sexta-feira, 5 de julho de 2019

Sou apenas a sombra do homem que fui

Sou apenas a sombra do homem que fui
(Porque se envelhece, nem sempre com lucidez…)

António Magalhães
(em Sheffield)
E agora olhem para mim. Uma sombra apenas do homem que fui.
Se me olhassem dentro dos olhos talvez pudessem ver anos de solidão, talvez pudessem ver uma vida de sofrimento, mesmo nos momentos em que pareço rir, mesmo nos momentos em que pareço feliz.
E agora, mesmo lutando com forças que não tenho, falta-me por vezes a coragem, a vontade de continuar.
Como se foge do inevitável fim do caminho?
Afinal quem sou eu mais do que um sem abrigo? Afinal quem sou eu mais do que um pobre pedinte sem eira nem beira. Quem sou eu mais do que aquele que sofre, aquele que se encontra sozinho no mundo.
Deus, porque nos fizeste assim?
E um dia, uma manhã como muitas outras, um despertar e as higienes matinais, cospe-se a pasta dentífrica que quase mecanicamente se esfregou pelos dentes, levanta-se a cabeça e o espelho que ali se prostrou de frente aos olhos ainda semicerrados, e um não sei quê, um não sei quê que se não explica, descobre subitamente um pequeno cabelo branco como que escondido entre todos os outros, como que envergonhado…ou antes matreiro?
Um cabelo que mudou de cor, que ficou branco e não se havia notado até que, nessa manhã como tantas outras, os olhos incrédulos, petrificados pela surpresa, num olhar que nunca até aí se tornasse tão atento, descobre que afinal, o cabelo branco não está sozinho. Aqui e ali, e são tantos apenas dispersados, escondidos como que envergonhados… ou talvez matreiros…?
E esse mesmo olhar, petrificado, surpreso, incrédulo, penetra no espelho para uma curta viagem onde uma realidade que foi tudo menos o reflexo da vida que se levou, surge como se de uma fantasia se tratasse.
Ontem fui ao supermercado por volta das seis. Não me lembro o que fui fazer. Também não me lembro de ter deixado o fogão ligado, se nesse dia nem comi. Não me lembro, e, no entanto, esse momento que eu vivi, foi como se não tivesse existido.
E são tantas as coisas que vou esquecendo. E são tantas as pessoas que deixo de reconhecer. E são tantos os lugares que quase por magia se tornam desconhecidos e por essa razão neles me perco, confuso, com medo, com inabilidade de neles me guiar de volta ao meu caminho.
E um dia, talvez mesmo estando, eu já não estou. Talvez outros me conheçam, mas eu não saberei quem sou.
A esses, peço desde já desculpas. Tenham paciência. Não me vejam como apenas a sombra do homem que fui, mas lembrem-se de quem eu era.
Deus, porque nos criaste assim?

E agora, olhem para mim,
Sou apenas a sombra do homem que fui.
Olhem-me dentro dos olhos e assim,
Poderão ver anos que a solidão reflui,
O homem que fui e está dentro de mim.

Caminho pelas ruas deambulando,
Perdido em sombras que o passado levou,
Percorro caminhos procurando,
O homem que fui e já não sou,
E as pessoas indiferentes, vão passando.

Se ao menos vocês pudessem ver
Dentro dos meus olhos a solidão,
Saberiam que feliz eu pudesse parecer,
Mas na verdade isso não,
Era apenas eu a sofrer.

E nos momentos que me viram rir,
Nos momentos em que parecia feliz,
Era apenas o meu vazio a mentir,
Como se fosse essa a vida que sempre quis,
Com se fosse esse o meu sentir.

Se ouvissem o que em desespero vos digo,
Se nas entrelinhas me conseguissem ler,
Saberiam que sou como um sem abrigo,
Uma alma em constante sofrer,
Um pobre sem o ser, um mendigo.

E agora olhem, olhem bem para mim,
Sou a sombra do homem que queria ser,
E Deus, porque nos criaste assim,
Porque nos deixas sofrer
Se para viver, é tão triste o nosso fim?

Não reconheço os dias que amanhecem,
E já nem sei se aqui estou,
Perdoem-me aqueles que me conhecem,
Porque eu não me conheço, não sei quem sou.
Perdoem o trabalho que vos dou, e não merecem.

E agora, olhem bem para mim,
Sou apenas a sombra do homem que fui.
Quando novo tive sonhos e assim,
Como um rio que corre, que flui,
Do homem que fui, foram-se os sonhos antes do fim.
(Possivelmente Poemas)

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