quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Os sinos da aldeia

                                                                                                       Teófilo Minga

Os sinos da aldeia

 

Os sinos da aldeia,

Já nos chamam à Eucaristia.

É à meia noite e a Igreja cheia,

Transborda de alegria.

É a “missa do galo”.

Jesus nasceu, vamos adorá-lo! (1)

 

 

Que linda tradição,

Entre todas, muito bela,

Que nos enche o coração

E faz da aldeia, sentinela,

Atenta à vinda de Jesus.

É meia noite, mas noite de luz. (2)

 

Depois, no adro cheio da Igreja,

Acendia-se a fogueira.

Noite de frio! Mas toda a gente esteja

Com Jesus, na atitude mais verdadeira,

Que O sabe acolher, no calor

Do coração, que segreda: “Jesus, meu amor!”. (3)

 

Entravamos na Igreja com os presentes…

Presentes humildes para o Menino.

Era assim a fé das nossas gentes,

Que, com amor, cantavam um hino,

De paz e de alegria em noite de Natal,

Cheia de luz, como se fosse um cristal. (4)

 

Voltávamos depois para ceia,

Ceia de festa, linda, em noite fria.

Pratos e doces da mais fina teia.

A família inteira, em inteira harmonia,

Recordava os que partiram, os antepassados.
Nesta noite, connosco, queridos e amados. (5)

 

Teófilo

Manziana,15 de dezembro de 2020

 

1)      Um pequeno poema recordação dos meus tempos de criança, em que recordo o Natal da minha aldeia. Ninguém dorme na noite de Natal. E ninguém falta à missa do galo que é a missa da meia noite. Recordo-me da luz e da Igreja cheia àquela hora. E todos resistiam ao frio.

2)      É evidente que esta tradição não é só da minha aldeia. É de todo o Portugal. Hoje talvez as coisas estejam um pouco diferentes. Por razões das mais diversas espécies há talvez algumas tradições que se vão perdendo. Mas a missa do galo, não. Permanece firme. É verdade que em tempos de pandemia as coisas podem mudar. Ali estava a aldeia inteira a celebrar esta missa da meia-noite. Uma verdadeira sentinela à espera do menino Jesus.

3)      Outra tradição de que todos nos lembramos: a fogueira no adro da Igreja. Sei que nalgumas aldeias estão fazendo um esforço para recuperar essa linda tradição. Aquecia-nos fisicamente nessa noite fria de Natal. Talvez nos preparasse também a receber com mais calor no coração o Menino Jesus que chegava naquela noite. O Menino Jesus a todos conquistava na pobreza do presépio: adultos, jovens e crianças.

4)      A noite de Natal (como a noite de Páscoa, aliás) sempre atraiu a minha curiosidade de criança. Mais do que curiosidade haveria já na ingenuidade que então me habitava, como a qualquer criança, o amor a Jesus Menino que já nos era segredado pelas nossas catequistas. Uma espiritualidade incipiente. E lembro-me que gostava de ficar bastante tempo contemplando o Menino Jesus na sua pobreza e na sua simplicidade. Como hoje ainda. Encanta-me contemplar os presépios. O Menino Jesus, figura central. Mas todas as outras que ali aparecem. Todas têm uma mensagem a transmitir-nos. Depois, na nossa pobreza, ofereceríamos ao Menino Jesus um presente. Simples e humilde, diria quase, o que convinha a Jesus, também Ele simples e humilde, ali, na manjedoura, à nossa espera. E desse presente físico talvez já saltasse para a oraçao. O melhor presente que poderia oferecer a Jesus. Talvez aquele de que Ele mais gostava. E na oraçao oferecei-lhe o meu coração. Orações de criança que não esquecem. Tenho saudade dessa singeleza, dessa simplicidade. Talvez a tenha perdido com o tempo. Hoje vejo junto ao presépio que é um valor a reconquistar.

5)      E depois era a volta a casa para a ceia de Natal… e talvez o presente do Menino Jesus já tivesse chegado. Às vezes só chegava no dia seguinte. A Ceia de Natal era a Ceia da comunhão e do amor familiar.

Vi em algumas aldeias transmontanas um costume antropológico de grande importância. À mesa havia sempre um lugar (ou mais se necessário fosse) para os membros da casa que tinham partido para Deus naquele ano. Ninguém se sentava naqueles lugares. Celebravam já o Natal celeste. Mas naquela noite estavam ali connosco. Da antropologia chegávamos a teologia. Estávamos em plenitude na comunhão dos santos, concretamente com os santos da nossa casa. Tinham-nos deixado, mas permaneciam connosco. Naquela noite Deus descia à terra para nos salvar. E trazia com Ele a recordação dos nossos defuntos que já viviam a salvação. Nessa saudade natalícia nem era a recordação da morte que era primeira. Bem ao contrário, lembrávamos a vida que já têm em Deus. A vida, tão presente no berço de Belém, no Filho de Deus que nos é dado e que a Virgem Maria oferece ao mundo. A vida que será resgatada de todo o pecado, mais tarde, na Cruz. A vida em abundância na qual se encontram os nossos antepassados que já estão com Deus, depois de o terem encontrado tantas vezes, feito Menino, no presépio da aldeia. E com isto regresso aos presépios da minha infância em Matela, em Carção e sobretudo, em Santulhão. Com saudade…

Um costume parecido, que te leva à mesma conclusão, mas de modo diferente, vivi-o numa noite de Natal em Salzburgo, em 1984. Depois da missa da meia noite todos éramos convidados a ir ao cemitério. Achei aquele convite estranho, na noite de Natal. E com o frio que estava! Mas acompanhei a família que me acolhia, naquela noite santa. Acabei por viver uma das mais lindas experiências da minha vida, mesmo se era num cemitério pela uma da manhã. Nada de medos. O cemitério era um mar de luz. Em todas as campas havia luzes acesas. E compreendi o convite do Pároco: cada família ia à campa dos familiares e ali rezava por um momento. Mais uma vez, a Igreja-Comunhão de que já falei. Naquela noite de vida, os nossos falecidos estavam connosco. Celebrávamos Natal juntos, ainda que de modo diferente. Nunca esqueci essa noite de Natal de Salzburgo.

Aliás, antes da missa tinha tido outra experiencia extraordinária, que não se esquece facilmente: a família que me acolhia levou-me a Oberndorf (muito perto de Salzburg), onde se cantou pela primeira vez a canção Noite Feliz, na missa do galo de 1818. Sentir e ouvir cantar essa letra do Padre Joseph Mohr, musicada por Franz Gruber, no próprio local onde foi cantada pela primeira vez é algo de único. Foi uma grande experiência humana e religiosa. Que me trouxe uma grande alegria interior. Inesquecível!

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