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| JORGE LAGE |
Tenho
acompanhado as atoardas que se têm dito sobre a nossa História por gente de
verbo fácil e leve. Recorre-se à verdade distorcida e demagogia ideológica. As
comemorações do 10 de Junho/2019 puxaram mais pelo assunto, ao ponto de o
prestigiado sociólogo, da nossa região, António Barreto, lavrar um texto que se
poderia resumir à afirmação «A ideia de que os portugueses de hoje têm de reparar o que os de há cem
ou duzentos anos fizeram é totalmente absurda!» E realça que «Os bairros miseráveis de pobres, (…) devem ser
combatidos, demolidos e substituídos por bairros decentes, (…) por motivos
ligados aos valores humanos de igualdade. (…) em números absolutos, há mais
pobres brancos do que étnicos, negros, ciganos e outros. Dos privilégios para
as minorias diz que «Não se combate uma injustiça com outra injustiça.» Ao
enviar o texto referido a um grande Botânico (Univ. Coimbra), mui prestigiado
na comunidade científica internacional, Prof. Jorge Paiva, recebi a mensagem: «É
claro que estou de acordo. Toda essa malta sem cultura que exige reparação, se
esquece que nós fomos escravos dos romanos. (…) O que é feito das línguas que
falavam os povos anteriores deste cantinho europeu (ex.: estrimníos, ofis,
cempsos, lusitanos)? Estudem história, cultivem-se e, depois, falem e escrevam.»
A civilização ibérica (e de Portugal) tem centenas de milhares de anos e fomos,
também, invadidos por diversos povos. Aquando da romanização os nossos
antepassados eram os «Zoelas», com fronteira política e física a ocidente o rio
Rabaçal/Tua e a sul a cumeada da Serra de Bornes delimitava. Os topónimos
geográficos Mirandela (sufixo «ela» é diminutivo de «Miranda») e Mira(n)deses, sendo que «mir» significa «aprazível
ou bela vista» e «randa» o limite. Na margem esquerda tínhamos os «Interamici»
(capital a aldeia do Cachão, hoje desabitada, de Valpaços) e Vilarandelo seria
a fronteira destes com os «Aquaflavinesi». Portanto, temos, deste modo, o
significado correcto e não fantasiado de Mirandela «pequena localidade com boa
vista e de fronteira». O rio Tua era o limite do território dos Zoelas, que se
estendia até Leão e a cidade mais importante seria Castro de Avelães, junto a
Bragança. Na Ibéria dos antigos Iberos apenas resta a língua Basca. Apenas nos
ocorre dizer, com algum desconforto, que é preciso encarar as épocas da nossa
História à luz do seu tempo. Quando Vasco da Gama torneou a costa oriental lá
andavam os mouros/árabes no negócio dos escravos. Talvez fosse mais proveitoso
e mais humano trabalhar-se para se eliminarem os estigmas sociais hodiernos em
vez de se vomitarem inverdades e ódio.


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