quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A culpa dos portugueses e a reparação


JORGE LAGE
Tenho acompanhado as atoardas que se têm dito sobre a nossa História por gente de verbo fácil e leve. Recorre-se à verdade distorcida e demagogia ideológica. As comemorações do 10 de Junho/2019 puxaram mais pelo assunto, ao ponto de o prestigiado sociólogo, da nossa região, António Barreto, lavrar um texto que se poderia resumir à afirmação «A ideia de que os portugueses de hoje têm de reparar o que os de há cem ou duzentos anos fizeram é totalmente absurda!» E realça que «Os bairros miseráveis de pobres, (…) devem ser combatidos, demolidos e substituídos por bairros decentes, (…) por motivos ligados aos valores humanos de igualdade. (…) em números absolutos, há mais pobres brancos do que étnicos, negros, ciganos e outros. Dos privilégios para as minorias diz que «Não se combate uma injustiça com outra injustiça.» Ao enviar o texto referido a um grande Botânico (Univ. Coimbra), mui prestigiado na comunidade científica internacional, Prof. Jorge Paiva, recebi a mensagem: «É claro que estou de acordo. Toda essa malta sem cultura que exige reparação, se esquece que nós fomos escravos dos romanos. (…) O que é feito das línguas que falavam os povos anteriores deste cantinho europeu (ex.: estrimníos, ofis, cempsos, lusitanos)? Estudem história, cultivem-se e, depois, falem e escrevam.» A civilização ibérica (e de Portugal) tem centenas de milhares de anos e fomos, também, invadidos por diversos povos. Aquando da romanização os nossos antepassados eram os «Zoelas», com fronteira política e física a ocidente o rio Rabaçal/Tua e a sul a cumeada da Serra de Bornes delimitava. Os topónimos geográficos Mirandela (sufixo «ela» é diminutivo  de «Miranda»)  e Mira(n)deses, sendo que «mir» significa «aprazível ou bela vista» e «randa» o limite. Na margem esquerda tínhamos os «Interamici» (capital a aldeia do Cachão, hoje desabitada, de Valpaços) e Vilarandelo seria a fronteira destes com os «Aquaflavinesi». Portanto, temos, deste modo, o significado correcto e não fantasiado de Mirandela «pequena localidade com boa vista e de fronteira». O rio Tua era o limite do território dos Zoelas, que se estendia até Leão e a cidade mais importante seria Castro de Avelães, junto a Bragança. Na Ibéria dos antigos Iberos apenas resta a língua Basca. Apenas nos ocorre dizer, com algum desconforto, que é preciso encarar as épocas da nossa História à luz do seu tempo. Quando Vasco da Gama torneou a costa oriental lá andavam os mouros/árabes no negócio dos escravos. Talvez fosse mais proveitoso e mais humano trabalhar-se para se eliminarem os estigmas sociais hodiernos em vez de se vomitarem inverdades e ódio.

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