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| JORGE LAGE |
O resto do mês desenrascava-se como
podia porque o vício da pinga é exigente, com quem o cultiva. «Todas as noites me despeço» foi agora
publicado, ao fazer 20 anos sobre a sua morte por atropelamento, na Rodovia de
Braga, próximo da rua Bernardo Sequeira. Enquanto membro da Segurança
Rodoviária do distrito de Braga, propus e foi aprovada a instalação de uma
vedação simples e barata a separar as duas faixas desta via, mas, como quase
sempre, os autarcas gostam mais do «fogo-de-vista» do que de boas medidas
estruturais. O Sebastião d’Alba era um poeta talentoso, um «atleta do lábio» que contou com a
admiração de Herberto Helder, o que não é pouco. A sua obra foi sendo publicada
em várias editoras, sendo este último livro com a chancela da «Opera Omnia», de
Guimarães. Sebastião d’Alba em «Fim de
poema» aconselha: «Para que nem tudo vos seja sonegado// cultivai a surdina.//
Em surdina aparo// os utensílios// Em surdina me preparo para morrer.// Amo, chut!,
em surdina,// a minha vida,// nesga entre dois ponteiros, fecha-se em surdina».
Este curto apontamento sobre este sem-abrigo é para que as pessoas saibam que a
arte de poetar não é tanto apanágio de gente instruída, mas de gente culta e
com algum talento. Ao contrário do que algumas cabeças leves pensam, o valor
literário ou o científico não advém dos cartões partidários. Sebastião d’Alma,
era de poucas palavras e provocador. Assisti de camarote a uma peça em que ele
era o figurante: estava eu, um fim de tarde, no café Atenas, em Braga, e o
Sebastião d’Alba em frente, sentado num banco da paragem dos autocarros
municipais. Tinha de cada lado, no chão, um saco do supermercado. O da direita
pouco avultado. Sentado, perna direita a cruzar a esquerda, parecia alheado e
meditativo. De quando em vez, quebrava a postura e baixava-se um pouco e com a
mão direita agarrava o saco plástico, como quem pegava no pescoço de um frango.
Olhava o terreno à sua volta, com desconfiança, como se tivesse algo a esconder
ou fosse praticar algo de ilícito. Com o «terreno limpo» emborcava o saco que
tinha dentro uma garrafa escondida. Pousava o saco e recuperava a pose anterior
como se nada fosse e assim os seus produtivos pensamentos iam avançando, em
surdina e em surdina o tintol ia mudando de recipiente. Assim, ganhava mais
ímpeto para subir o íngreme trilho que o conduzia ao refúgio nocturno para os
lados de Fraião. Se tivesse mais sede parava no Centro Cultural de Santo
Adrião. Deixo-vos com um excerto de «Uma
pedra ao lado da evidência» (2000):
«Em alguns de nós o
olhar queda-se paralelo
ao do mocho que há
muito do ombro nos voou.»
In: Noticias de Mirandela


SE ESTE TEXTO ESTIVESSE NO FACE PUNHA-SE AQUI UM : - "GOSTEI!"...
ResponderEliminarGRANDE ALCANCE ESTE VERSINHO...