Por BARROSO da FONTE
Domingos Mendes Dias nasceu em Medeiros, por volta de 1730 e terá morrido
em 1801, em Lisboa, «devido a uma gangrena causada por um ferimento grave num
assalto de que foi vítima, em sua casa». Oriundo de uma família de lavradores
tradicionais, abandonou a casa paterna e fugiu para Lisboa, onde foi aguadeiro,
manteigueiro e agenciador de negócios, quer na capital, quer no Brasil, de onde
regressou com «cabedais», estranhos para a época. Sabe-se que em 1755, quando
ocorreu o terramoto de Lisboa, já ele usufruía de uma fortuna incalculável.
Resta saber se foi em pilhanços após o terramoto, se foi buscá-lo ao Brasil. O
que se sabe é que «viveu com uma senhora de cor preta, de avançada idade, que
lhe preparava os alimentos, tudo do mais barato que se vendia na época. Mandava
servir o jantar dentro de uma gaveta da sua secretária, que logo fechava, se
alguma visita aparecia. Devido ao seu feitio miserável, este estranho
milionário chegou a ser preso pela ronda, por se tornar suspeito, numa noite em
que transportava às costas a fruta verde que apanhara no chão, numa das suas
quintas dos arredores. Constava que nas longas noites de inverno, o seu prazer
favorito consistia em fumar cartuchos de «cem peças de oiro» Faleceu nos
inícios do século XIX, em consequência de um ataque de ladrões, à punhalada. E
nessa mesma emergência, achando os gastos exagerados, implorou ao médico que o
tratava que fosse mais comedido nos remédios. Dessa poupança surgiu a gangrena
que o levou dessa para melhor, como a qualquer pobre de Cristo». Esta narrativa
e outras mais bizarras, constam na Revista Olisipo, nº 82, de Abril de
1958, página 81, da lavra de Mário Costa.

Já em 1998, nas pp. 195/196, relatei no primeiro volume do dicionário
dos Mais Ilustres Transmontanos e Alto-durienses, esta quase lendária
estória que poucos barrosões conhecem e que mais recentemente, aprofundei nas Actas
do V Colóquio internacional da Casa Senhorial, realizado em Fafe em 2019,
graças ao investigador Barrosão Artur Coimbra.
Sovina até à morte
Esta personagem designada como «Sovina até à morte», teve como
epílogo «o sortudo Morgado de Vilar de Perdizes, chamado António João de Sousa
Pereira Coutinho que foi o penúltimo representante do Morgadio de Vilar de
Perdizes. Dele fala Hélder Alvar, na revista Aquae Flaviae, número 59, na
página 44, onde confirma que «o titular do Morgadio desta ilustre e rica
Família, foi herdeiro de um pecúlio, legado por Domingos Mendes Dias, com a
alcunha de «o Manteigueiro, natural de Medeiros, do concelho de Montalegre que
pediu familiaridade a este Morgado, com o fim de lhe legar o seu património».
Na edição número 62, de Junho último, da Revista Aquae Flaviae,
entre as páginas 149 e 188, trato esta
figura, em termos globais, graças às fontes científicas que entretanto
encontrei. Mário Costa, na Olisipo, afirma que a sua
fortuna foi avaliada em seis mil milhões de réis, não se conhecendo, ao tempo,
nenhuma fortuna semelhante em Portugal.
O símbolo-mor dessa fortuna é o Palácio do
Manteigueiro que atualmente é ocupado pelo ministério da Economia. Nos dois
últimos séculos, o Palácio, na Rua da Horta Seca mudou várias vezes de mãos e
sofreu alterações arquitetónicas, com o acrescento de mais pisos.
Após a morte do Manteigueiro, o seu Palácio coube
em herança ao Morgado de Vilar de Perdizes. Mas este pouco usufruiu dele. Pouco
depois da sua posse, o Morgado alugou-o ao Conde da Caparica. Durante as
invasões francesas, serviu de hospital militar britânico. A partir de 1826 foi
ocupado por um rico comerciante inglês e, logo a seguir, pelo representante de
Napoleão III, no nosso país, tornando-se um dos centros da vida política e
social de Lisboa, acolhendo faustosos bailes e encontros. Em meados do século
XIX torna-se sede do clube Assembleia Lisbonense, que reunia a mais elegante
sociedade. Em 1860 passou para as mãos do 1º visconde de Condeixa. Chegada a
República, foi residência particular do presidente Manuel de Arriaga. Seguiu-se
uma grande companhia petrolífera que comprou o Palácio em 1920, fazendo grandes
obras e acrescentando mais um andar.

