Para
fingir o contrário, Portugal muda os nomes das coisas que não importam. À
Portela chamam agora Humberto Delgado. E o imaginativo prof. Marcelo propôs que
o Montijo fosse baptizado em honra de Mário Soares.
É
falso que o Governo esteja empenhado em arrasar a economia: o Governo
empenha-se em arrasar o que pode. Só a destruição "multidisciplinar"
(desculpem) da realidade permite construir o Tempo Novo e deixar o velho em
cacos. Nos últimos dias, CGD à parte, deram-se pelo menos três passos heróicos
rumo aos amanhãs que cantam, se não lhes falhar o pio entretanto. Ei-los.
1.
Enfim a sociedade despertou para o maior flagelo que atinge as crianças do
nosso tempo. Não, não é a guerra, nem a fome, nem a droga, nem sequer a
popularidade do nome Santiago. A verdadeira tragédia é o peso das mochilas
escolares, alvo de uma petição à AR que já vai nas 50 mil assinaturas. Por
sorte, o Governo não dorme, e um "grupo de trabalho" (sic) desenhou
um "perfil humanista" (sic outra vez) para os alunos. Significa isto
que a Matemática e o Português serão subalternizados em favor das Ciências
Sociais e de uma coisa chamada Educação Cívica.
Acho
bem: se as crianças não souberem fazer contas, as previsões do ministro das
Finanças sobre o futuro do País parecerão razoáveis. Se não souberem a língua,
a retórica do primeiro-ministro parecerá uma. Quanto ao resto, as ciências
sociais dizem respeito a qualquer pantominice que careça de estatuto
científico. E a educação cívica prende-se com a doutrinação ideológica de que
nenhum regime fasc..., perdão, democrático abdica. Em pormenor, o objectivo
passa por estimular "o relacionamento interpessoal, a autonomia e
desenvolvimento pessoal, o bem-estar e saúde, a sensibilidade técnica e
artística, o saber técnico e tecnologias e ainda a consciência e domínio do
corpo". O pudor – e a impossibilidade de decifrar conversa fiada – impede
comentários. Mas é garantido que as crianças irão para as aulas com a mochila
mais leve. E voltarão de cabeça oca.
2.
A 6 de Abril de 2011, o engº Sócrates informou o País de que estávamos falidos.
Uma semana depois, inaugurava-se o aeroporto de Beja. Deve ser ritual maçónico:
sempre que se aproxima a bancarrota, espalha-se a "notícia" de que a
Portela está "saturada" e "investem-se" milhões numa
alternativa "essencial" de que nunca mais ninguém ouvirá falar.
Agora
voltou a conversa da "saturação" e introduziu-se o reluzente projecto
de um aeroporto no Montijo. Tradução: o PS já percebeu que o simulacro de
beatitude económica não vai durar muito. A julgar pelas sondagens, os eleitores
ainda não perceberam. Trata-se de um erro de percepção, no caso unilateral. E
habitual: nas coisas que importam, Portugal não muda.
Para
fingir o contrário, Portugal muda os nomes das coisas que não importam. À
Portela chamam agora Humberto Delgado. E o imaginativo prof. Marcelo propôs que
o desígnio do Montijo fosse baptizado em honra de Mário Soares. Acho bem. O
primeiro começou a carreira a venerar a Alemanha nazi (em 1941, o general sem
medo nem grande tino afirmava que Hitler era "uma revelação genial das
possibilidades humanas no campo político, diplomático, social, civil e militar"),
o segundo terminou-a a elogiar a Venezuela "bolivariana". Com
exemplos assim, o que espanta não são as nossas sucessivas falências, mas a
nossa milagrosa resistência. Portugal não precisa de aeroportos para ir pelos
ares.
3.
O juiz Rui Rangel, emérito entusiasta de José Sócrates, foi naturalmente
escolhido para decidir o futuro judicial de José Sócrates.
O
BOM
A
anatomia da grei
No
livro que, suponho, ele próprio escreveu e que o público em geral esgotou num
fim-de -semana, Cavaco Silva refere a "tenebrosa máquina de propaganda do
PS". É uma perspectiva exagerada: às vezes, a "máquina" diverte.
É por exemplo engraçado ler o director de um diário decretar que "o povo,
de uma forma geral, está farto do folhetim Centeno-Domingues". E que
"a história (...) Mais trica, menos trica, está contada". Há quase 4
mil anos que os homens estudam anatomia, mas ainda nenhum conseguiu explicar
como certas colunas dobram tanto e não partem.
O
MAU
Os
penúltimos a rir
Na
Flórida, o sr. Trump berrava contra a imigração desmedida e lembrava o que
acontecera na noite anterior na Suécia. Estava instalada a galhofa, mal os
media, com mentirinhas pelo meio, perceberam que na noite em causa não
acontecera nada na Suécia – excepto provavelmente o que, de tão rotineiro, já
nem é notícia: violações, explosões, assaltos, homicídios e distracções assim,
em boa parte relacionadas com os 650 mil refugiados, na maioria muçulmanos, que
o país acolheu. É mais fácil rir do sr. Trump do que chorar por nós.
O
VILÃO
A
Europa, apesar de tudo
É
fácil perceber quem, por aqui, mais deseja a vitória da sra. Le Pen e a
pulverização da "Europa". Basta pensar na prepotência exibida pela
esquerda no "caso" da CGD e imaginar essa cultura da impunidade em
roda livre e aplicada ao que calha, sem os abençoados constrangimentos com que
Bruxelas, cheiinha de defeitos, apesar de tudo modera os apetites da corte
indígena. Quando os senhores locais fingem que a Alemanha nos espezinha,
lamentam que não sejam eles a espezinhar à vontade. Se não se importam (importam,
sim), prefiro a Alemanha.
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