sábado, 12 de dezembro de 2020

«Todas as noites me despeço»


JORGE  LAGE
É o título do último livro, a título póstumo, do poeta andarilho Sebastião d’Alba (pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves) nascido em 1940, em Braga, tendo sido a infância passada na Torre Dona Chama – Mirandela e aos 9 anos foi com os pais para Tete (depois para Quilimane) – Moçambique. Mais tarde, incorporado no exército desertou e apanhado foi condenado a 15 meses de presídio. Cursou jornalismo, deu aulas e casou com uma nativa. Apoiante da FRELIMO regressa a Portugal, em 1983, desencantado com o regime e para dar um curso às duas filhas. Radicou-se em Braga e depois de uma série de infortúnios – divórcio dos pais e a morte deles e o seu próprio divórcio – tornou-se um sem-abrigo e um bebedor inveterado. Ainda me recordo de o ver passar pelo Centro Cultural de Santo Adrião – Braga onde eu era Presidente da Assembleia. Todos os fins de tarde da década de oitenta/noventa subia em direcção a Fraião e por ali passaria as noites. Era irreverente e criava alguma animosidade. Tinha uma tença do governo, como artista, que só lhe dava para meio mês. 

O resto do mês desenrascava-se como podia porque o vício da pinga é exigente, com quem o cultiva. «Todas as noites me despeço» foi agora publicado, ao fazer 20 anos sobre a sua morte por atropelamento, na Rodovia de Braga, próximo da rua Bernardo Sequeira. Enquanto membro da Segurança Rodoviária do distrito de Braga, propus e foi aprovada a instalação de uma vedação simples e barata a separar as duas faixas desta via, mas, como quase sempre, os autarcas gostam mais do «fogo-de-vista» do que de boas medidas estruturais. O Sebastião d’Alba era um poeta talentoso, um «atleta do lábio» que contou com a admiração de Herberto Helder, o que não é pouco. A sua obra foi sendo publicada em várias editoras, sendo este último livro com a chancela da «Opera Omnia», de Guimarães. Sebastião d’Alba em «Fim de poema» aconselha: «Para que nem tudo vos seja sonegado// cultivai a surdina.// Em surdina aparo// os utensílios// Em surdina me preparo para morrer.// Amo, chut!, em surdina,// a minha vida,// nesga entre dois ponteiros, fecha-se em surdina». Este curto apontamento sobre este sem-abrigo é para que as pessoas saibam que a arte de poetar não é tanto apanágio de gente instruída, mas de gente culta e com algum talento. Ao contrário do que algumas cabeças leves pensam, o valor literário ou o científico não advém dos cartões partidários. Sebastião d’Alma, era de poucas palavras e provocador. Assisti de camarote a uma peça em que ele era o figurante: estava eu, um fim de tarde, no café Atenas, em Braga, e o Sebastião d’Alba em frente, sentado num banco da paragem dos autocarros municipais. Tinha de cada lado, no chão, um saco do supermercado. O da direita pouco avultado. Sentado, perna direita a cruzar a esquerda, parecia alheado e meditativo. De quando em vez, quebrava a postura e baixava-se um pouco e com a mão direita agarrava o saco plástico, como quem pegava no pescoço de um frango. Olhava o terreno à sua volta, com desconfiança, como se tivesse algo a esconder ou fosse praticar algo de ilícito. Com o «terreno limpo» emborcava o saco que tinha dentro uma garrafa escondida. Pousava o saco e recuperava a pose anterior como se nada fosse e assim os seus produtivos pensamentos iam avançando, em surdina e em surdina o tintol ia mudando de recipiente. Assim, ganhava mais ímpeto para subir o íngreme trilho que o conduzia ao refúgio nocturno para os lados de Fraião. Se tivesse mais sede parava no Centro Cultural de Santo Adrião. Deixo-vos com um excerto de «Uma pedra ao lado da evidência» (2000):

«Em alguns de nós o

olhar queda-se paralelo

ao do mocho que há

muito do ombro nos voou.»

                                                                                                        In: Noticias de Mirandela

1 comentário:

  1. SE ESTE TEXTO ESTIVESSE NO FACE PUNHA-SE AQUI UM : - "GOSTEI!"...

    GRANDE ALCANCE ESTE VERSINHO...

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