A partir de 1970 a vida do Palácio foi agitada. Sílvia
Ferreira dá-nos uma descrição precisa dos acontecimentos, daí até à atualidade,
nas já referidas Actas do V Colóquio A Casa Senhorial. «O palácio seria adquirido, pela Sogestil, nesse
mesmo ano e, a 23 de dezembro
de 1975 celebra-se um contrato de arrendamento entre a referida empresa e o
Ministério da Indústria e Tecnologia, a fim deste organismo do Estado instalar
lá os seus serviços. Com a constituição do IV Governo Provisório, o então
Ministro da Indústria e Tecnologia, Engenheiro João Cravinho, instala o seu
gabinete no 2º andar do edifício, partilhando as instalações com a Império, a
Arcádia Editora e a Sogestil, proprietária do edifício, nessa data. Em 1990, o
Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento (IAPMEI),
que já estava instalado no edifício desde 1977, adquiriu o Palácio, que ao
tempo estava ocupado pelo Ministério da Indústria e Energia».
Medeiros e Vilar de Perdizes geminadas pela estória
do manteigueiro

São duas aldeias do concelho de Montalegre. Uma pequena e
uma grande. Uma rica e outra pobre. Ambas ligadas desde os fins do século XX,
pela estrada principal, para quem chega ou parte para a União Europeia. Ambas
têm vestígios castrejos, abrigados pelo deus pagão que a serra do Larouco
mitifica e que, secularmente traz, de mão dada, desde a Galiza até Olhão. Uma
geminação é um conceito moderno que entrou na moda desde que a União Europeia
se instituiu como plataforma convencional para aproximar os 27 países europeus.
Mas a geminação não se confina às cidades desses 27 países. Também se aplica às
vilas, concelhos ou instituições com afinidades comuns, em determinados aspetos
sociais, culturais, desportivos, religiosos, comerciais Diz o povo que «quem vê
um povo, vê o mundo todo». E, entre Medeiros e Vilar de Perdizes, além dos
aspetos comuns entre os aldeamentos, graças aos fatores intrínsecos, aos usos e
costumes, à gastronomia, à religiosidade e outros, houve um caso exótico por
volta de 1740, entre um popular de Medeiros e outro cidadão de Vilar de
Perdizes que protagonizaram uma charla social sem precedentes. Há outros
Domingues Mendes Dias. Um deles é colaborador deste jornal nos USA.
Regularmente nos brinda com notícias da Comunidade Transmontana naquele País.
Os Mendes Dias, os Pinto Dias, sempre foram
apelidos sonantes em Medeiros, em Peireses, Torgueda e aldeias vizinhas. A
freguesia da Chã, ao longo dos séculos, com esses povoados e outros, como
Codeçoso (hoje ligada a Meixedo), pertenceram a instituições nacionais como o
caso das Clarissas de Negrões, dependente de Vila do Conde.
Estes e outros exemplos de interesse nacional ajudam a valorizar o nosso
passado histórico. O concelho de Montalegre tem hoje – felizmente – muitos
estudantes, em todos os graus de ensino, nomeadamente no superior. Para a
obtenção desses graus é obrigatório investigar, produzir e defender temas
científicos. Esses estudos de caráter científico poderiam ser propostos pelos
docentes dos Institutos Superiores e Universidades.
Mas não tem havido
estímulos para essas averiguações temáticas que visam o conhecimento de factos
históricos como esta narrativa que irmana Medeiros e Vilar de Perdizes, como a
Casa do Cerrado, os Morgadios de Vilar de Perdizes, a genealogia de famílias
daqui oriundas que como Bento Gonçalves, Eugénia Neto, Maria Helena Vilhena
Pereira, esposas de Agostinho Neto e Amílcar Cabral, D. Joaquim da Boa Morte,
último Padre Cruzio que tem já em curso, no Vaticano, o processo de
beatificação, etc.
A revista Aquae Flaviae que já vai na edição 62 e que é dirigida pela
Barrosã Drª Isabel Viçoso, residente em Chaves, mas natural de Gralhós, tem
publicado, sucessivamente, temas curiosíssimos que poderiam ser incentivados e
difundidos. Para que não pensem os meus leitores que estou a politizar a
cultura que por aí se faz, fico-me por aqui, nesta primeira noite de Setembro
de 2021.
Barroso da Fonte
Amigo Barroso da Fonte,
ResponderEliminarLi com muito interesse este seu artigo, cujo conteúdo desconhecia e que me surpreendeu. Comungo da ideia da necessidade de valorização do nosso passado histórico e da utilização de investigação no meio académico com esse fim.
Um abraço, com os meus agradecimentos pelo seu excelente contributo.
Jorge Nuno