domingo, 27 de dezembro de 2020

Matar fascistas


O que há aqui de  chocante? A implícita  apologia da violência.  Da violência  revolucionária.

A esquerda cala-se e, no  seu íntimo, aprova; a  direita reprova e rejeita,  mas fica calada 

 

Maria de Fátima Bonifácio     - Público                                       

Historiadora

 

Em 9 e 10 de Dezembro, foi exibida no CCB uma peça encenada pelo director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues, que é também o autor do texto a que deu o título gentil "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas". A peça subirá ainda ao palco no Teatro Nacional nas datas simbólicas entre 7 e 25 de Abril de 2021.

 Espera-se um sucesso apoteótico, graças à qualidade e pertinência da peça e ao grande fervor antifascista que ainda por aí grassa. O desaforo do título escolhido revela o sentimento de impunidade da esquerda, e o silêncio envergonhado da direita. Quem, da direita, ousou manifestar-se contra uma abjecção destas?

Imagine o leitor que eu publicava um texto intitulado “A beleza de matar comunistas”; imaginem que na minha família existia uma “tradição antiga que cada membro da família sempre seguiu”, a de matar comunistas. Mal o texto fosse tornado público, de imediato se levantaria um tsunami de insultos e uma enxurrada de exigências de ostracização da minha pessoa.

Quem não venera o PCP nem o Bloco,  quem não simpatiza com a ala esquerdista do  PS, quem não alinha pela extrema-esquerda,  quem não aprecia antifascistas com o zelo de  Tiago Rodrigues merece ser punido e expulso  da pólis. Tiago Rodrigues foi nomeado director artístico do Teatro Nacional em 2018,  e viu agora o seu mandato renovado para o  triénio de 2021-23. A vida tem-lhe corrido  bem. Em 2019, foi galardoado com o prémio  PessoaEstá visto — como de resto já sabíamos  de sobejo — que ser de esquerda rende muito,  seja ela moderada ou radical.  

 Numa espécie de sinopse que acompanha o  anúncio da futura estreia, pode ler-se que a  tradição familiar e “antiga que cada membro  da família [de Catarina] sempre seguiu” foi a  de, sem falhas, matar fascistas. Mas o título  acrescenta algo mais: acrescenta — a “beleza  de matar”. Afinal, o acto de matar ergue-se  até ao elevado e sublime patamar do belo;  nessas alturas, cruza-se com os assassinos do  ucraniano que, segundo a tese de Tiago  Rodrigues, podem muito bem ter actuado  impelidos por uma irreprimível sede de  beleza.  

 A peça, de seguida, para preencher a sua  notória vacuidade, encena uma dissidência  familiar destinada a conferir-lhe uma  pontinha de tensão dramática. Catarina  estraga o que estava pensado para ser “um dia  de festa, de beleza e de morte”: chegado o dia  de matar o seu fascista, hesita, tremula e  recusa-se a perpetrar o assassinato. E a partir  daí “estala o conflito familiar”. A discussão  suscitada pela recusa de Catarina desagua  numa série de perguntas morais que até aí  não tinham perturbado o remanso familiar:  desde logo, o que é um fascista? A sequente  discussão passa-se já sob a presença  fantasmagórica de uma outra Catarina, a  ceifeira Catarina Eufémia, assassinada pela  PIDE em 1954. Este ensombramento  funcionaria como o papel do coro nas  tragédias gregas. A PIDE não resistira à beleza  de matar Catarina Eufémia! Porque haveria a  família de resistir e violar a sua orgulhosa tradição? A violência será legítima quando a  ela se recorre para fundarmos um mundo  melhor? Quando a ela se recorre para  defender a democracia? A resposta  subliminar de Tiago Rodrigues é positiva.  

 

O que há aqui de chocante? Há aqui de  chocante a implícita apologia da violência.  Da violência revolucionária. A esquerda  cala-se e, no seu íntimo, aprova; a direita  reprova e rejeita, mas fica calada. Os meios  justificam os fins? A história do século XX  diz-nos que não. Porém, são tantos e tantos  os intelectuais da segunda metade do século  XX que teorizaram e ostentaram — sim,  ostentaram — a sua cumplicidade e  solidariedade com a violência soviética e,  depois, como se o estalinismo não bastasse,  a sua admiração pelo maoismo! Não há como  não concluir que a violência fascina.  

Mas o mais intrigante, neste século XXI, é o  pouco que aprendemos com a História.  

Apesar da ONU, da UE, da NATO, a ideia de  violência revolucionária não morreu, apenas  aguarda um momento oportuno para de novo se matar fascistas, para que reabra a época da  caça. O título da peça citada é uma provocação muito reveladora: “Catarina e a  beleza de matar fascistas.” Que beleza é esta  que se exprime através da violência assassina?  Será que existe algo de belo no horror? Talvez.  

É lamentável. Porém, o mais tenebroso é  que a “violência”, quer de esquerda ou de  direita, quer seja a violência do Estado,  continue a imperar descansadamente. O  ucraniano morto à paulada — algo que no  século XXI julgávamos já não fazer parte dos  costumes — não suscitou nenhuma  indignação ou alarme por aí além. Só  recentemente, graças à comunicação social,  fomos informados sobre a gravidade do que  há demasiado tempo se estava a passar. Então  sim, o assassínio do ucraniano pelo Estado  suscitou um sobressalto das consciências. E  parece que o dr. Cabrita (o Estado, portanto),  tendo sob a sua alçada tudo o que diz respeito  à Administração Interna, teve finalmente um  amargo despertar do seu letargo. A aflição  inspirou-o: colocar um botão na sala de  interrogatórios para que peçam socorro os que, apanhados nas malhas diabólicas do  SEF, já não aguentam mais pancada. Ou seja:  o ministro Cabrita, conhecedor há muito  tempo do que se passa nas instalações do SEF  no aeroporto de Lisboa, quis suavizar a  violência do que por lá se faz e ele bem sabe o  que é. Caso não soubesse, não prevenia a  coisa com um ridículo botão para quem está  entre a vida e a morte e não experimentou  ainda a alegria de matar, só o horror de ser  morto. 

 

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