invencível nas próximas eleições presidenciais (idem). E há quem o eleve ao
estatuto de maior vulto da História Contemporânea, ideal para organizar tudo e
liderar tudo (e há quem, principalmente à esquerda, procure moderar tais
delírios de modo a impedir a criação de um potencial, e imprevisível,
adversário político).
Antes que proponham
enfiá-lo em vida no Panteão, cabe perguntar o que leva tantos cidadãos a
tamanha devoção por um cidadão que apenas mostrou competência. Proponho três
respostas, que afinal são a mesma:
1) se calhar esses
cidadãos sabem-se incompetentes, logo ficam assombrados perante os que não o
são; 2) se calhar esses cidadãos são os que julgam louvável a actuação das
dras. Martinha e Gracinha, dois cataclismos que por comparação fazem do
vice-almirante o general Eisenhower; 3) se calhar os padrões de exigência
desses cidadãos para com o próximo são, por experiência própria ou pela longa
sujeição a bitolas socialistas, a dar para o baixo. Em suma, o vice-almirante
passa por óptimo por se revelar acima da média num país em que a média é
péssima.
Infelizmente, fora da
logística das vacinas o vice-almirante não se destacou da maioria dos seus
compatriotas. Pelo contrário. Mal percebeu o culto que suscitava, adoptou o
papel de guia espiritual. Enquanto jurava que não queria protagonismo, concedeu
entrevistas, palestras e depoimentos a uma cadência quase diária, sempre
empenhado em fingir modéstia e de facto a escorrer soberba. De acordo com o
vice-almirante, o vice-almirante é fantástico no que toca às missões que
assume, à autoridade que exerce e – esperem lá – às mulheres, com as quais
confessa ter tido “algum sucesso”.
Esta é a parte ligeira do
discurso. A parte grave é o vice-almirante exceder as tarefas que lhe confiaram
e desatar a emitir palpites acerca das vacinas e do direito das pessoas a
recusá-las. Teria sido útil ensinarem ao senhor que uma sociedade civil não se
confunde com a tropa: a omnipresença do uniforme camuflado também sugere a
confusão.
Porém, confusa é
igualmente a adoração colectiva. Seria engraçado apurar quantos devotos do
vice-almirante pertencem àquela gente que, cheiinha de medo e virtude, continua
a usar máscara na cara e gosma nas mãos.
Essa gente idolatra a
figura que lhes proporcionou um serviço de cujos benefícios duvidam e cuja
eficácia menosprezam. No fundo, canonizaram o vice-almirante sem saber porquê,
e esta é das homenagens mais insultuosas que se pode prestar a alguém.



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