Pe Gonçalo Portocarrera Almada
Observador, 10/04/2021
É verdade que o Dr. Francisco Louçã, com
aquele ar de superioridade moral com que sempre fala ou, melhor dizendo, ensina
o povo imbecil que, para ele, somos todos nós, foi muito indelicado no modo
como se referiu à corajosa intervenção, na Assembleia Municipal de Lisboa, da
Professora Doutora Aline Hall de Beuvink, deputada do PPM.
O Dr. Louçã, que evidentemente sabe tudo,
não sabe História, nem como se deve comportar um professor universitário, que
também é Conselheiro de Estado e do Banco de Portugal. É pena.
A irritante arrogância do Dr. Louçã, a que a SIC deu cobertura sem contraditório, tem tudo a ver com a ideologia que professa. De uma teoria política responsável por mais de cem milhões de vítimas, em todo o mundo, não se esperam, como é óbvio, boas maneiras. Portanto, esta não é uma questão pessoal – o Dr. Louçã merece, como qualquer ser humano, todo o respeito – mas ideológica, que decorre da natureza anti-humanista e antidemocrática da sua opção política.
O socialismo do Dr. Louçã parece-se tanto
ao nacional-socialismo do Dr. Goebbels que, “no passado dia 19 de Setembro [de
2019], a União Europeia colocou comunismo e nazismo em pé de igualdade, depois
de aprovar no Parlamento Europeu uma resolução condenando ambos os regimes por
terem cometido ‘genocídios e deportações e foram a causa da perda de vidas
humanas e liberdade em uma escala até agora nunca vista na história da humanidade’.
Os totalitarismos manipulam as pessoas,
também pela linguagem e, como são peritos em desinformação, fizeram crer que o
comunismo é – imagine-se – democrático!
Mas, desde quando é que o
marxismo-leninismo, seja ele trotskista, estalinista, maoísta ou outro, foi
alguma vez democrático?!
Quando é que alguma vez, na História, um
país comunista foi democrático?!
Quando é que um comunista, estalinista ou
trotskista, foi democrata?!
É triste que, depois do estrondoso
fracasso do comunismo, em todos os países do mundo em que foi implantado,
sempre à força, ainda haja quem o defenda. Mas não é menos lamentável que,
também agora, não falte quem exalte as falsas virtudes democráticas e
antifascistas do comunismo.
É verdade que lutou contra o regime de
Salazar, mas também contra o regime democrático instaurado a 25 de Abril.
Se fez frente ao Estado Novo, foi para
implantar outra ditadura, de que o PREC foi exemplo.
Devemos estar gratos ao assassino, que
nos defende de outro assassino, para depois nos matar?!
Devemos agradecer a Hitler, por ter
lutado contra Stalin, e vice-versa?!
Não se pense que o comunismo
contemporâneo já nada tem a ver com essas práticas antidemocráticas porque, em
Novembro passado, no último congresso do PCP, o pré-histórico Albano Nunes
afirmou que o capitalismo tem de ser derrubado pela força (DN, 27-11-2020).
Que democracia é esta, que quer impor
pela força o que nunca conseguirá pelo voto?!
O Dr. Louçã, não tendo podido negar o que
a deputada do PPM corajosamente disse, na Assembleia Municipal de Lisboa,
truncou a sua intervenção e refugiou-se na troça, que é o elogio que o vício
presta à virtude.
Se de alguma crítica é passível o
discurso da erudita e destemida deputada municipal não é certamente por
excesso, mas por defeito.
Sim, Dr. Louçã, comeram-se criancinhas e
não foi apenas no terrível Holodomor.
Quando, em 1958, Mao Zedong (melhor seria
chamá-lo Péssimo Zedong!) lançou o ‘Grande Salto em Frente’, 30 milhões de
chineses morreram à fome. Tão dramática situação provocou inúmeros casos de
canibalismo, a que também está associado o regime de Pol Pot, no Cambodja: “Pin
Yathay refere dois exemplos concretos: uma ex-professora que devorou
parcialmente a irmã e, numa enfermaria de hospital, a partilha do cadáver de um
jovem” (O Livro Negro do Comunismo, Quetzal, p. 689).
Está a ver, Dr. Louçã? Afinal, isto de comer
criancinhas não é nenhuma lenda reacionária, para assustar papalvos, mas a
verdade histórica sobre os regimes comunistas, que a tanto obrigaram os que
condenaram à morte pela fome. Não é um mito do anticomunismo primário, mas uma
verdade de que os comunistas, não tendo a coragem de reconhecer, fazem troça.
Que vergonha!
Não obstante esta hipocrisia, há uma
coisa que todos nós, quaisquer que sejam as nossas opções ideológicas ou
preferências políticas, devemos agradecer ao Dr. Louçã.
Sim, digo-o sem ironia: Portugal deve
estar grato ao Dr. Louçã. Porquê? Muito simplesmente porque, defendendo o
socialismo, na sua expressão mais autoritária, recordou-nos uma coisa de que
muito boa gente anda esquecida e que, afinal, é óbvia: o dr. Louçã e o Bloco de
Esquerda (BE) são comunistas.
Obrigadinho, Dr. Louçã, por desmentir tão
categoricamente a actual dirigente do seu partido que, numa lírica tentativa de
branqueamento ideológico, disse que “o programa do Bloco é social-democrata”
(Observador, 2-9-2019)!
Por este andar, qualquer dia afirma que o
BE é democrata-cristão, à conta do deputado Pureza, que se diz católico.
Obrigadinho, dr. Louçã, por desmascarar
os sorrisinhos sonsos com que as irmãzinhas Mortágua disfarçam o mais hediondo
regime totalitário.
Obrigadinho, Dr. Louçã, por nos recordar
que a linha que separa os partidos democráticos dos que o não são, não existe
apenas na direita, mas também na esquerda e é a fronteira que o Dr. Mário
Soares nunca atravessou, porque sabia bem, pela sua experiência pessoal e pelo
PREC, que qualquer comunismo – seja do PCP ou do BE – é um totalitarismo que se
opõe, na teoria e na prática, à democracia.
Obrigadinho, Dr. Louçã, por nos ensinar
que, afinal, os comunistas não comiam criancinhas ao pequeno-almoço. Tem toda a
razão: também comeram jovens e adultos e não foi só ao pequeno-almoço, mas
sempre que não havia mais nada para comer, com excepção das criancinhas, como
acontece com frequência nos países comunistas.
Por favor, não negue a evidência
histórica desta monstruosidade, a que o comunismo obrigou os milhões de
inocentes que condenou ao canibalismo, para não morrerem à fome.
Respeite as vítimas e a verdade e, já
agora, aprenda com a deputada e Professora Doutora Aline Hall de Beuvink, que
não só sabe a História de que, talvez por ignorância, escarnece, como sofreu na
sua própria família os horrores do Holodomor.
E, por favor, não desista nunca de nos
ensinar e educar, porque nós, o povo estúpido e ignorante, estamos muito gratos
pelas suas magistrais lições.
Pe Gonçalo Portocarrero Almada
10/04/2021
http://tempocaminhado.blogspot.com/2021/04/o-riso-de-louca.html

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