
Mário
Adão Magalhães
Recentemente uns senhores
do camião do lixo, como vulgarmente dizemos, encontraram uma boa quantia de
dinheiro e fizeram-na chegar ao dono.
A própria Câmara
Municipal da Póvoa de Varzim, de onde aqueles senhores prestam o seu trabalho
tão desdenhado, por montes de nós, mas entre outros factos mais, basta vermos
um diazinho de greve ou até um feriado em que se lhes permitem permitir-se estar
junto da família, aí lembramos-nos.
Lembramos-nos, com uns
senãos, porque são senãos enormes que não cabem aqui, e agora. A Câmara, dizia,
agraciou-os.
Casos idênticos têm vindo
recentemente a lume, e de ser tão dignos que deslumbram alguns de nós e a mim
me traslumbram. Tenho tomado conhecimento de outros, também fora de Portugal.
Mas cada um com contornos enternecedores.
Isto fez-me lembrar que
eu era mocito para os meus cinco, seis anitos, encontrei um relógio de senhora.
O meu todo e tão saudoso pai mandou anunciar na igreja, na missa do domingo
imediato.
Ai tempos, tempos em que
tudo era tão peculiar que nos leva, normalmente, um pouco a brincalhar,
dizermos que antes é que éramos felizes e não sabíamos. E não era tão mentira.
Durante muitos meses ninguém
apareceu a reclamar o relógio. O meu todo e tão saudoso pai voltou a mandar
anunciar da missa. Por fim apareceu uma senhora. São muitos anos passados que
eu só lembro que era uma senhora franzina. Agradeceu muito e meteu os pés ao
caminho para regressar a casa, provavelmente longe, porque não era conhecida.
Não andou muito, voltou
atrás e deixou uma nota de vinte escudos. Ao tempo era muito, muito dinheiro.
Não sei se o relógio valia ou se até teria valor sentimental, porque eram
tempos em que as coisas, determinadas coisas tinham valores sentimentais.
Falo por experiência
pessoal porque dava (ainda hoje dou) imenso valor a pequenas coisas. ‘ inda
hoje recordo com tanta desagradabilidade, por exemplo, um lenço. Um pequeno e
simples lenço. O que designamos lenço do bolso. E dava-lhes valores especiais
sendo ofertado de quem fosse o ofertante. No caso foi a minha madrinha, a minha
irmã menos nova (…) a quem debotava já muita afinidade, muita ternura.
Invoquei aqui o meu todo
e tão saudoso pai. Não em vão.
Lições de humildade,
bondade e todo um escol de exemplos maiores eu guardo ainda muitas das delas
pese mo terem levado com doze anos, tinha ele cinquenta e sete.
O meu todo e tão saudoso
pai trabalhava em calçado, coisa que já vinha do seu pai, a quem eu não
conheci, sequer. Não dá para saber quantas gerações anteriores tinham essa
actividade.
Lembro quando me levava
com ele entregar o artigo aos clientes nas feiras de Lousada e Paredes,
especialmente, porque não era como hoje: Não se tirava o carro da garagem por
dá cá aquela palha.
Então aproveitava que
eles viessem àquelas feiras, para evitar ir mais longe entregar o artigo.
Por mor da humildade
dele, do coração de ouro, da honestidade, que ainda os maiores industriais
felgueirenses, vivos testemunham e reconhecem que não ganhou dinheiro por esse
procedimento… a sua humildade. Histórias bonitas que não são agora para aqui. É
que são imensas e enternecedoras.
Recordo uma frase lapidar
que `inda hoje digo, sobretudo a brincalhar: Saúdinha e bom negócio.
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