sábado, 12 de dezembro de 2020

MARIA CASTANHA


Armando Fernandes - Nordeste


JORGE LAGE
O investigador Jorge Lage tem consagrado anos de estudo e enaltecimento do fruto/pão das gentes transmontanas que outrora tinham na castanha elemento primacial para o fabrico do pão ganho com o suor do rosto e o sangue das mãos escalavradas no espinhoso amanho dos campos. Se a castanha era o elemento principal das parcas, apagadas e persistentes refeições no denominado reino maravilhoso, maravilhoso apenas para alguns, os povos de onde predominava o montado, azinheiras e sobreiros, tal como os castanheiros, ajudavam a manter as crianças, mulheres e homens tinham na bolota – crua, assada, cozida, frita e estufada – a matéria-prima que lhes saciava a fome de remota ancestralidade. Ora, a Antologia de Jorge Lage pode ser entendida na consumação do desejo de alargar o universo dos amantes e amigos da milenar árvore através do ponto de vista de outros autores, vivos, acerca da árvore que enquadro no universo das hierofanias vegetais que o Homem criou ao longo dos séculos e séculos de existência a lutar contra toda a sorte de medo, terrores e catástrofes que não conseguia decifrar ou entender. 

O fecundo sábio Mircea Eliade legou-nos profundas reflexões sobre o Sagrado e Profano que obrigam ao cogito e a dizer-nos que existimos. Este propósito agregador de Lage desequilibra/desequilibrou a Antologia porque vários autores não concederam grande atenção ao espírito do Coordenador escrevendo conforme lhe deu na real gana, desde o furoco temático às notas biográficas prenhas de presunção e água benta, porque nestas matérias cada qual expande o que quiser – vanidades, auto-elogios e minúcias de prosápias – cujo ridículo é patente e notório. Obviamente, o antologiador nada podia atalhar, na justa medida de respeitar as regras de boa educação a impedi-lo de sugerir ou proceder a rejeições dado ter solicitado empenhadamente a colaboração aos autores que deram corpo à obra. Como todos sabemos existem Antologias de múltiplos matizes e fórmulas, lembro as famosas Antologias da extinta Portugália, concebidas ao gosto e conhecimento dos organizadores, José Régio, Jorge de Sena, Cabral do Nascimento entre outros escolheram e trouxeram à tona da água do reconhecimento autores que sem integrarem as referidas Antologias ainda agora estariam a jazer no alçapão do esquecimento. Obviamente, as Antologias também são fautoras de invejas e até raivosas ciumeiras de quem não as integra, uma delas, a do também itinerante cultural Herberto Helder (foi responsável pela Biblioteca Itinerante de Santarém, episodicamente de outras quando Serviço de Bibliotecas estava a ser lançado) intitulada Edoi Lella Doura produziu ruído e acrimónias perduráveis no tempo e modo ou não fosse o universo das letras um mundillo no qual até os peões de brega querem ser diestros do talante de Manolete. Estas considerações, talvez impertinentes, escrevo-as correndo o perigo de ser apodado de invejoso ou mal agradecido visto ser um dos antologiados. Sopesei os prós e contras, decidi o acima escrito, procurei contribuir para a qualidade e formosura da Maria Castanha dentro do possível, a mais não fui obrigado em virtude da lhaneza de Jorge Lage a quem testemunho o meu apreço. A obra justifica, ampla, e atenta leitura, morigerada ao gosto de cada um, neste tempo os castanheiros largam a folhagem caduca à espera de nova floração. Reviver superando a maligna peste. 

PS. Ao contrário do inserido na Antologia acerca da minha pessoa não nasci em Vinhais, sim em Bragança e vim ao Mundo no ano de 1945, ao contrário do indicado ano de 1965. Menos vinte anos agora seriam como princípio do elixir da longa vida!

FONTE: http://www.jornalnordeste.com/opiniao/maria-castanha


Comentário de Tempo Caminhado

Aos colaboradores assíduos deste blogue nunca fazemos comentários aos escritos (salvo uma ou outra excepção). Armando Fernandes não é colaborador do blogue. O artigo fomos buscá-lo ao jornal Nordeste. Por essa razão fazemos este comentário circunstancial. 

A opinião de Armando Fernandes é tão respeitável como qualquer outra. Contudo, em nada concordamos com ela. A opinião é dele, mas não é assertiva. Poderiamo contradizê-la, ponto por ponto, mas não o vamos fazer. Apenas salientamos a referência que faz a Mircea Elíade. Se Armando Fernandes conhecesse a sério o pensamento do sábio, saberia que o antologista não desequilibrou coisa nenhuma ...bem pelo contrário.

Quanto ao Post scriptum que insere no artigo, a culpa é inteiramente sua, porque aquilo que está disseminado na internet, é exactamente o que está nesta Antologia. Mais, nada se diz na internet que é natural de Bragança e que nasceu em 1945.

Armando Fernandes se quer que as suas notas biográficas apareçam com rectidão, tem que corrigir, ou mandar corrigir o seu curriculum online. Ainda bem que o fez (só) agora.

A título de exemplo deixamos prova do que dizemos na sua nota biográfica Wook

Armando Fernandes, licenciado em História pela Universidade Clássica de Lisboa, concluiu o Curso Superior de Bibliotecário-Arquivista na Universidade de Coimbra e é Mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa. Investigador na área da História da Alimentação, Costumes e Usanças Alimentares e consultor cultural.
Desenvolve atividade no domínio das indústrias culturais e criativas, tem diversas obras publicadas e colabora em vários órgãos de imprensa.
É autor das seguintes obras, entre outras: Contrastes e Transformações na cidade de Bragança: 1974-2004Contrastes e Transformações em Vila de Rei 1974-2004Contrastes e Transformações em Vila de Rei 2005-2013Bragança Marca a História/A História Marca BragançaMeu Nome é Bragança; Figuras Notáveis e Notórias BragançanasCadernos de Receitas TransmontanasComeres Bragançanos e TransmontanosÀ Mesa em Mação – Carta Gastronómica (Prémio da Academia Internacional de Gastronomia)Cozinha Económica em PortugalSabores da Aldeia – Carta Gastronómica das Aldeias do Xisto, (Prémio Francisco Sampaio); Ágape – Banquete Ritualístico MaçónicoCarta Gastronómica do Concelho de Bragança.

Colaborador permanente da Revista INTER – Comeres. Beberes, e outros prazeres e escreve nos jornais O RibatejoA BarcaMensageiro de BragançaNordeste Informativo e no digital Médio-Tejo, é também autor de conteúdos para o projeto Observatório Nacional da Gastronomia em Santarém.

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