ANTÓNIO MAGALHÃES
Luxemburgo |
Sheffield
Tínhamos acabado de
jantar.
O primo Gervásio palitava
agora os dentes com um ar de satisfação. Gesto que me irrita à brava, porque no
caso do Gervásio, palitar os dentes depois do jantar, significa prolongar imenso
as conversas, não porque lhes adicione mais conteúdo, mas porque, no que quer
que diga, faz pausas quase intermináveis enquanto tenta libertar as farpas do
bacalhau que lhe ficam entaladas entre dentes.
Como se isso não
bastasse, à medida que consegue a proeza de trazer à ponta da língua a eventual
farpa, levanta um pouco da mão que fechou em concha ao encobrir o palito, e
cospe-a sem olhar em que direção esta irá.
Movo-me inquieto, na
cadeira, sempre que ele o faz, pois não podendo seguir a farpa, para ver onde
ela aterra, invade-me um receio e um nervoso miudinho só em pensar que a mesma
possa ir direta à cara de alguém que janta nas proximidades da nossa mesa. Ou
pior ainda, se é que se pode considerar pior do que levar com uma farpa de
bacalhau vinda diretamente da boca do vizinho do lado, esta cair no prato do
infeliz, que porventura até, está deliciado com o seu jantar.
Finalmente diz,
“Mas…afinal…
E faz nova e demorada
pausa porque agora está a contas com uma farpa mais teimosa, e eu apercebo-me
disso porque, suspenso na frase que iniciou, vai entortando os queixos ao mesmo
tempo que faz um grunhido com a garganta, e a mão que segurava o palito,
encoberta pela mão que em concha a esconde, parece ter um movimento mais
frenético.
O esforço deu os seus
resultados. Gervásio conseguiu libertar a farpa dos seus dentes carcereiros.
Obviamente, cuspiu-a.
Mas afinal…o que é ser
português, lá fora? – Concluiu
Bebi o meu café de uma
assentada. Era o meu primeiro dia de férias, acabado de chegar de terras de sua
majestade.
Entusiasmado pelo coice
da cafeina, deste que me parece o melhor café do mundo, tomado em Portugal
obviamente, respondi,
“Lá fora, onde? No
quintal?
Gervásio não esboçou um
sorriso sequer. Lá do alto dos seus olhinhos piscos, lançou-me um olhar
fulminador.
Então…eu disse.
“Bem…ser português, lá
fora é ser profundo conhecedor do significado da palavra saudade.
É saber esconder uma
profunda tristeza por detrás de um sorriso.
É ter um enorme receio de
atender uma chamada de Portugal a horas inesperadas.
É ligar para casa dos
pais, e nos segundos que antecedem a chamada que vai ser atendida, sentir um
aperto no peito, uma ansiedade que logo desaparece se a voz que do outro lado
responde, corresponde ao tom que nos faz acalmar essa mesma ansiedade.
É sentir com muito mais
intensidade como o tempo passa, e com ele fica a dor da ausência dos momentos
que se perdem com os que tanto amamos, sentindo que os benefícios da distância,
pois por eles emigramos, têm um preço duro a ser pago.
Mas também é a adrenalina
da aventura. Da conquista do desconhecido. Do desafio da adaptação. Da
satisfação de transpor barreiras, ultrapassar obstáculos. De espalhar as raízes
em solo novo e remar contra a maré, até que elas voltem a agarrar a terra e
cresçam e possam dar os seus frutos.
E é sempre a saudade.
E é o orgulho patriótico
de ser português. E é sentir mais intenso, mais apaixonado esse orgulho, que
por vezes nos dá alegrias com a mesma intensidade com que nos dá tristezas.
É olhar o nosso povo e a
nós mesmos, pelo lado de fora do nosso cantinho à beira-mar plantado, e querer
meter num mesmo abraço todos aqueles que são simples de coração e grandes na
sua maneira única de ser, e apertá-los junto ao peito, para que também eles
possam sentir o quanto os amamos.
É achar a bandeira
portuguesa, a mais bonita do mundo.
É fazer uma viagem de
centenas de quilómetros e ao ver a placa que diz “Portugal – 1 Km, cair num
silêncio ensurdecedor, e para disfarçar a emoção que quase nos trai com umas
lágrimas que são alegria também, afirmar que esta placa é o monumento mais belo
que Espanha tem.
É sair do avião, já em
território português, e inalar o cheirinho a Portugal, que só nós, os que
estamos lá fora, sabemos que paira pelo ar como um perfume que nos devolve às origens,
à alma unicamente portuguesa.
E é sempre a saudade.
É partilhar, e não
dividir, o coração com alma lusitana, e o país de acolhimento.
É desejar veemente pela
chegada das férias, e quando elas chegam, à medida que se vai matando saudades
com a família, os amigos, e alguns conhecidos curiosos de saber…” e então, como
é ser português, lá fora?”, e os lugares que continuam a nos encantar, os
sítios que nos trazem, felizes e ao mesmo tempo nostálgicas recordações e,
sentir este quase estranho desejo de regressar ao país que nos acolheu, ao país
onde somos estrangeiros, emigrantes, portugueses lá fora, mesmo sabendo que, na
hora da despedida, no adeus até ao meu regresso, se vai dar aquele aperto no
peito, um sufoco na garganta, e umas lágrimas que se não podem evitar.
E é ver os filhos a
crescer, neste que agora é também o nosso país, e aceitar com naturalidade que
eles criem as raízes no país onde vivem, da mesma maneira que nós criamos as
nossas no país de onde viemos, não descurando nunca a missão de lhes ensinar a
amar as suas origens, a respeitar e a mantê-las vivas.
E tinha ainda muito mais
para dizer. Falar por exemplo, dos fanfarrões, daqueles que vêm ao burgo de
férias com o peito inchado, a arrotar postas de pescada, a darem uma ideia
errada de um paraíso que não existe, porque a vida não é fácil em canto nenhum
do planeta, e aqui como ali, viver requer sacrifícios, conquistas e derrotas,
persistência acima de tudo.
Também podia falar dos
mexericos, dos ciúmes, das pequenas traições e cobardias entre portuguesas na
mesma comunidade.
Mas nisso, estaria a ser
injusto, porque o problema não é o de ser-se português, mas sim, a nossa
natureza humana. Destes mesmos mexericos, ciúmes, pequenas traições e cobardias
assisti eu a elas com Filipinos, Polacos, Franceses, Espanhóis, Italianos.
Há de haver um nome
científico para este fenómeno ciumoso entre cidadãos da mesma nacionalidade a
viver e trabalhar no estrangeiro. Como alguém disse…” I want you to do well, but not better than me…”
O primo Gervásio estava
agora mais descontraído. Recostado na sua cadeira, entretinha-se a passar o
palito de um canto da boca para o outro, numa acrobacia de lábios e língua
apenas. As mãos pousadas na mesa, os olhos piscos em cima das minhas palavras.
Mexeu o rabo na cadeira,
coçou a testa e disse,
“Nhaaa…são emoções muito
fortes para mim…Estou muito bem ca na terra…”
António Magalhães

Grande sobremesa conventual de Domingo! Grande Texto...
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