domingo, 15 de setembro de 2019

A ponta de um corno


Jorge Lage

Tenho dado a conhecer aos leitores algumas das dezenas de milhares de peças do Museu Rural de Silgueiros - Viseu. A peça eleita do mês de Agosto foi «a ponta de um corno», lembrando a lei da conservação do sábio gaulês, Lavoisier, que «na natureza nada se cria, 
nada se perde, tudo se transforma.» Até à década de setenta do século passado, o povo nada desperdiçava e havia utilidade até para os produtos ou restos sobrantes, sendo a máxima «Guarda o que não presta e amanhã terás o que é preciso». Com a sociedade da abundância e do desperdício em marcha acelerada o planeta Terra, abana por todos os lados para tentar garantir a sustentabilidade. No bom tempo do reaproveitamento de quase tudo criava-se o reco com restos de comida e pouco mais e com a matança aproveitava-se tudo do focinho ao rabo. Dentro da pedagogia implementada pelo museu, demonstra-se que até «a ponta de um carno», vale pela simbologia, por peça cultural e pela lição do aproveitamento que nos dá. A ponta do corno do boi tinha vários préstimos, como «transporte de líquidos (vinho para a merenda; óleo queimado para untar o eixo dos carros; copo para a aguardente do mata-bicho; e recipiente de água para molhar a pedra aguçadoura do gadanheiro, entre outras utilidades. Cortava-se a ponta e com o bucal e duas rolhas de cortiça fazia-se um copo ou recipiente. E «o raio da ponta do corno por onde todos bebiam era uma peça desprezada pela sua capacidade ridícula. – Olha lá, cuidado, não te engasgues.» Ainda hoje se ouve mangar de alguém: «- Não mereces nem a ponta de um corno.»

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