ANTÓNIO MAGALHÃES
Cármen
Mari segura a caneca com as duas mãos, junto dos lábios.
No seu
olhar distante e como que perdido, funde-se o vapor do café ainda quente,
humedecendo-lhe os olhos. Mas não chora. Nem sequer, naquele olhar de
lusco-fusco, humedecido pelo vapor quente do café, haverá qualquer vestígio de
lágrimas. Não, essas secou-as há muito tempo, como o leito de um rio que lhe
estancassem a sua nascente.
E neste
olhar há apenas uma ausência do mundo, como quem desistisse de uma vez por
todas de entender a vida, os seus desígnios e as suas manhosices. Uma ausência
de quem está não estando.
Cármen
Mari recorda naquele olhar vazio, através da vidraça, uma manhã diferente de
todas as outras que até esse fatídico dia teve ou jamais terá. Foi como se a
sua vida tivesse parado nesse dia. A vida parou, mas o mundo não. Esse
continuou indiferente às tristezas ou mesmo as alegrias.
O amor por
vezes pode ser comparado a uma flor. Regada, tratada, mantem-se bela e
perfumada. Mas também a flor tem a sua época, o seu tempo de florescer. E
passado esse tempo, murcha por um período, deixa cair as pétalas que se hão de
renovar. Murcha, mas não morre, porque a raiz continua pegada à terra, e
chegado o seu tempo voltará a florescer. Mas se a flor não for regada, tratada,
acabará por morrer, simplesmente porque a raiz não foi alimentada.
O amor é como
a flor, e a flor não morre porque a terra a segura. As raízes são fortes e
unem-nas. E por vezes murcha até que volte a ser cuidada, tratada, regada.
Assim é o
amor entre duas pessoas que como a terra e a semente criaram raízes e
floresceram. E de vez em quando, mesmo que unidas pela raiz que as liga, também
murcham.
E depois
vem um arrufo que dura mais do que devia. A vida é curta, mas o orgulho por
vezes é forte e estúpido.
Nem
sempre as boas relações começam da melhor forma, mas o tempo e a convivência
por vezes ajusta o que era já uma semente destinada à terra que ainda não a
houvera recebido.
Dai
nasceu o amor, porque foi regado, tratado, cuidado, até que começasse a
florescer, até que da terra e da semente se criassem raízes que as unissem.
Mas tal
como a flor que se gosta, por vezes há o desleixo de a tratar, regar, cuidar. A
vida e os seus afazeres, as suas incongruências, absorve-nos. Ninguém se acha
no dever de quebrar esse orgulho, a razão e a falta dela. Ficam coisas por
dizer, e fica a vida a passar, como se fossemos eternos, como se nos pudéssemos
dar a esse luxo de desperdiçar tempo, calados, amuados, estupidamente
orgulhosos.
E vem uma
manhã, no decorrer de um desses arrufos, e com ela vem também uma lição que
Cármen Mari irá aprender…tarde de mais.
O marido
veio cedo para casa. Não era costume.
Apeteceu-lhe
perguntar, estás doente? Aconteceu alguma coisa? O que se passa?
A
preocupação estava com ela, mas o orgulho também, e depois do arrufo que durava
há dois dias, não quis quebrar, não quis ser ela a ceder, e por isso recebeu o
beijo que ele lhe deu ao entrar em casa, com uma falsa indiferença, como se
estivesse distante e distraída, uma vez mais a corroborar uma razão no
argumento que os levara ao amuo.
Enquanto
ela ficou ali no sofá a digerir aquele orgulho sem sentido, um truz, truz,
ouviu-se vindo da porta da frente. Levantou-se e foi abrir.
Na limiar
da porta um vulto surgiu como que sinistro. Um homem alto, forte, bonacheirão.
Tinha um ar grave e quase comprometido.
Disse,
numa voz quase rouca e tímida.
“Minha
senhora, receio que lhe traga más notícias…”
Depois
parou por uns escassos segundos, baixou os olhos ao nível dos sapatos que lhe
completavam o uniforme de polícia, e quase num sussurro proferiu.
“O seu
marido sofreu esta manhã um grave acidente.”
Parou por
uns segundos, subiu o olhar um pouco mais, mas mesmo assim, dada a gravidade da
notícia, continuou a não ter coragem de encontrar os seus olhos com os olhos de
Cármen Mari.
“Minha
senhora, um acidente fatal…”
Cármen
Mari deixou escapar um sorriso que apesar de tudo denotava um certo
inexplicável nervosismo.
“Desculpe,
deve haver um equívoco. O meu marido veio para casa mais cedo, foi tomar banho
e está agora a descansar…”
O polícia
bonacheirão voltou a descer o olhar ao nível dos sapatos ao mesmo tempo que
estendeu um pequeno embrulho a Cármen Mari.
“Calculo
o quão difícil é este momento, minha senhora. Aqui estão alguns dos objetos
pessoais do senhor seu marido.
Atónita, trémula,
quase sem forças nas pernas, Cármen Mari pegou no embrulho. Abriu-o. Dentro
continha uma carteira que de imediato reconheceu. Uma aliança que havia
simbolizado a união da semente com a terra.
Cármen
Mari deixou a porta e o mensageiro das más, estonteantes, incompreensíveis e
sem nexo, noticias, e correu ao quarto.
Abriu a
porta de rompante. O quarto estava vazio, a cama impecavelmente feita, tal e
qual como a havia deixado nessa manhã.
O coração
foi, bum, bum, bum, a cabeça pareceu absorver todo o peso do seu corpo, e a
insustentável leveza nas suas pernas fizeram com que todo o chão desaparecesse
dos seus pés.
Mesmo
assim, com um impulso parental à força com que se move a natureza, correu à
casa de banho abrindo a porta impetuosa.
Vazia,
limpa, arrumada, nem sequer um pequeno sinal de humidade na banheira. Tal e
qual como a tinha deixado desde a última vez que dela se serviu.
Rendida,
vencida, encostou-se à parede de frente à banheira e, com um turbilhão de
pensamentos a afilarem-se uns aos outros, deixou-se escorregar pelos azulejos
brancos e frios como nunca, até ficar para ali, estendida no chão, num
inconsolável e desesperado choro.
O
mensageiro havia entregue a sua mensagem. Nada mais havia ali a fazer. Foi-se
embora.
Dois anos
se passaram, e se é certo que os raios que iluminam toda a terra continuam a ser
expelidos pelo mesmo sol, no mesmo mundo de sempre, também não é menos certo
que esses mesmos raios de luz já não aquecem nem iluminam o coração de Cármen Mari
como outrora.
Cármen
Mari segura a caneca com as duas mãos, junto dos lábios.
No seu
olhar distante e como que perdido, funde-se o vapor do café ainda quente,
humedecendo-lhe os olhos. Naquele olhar vazio, sem expressão, reside bem lá no
fundo uma mágoa que não consegue ultrapassar. Que dói como uma culpa de quem
ficou sem tempo de aproveitar o tempo quando o tem.
(Retalhos
do Quotidiano páginas 39, 40, 41)
António Magalhães

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