quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Conto de Natal

 

A excitação da Consoada começava com a azáfama das mulheres a irem ao mercado comprar o polvo, o bacalhau, a couve penca e o rábano para a típica ementa natalícia: no almoço o arroz de polvo e polvo frito, na Ceia o bacalhau e a couve-penca (abençoada) e a raba amarela, que nunca mais via no resto do ano! As rabanadas, as filhós, os sonhos, o pudim de ovos e a aletria (a minha alegria!).

Na noite de Consoada, o avô Francisco Sales trazia para a mesa uma grande bandeja, quase do tamanho da mesa, esmaltada, de verde-escuro, com motivos florais, que deve ter mandado fazer de propósito. Na bandeja havia uma grande profusão de chocolates, nozes, figos, pinhões, amêndoas, avelãs, bombons e um rapa!

A maior divisão da casa era a cozinha, enorme, que constituía o centro de tudo: ao fundo a lareira, com bom braseiro, por cima o cabanal com os enchidos, e ao lado o escano corrido com a mesinha de rebatimento ao centro e, num outro canto, um pinheiro decorado com laranjas, sombrinhas e barrinhas de chocolates atadas com um fino fio de tecido colorido, algumas estrelas, feitas à mão, revestidas a papel de prata e, na base, um presépio, feito de musgo, decorado com o Menino-Jesus nas palhinhas e as figuras bíblicas em bonitas réplicas de barro. Num cantinho, uma banda de música, de fardas azuis, que foi perdendo músicos ao longo dos anos. Magia pura para os mais pequenos.

No ar, os aromas que ficaram para a vida, dos cozidos e das frituras e na mesa, as dez ou doze pessoas que compunham a família, do lado materno, os Sales, (empregada inclusa). À mesa, o mais velho dizia sempre umas palavras, acentuando o significado da festa de Família, recordando os que morreram e saudando os presentes, não deixando grande margem para a origem desta tradição: o Nascimento de Jesus. O mais perfeito quadro da mistura do sagrado e do profano! Efeméride que a tradição transformou em festa da família, quando Jesus Cristo não foi um homem de família.

Depois da Ceia, jogava-se ao rapa-e-tira, a pinhões e eu, como sempre ao jogo, comecei cedo a perceber que perdia. Os frutos secos, descascados em casa, tinham aquele sabor transmontano que quase já só recordo.

Pela meia-noite, e porque era um dia excepcional, enquanto os mais velhos jogavam à sueca, os mais novos iam para a cama, não sem antes pousarem os sapatinhos junto da chaminé.

Mas à meia-noite mesmo, as mulheres iam à Missa do Galo e os homens ficavam a beber mais um copo.

Dormir agitado e acordar cedo era a regra da manhã do Dia de Natal. Corria-se para a base da chaminé e, depois de abrir as prendas, desembrulhar as roupas que já vinham fazendo falta, lá haveria uma prendinha mais lúdica, algum carrinho de madeira ou, que luxo, um de lata pintada, com portas a sério! Como eu gostaria de ter hoje esse carrinho de lata, que nem sei se alguma vez recebi!

Por vezes, a meio da noite, algum de nós ia espreitar para ver se apanhava o Menino-Jesus em flagrante, mas tal nunca nos saiu em sorte! Nem, que conste, a ninguém. Aqui ainda não entrava o Pai Natal.

Depois, acalmadas as excitações, passeava-se um pouco, se o Inverno o deixava, até à hora de almoço, ainda em família. A ementa era a roupa-velha, feita com os restos do bacalhau e da couve penca da Ceia.

Mais tarde vivi os Natais da guerra, na Guiné, um acompanhado e outro sozinho. A família era outra, de homens irmanados pela saudade e pela sede de Paz. Quanto mais tentávamos imitar os Natais passados, mais emoção nos invadia para vencer. A alegria do álcool era efémera. A tristeza amarga vencia sempre.

Esta, é hoje a minha herança de Natal, onde se inscreve o meu Natal de agora. Assim, faço como me fizeram a mim, e bem. Religiosamente devo estar muito perto do avô e do pai, mas hoje o patriarca sou eu! Sou eu que explico o significado desta Festa da Família. Que lembro quem partiu. E que sempre, mas sempre, trago para a mesa mais Um. UM que deu o nome ao tempo, que deu sentido à vida e que deu o nome à Festa: Festa da Natalidade de Jesus Cristo, Homem, há 2020 anos.

Ao chegar a este dia 24 de Dezembro de 2020 falarei, como sempre tenho feito, na figura central destas festas de família com conteúdo religioso. Religioso, mas vividas por muitos que o não são, ou que o são à sua maneira. Na minha infância era o menino Jesus que me seduzia. Na idade adulta e até hoje, e mais tempo que venha, é Jesus Cristo que me seduz. Era em nome Dele que recebíamos as prendas nos sapatinhos alinhados na base da chaminé.

 “A humanidade não conservou recordação de nenhum homem que, mesmo de longe, se assemelhe a Cristo”. Quem escreveu isto foi o poeta alemão Goethe[1].

“Nenhum outro homem, depois de ter desaparecido da terra, continuou tão «vivo» e actuante; nenhum transformou tão poderosamente indivíduos, instituições e o curso da História (esta tomou o ano do nascimento de Jesus como marco miliário da sua cronologia); nenhum foi tão estudado, discutido e meditado; nenhum originou tão vastas e grandiosas realizações nos mais variados campos da actividade humana (desde a arte à cultura, desde a assistência à promoção social); nenhum despertou tanto entusiasmo, fidelidade e generosidade; nenhum tão amado, tão seguido, tão servido; nenhum conquistou tantos e tão diversos corações humanos de todas as idades e condições sociais em todos os tempos e lugares; nenhum contribuiu tanto para a promoção do homem a todos os níveis, fazendo brotar tantos frutos de virtude, de ciência, de heroísmo e de amor”[2].

Jesus Cristo pregou o Bem e a Justiça contra os poderes instituídos, religioso e político. Foi um revolucionário que deu a vida pelos ideais de defesa dos mais elementares direitos do Homem. Normas de conduta, velhas como Ele, que regem todos os Homens de Boa Vontade.

E se um dos mais novos me perguntar se Jesus é Deus, dir-lhe-ei que não sei!

Este texto é o meu exemplo de vida e, hoje, a minha oração de Natal.

 

Feliz Natal!

                                                                                                   JG


[1] Goethe (1749-1832), autor de “Fausto”, é considerado o maior escritor (poeta, dramaturgo) da língua alemã. Chegou a viver em Sintra, que considerava o paraíso terrestre.

[2] Citação da “Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura”, da Editorial Verbo, 11º vol., p. 554 e 555.

3 comentários:

  1. Lindo texto, a levar-nos ao passado ainda ali pertinho...
    Boas Festas!

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  2. Apreciei e de que maneria! Mais do que um conto singelo é um memoriável memorial literário que Jorge Golias nos oferece no tempo encantado de Natal e que a mim tanto me diz. Boas Festas. Abraço.

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  3. Belo conto do Natal narrado na 1ª pessoa.
    É uma história de vida a despertar tantas outras memórias dos que vivenciaram Natais semelhantes!

    Bem haja quem resgata, através da escrita, os cheiros, os paladares e, sobretudo, o sentido da Fé e do Amor no seio familiar!

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