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| Jorge Lage |
Tenho dado a conhecer aos leitores algumas das dezenas de milhares de peças do
Museu Rural de Silgueiros - Viseu. A peça eleita do mês de Agosto foi «a ponta
de um corno», lembrando a lei da conservação do sábio gaulês, Lavoisier, que
«na natureza nada se cria,
nada se perde, tudo se transforma.» Até à década de
setenta do século passado, o povo nada desperdiçava e havia utilidade até para
os produtos ou restos sobrantes, sendo a máxima «Guarda o que não presta e
amanhã terás o que é preciso». Com a sociedade da abundância e do desperdício
em marcha acelerada o planeta Terra, abana por todos os lados para tentar
garantir a sustentabilidade. No bom tempo do reaproveitamento de quase tudo
criava-se o reco com restos de comida e pouco mais e com a matança
aproveitava-se tudo do focinho ao rabo. Dentro da pedagogia implementada pelo
museu, demonstra-se que até «a ponta de um carno», vale pela simbologia, por
peça cultural e pela lição do aproveitamento que nos dá. A ponta do corno do
boi tinha vários préstimos, como «transporte de líquidos (vinho para a merenda;
óleo queimado para untar o eixo dos carros; copo para a aguardente do
mata-bicho; e recipiente de água para molhar a pedra aguçadoura do gadanheiro,
entre outras utilidades. Cortava-se a ponta e com o bucal e duas rolhas de
cortiça fazia-se um copo ou recipiente. E «o raio da ponta do corno por onde
todos bebiam era uma peça desprezada pela sua capacidade ridícula. – Olha lá,
cuidado, não te engasgues.» Ainda hoje se ouve mangar de alguém: «- Não mereces
nem a ponta de um corno.»
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