terça-feira, 30 de outubro de 2018

Júlio Fogaça e Bento Gonçalves - um século depois


BARROSO da FONTE
«Nasceu fidalgo abastado e tornou-se «filho adotivo do proletariado». Chamou-se Júlio de Melo Fogaça. Rivalizou com Álvaro Cunhal na liderança dos comunistas, mas perdeu a luta no verão de 1960, quando passeava com o seu amante e a PIDE o prendeu. O PCP transformou esse caso num tabu - que agora se desfaz quase por completo»
 Este é o lead da recensão de oito páginas da revista Visão, nº 1337 de 24/10/2018, largamente documentada e ilustrada. Na capa da revista, com a foto de Júlio Fogaça, em fundo, lê-se: Os Segredos do líder-Tabu que o PCP apagou da sua história. Dirigiu o partido e disputou com Cunhal a liderança, mas a sua homossexualidade foi pretexto para a expulsão, num processo escondido até hoje. Os detalhes, os documentos e as cartas inéditas».
Sempre alimentei o sonho de biografar, em livro, o 1º Secretário-geral do Partido Comunista Português, Bento Gonçalves que nasceu em Fiães do Rio e morreu, na década de quarenta, do século XX, no campo de concentração do Tarrafal.
 Como é que um jovem de uma minúscula povoação das margens do Rio Cávado, se aventura a ir para Lisboa, se envolve numa rara profissão, no Alfeite, aderindo às ideias marxistas, tão raras nas gentes de Barroso?
 Que coincidências para que, por essa mesma altura, outro ilustre Barrosão: Piteira Santos, tenha aderido às mesmas ideias marxistas?
E, ainda, Maria Eugénia Neto, nascida em 1934 na vila de Montalegre. Casou com Agostinho Neto que, já depois de licenciado em medicina, em Portugal, o acompanhou e aos filhos até à morte dele.
E, finalmente, mais um exemplo carismático, o de Maria Helena Ataíde Vilhena Pereira, natural de Casas Novas. Casou com o seu colega de curso, Engº Agrícola, Luís Amílcar Cabral, igualmente líder do PAIGC da Guiné-Bissau.
Alertado pela recensão daquela Revista, consegui adquirir o livro de Adelino Cunha sobre «o líder de origem burguesa que desafiou Álvaro Cunhal e foi apagado da história do PCP».
Quatro filhos de Barroso e Alto Tâmega que se fizeram ao mundo da Lusofonia, devolvendo mundos ao mundo, quando tinha chegado o tempo de reconhecer a emancipação desses povos. Se a Visão me alertou positivamente pela síntese crítica de J. Plácido Júnior, o livro de Adelino Cunha, nas suas 318 páginas faz revelações fantásticas para quem gosta de conhecer as mentalidades. A revolução Russa de 1917 foi um dos acontecimentos mais importantes do século XX. Em1921 nasce o PCP que irá atrair centenas de jovens dispostos a lutar por uma sociedade nova. Júlio Fogaça (pseudónimo da clandestinidade de Fernando Ramos), e Américo Gonçalves encontraram-se pela primeira vez. Aquele tinha 53 anos. Este apenas 25. «A destreza sedutora daquele homem elegante, cinquentão, resultou ao aproximar-se do soldado Gonçalves. Estávamos em Cascais, em Março de 1957. «Pela hora do jantar, já iam os dois na direção da estrada do Guincho».
 Seduzido pela ideia de politizar os operários urbanos, o jovem fidalgo rural torna-se comunista. Aos 28 anos é preso junto com Bento Gonçalves.
Estes três momentos-chave leem-se na Revista Visão. Ao fim de cinco anos desterrado no Tarrafal, Fogaça, nomeada da Família que é proprietária da Quinta do Porto Nogueira, em Alguber, Cadaval. Em 1941, sendo discípulo de Bento Gonçalves, assume o cargo de Secretário que era ocupado por BG. Em 1942 Fogaça volta a ser preso. E Cunhal sucede-lhe no cargo. Nas décadas de 40 e de 50, Álvaro Cunhal e Júlio Fogaça alternam na liderança, sempre em ambiente de rivalidade. Em 1960 Cunhal foge da Cadeia de Peniche e Fogaça é expulso do PCP em 1961. Nessa altura o Transmontano de Montalegre, Bento Gonçalves já tinha falecido. Mas essas três figuras foram relevantes na instalação do PCP em Portugal. E já Edmundo Pedro nos seus três volumes de Memórias, explicaram muitas das dúvidas que Domingos Abrantes, Carlos Brito, Edmundo Pedro e vários outros esclareceram em livros, jornais, revistas e canais televisivos.
Pessoalmente conheci, bem de perto, Edmundo Pedro, através do Editor da Âncora, Batista Lopes, ao longo dos seus últimos sete anos. Um Homem encantador. Um comunista solidário que mais tarde aderiu ao PS. Visitei, com ele e outros autores, o obelisco a Bento Gonçalves, em Fiães. Peregrinei com ele por Vila Pouca, Chaves e Montalegre. Sempre me contou os primórdios do PCP. Deu-me as mais gratas informações sobre quem mais me interessava: Bento Gonçalves. Nessa altura e enquanto mantive viva essa memória, muitas vezes me apeteceu escrever sobre ele e sobre aquelas duas distintas Transmontanas. Começo a duvidar que volte a ter condições físicas  para cumprir esse meu desejo. E é por isso que mal vi anunciado este livro de Adelino Cunha, docente universitário (1971), fui a correr à FNAC, adquirir esta obra que irá ser um sucesso em leituras. 

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