domingo, 6 de março de 2016

Portugal prometido


 
Alberto Gonçalves -
Diário de Noticias


É típico das nações exóticas: um livro apenas excita os que desejam proibi-lo. Henrique Raposo escreveu, julgo que em registo entre as memórias e a literatura de viagem, acerca da região dos seus antepassados. A obra chama-se "Alentejo Prometido". Pelo menos um dos capítulos trata da elevada taxa de suicídio naquelas paragens. Não conheço o Henrique, excepto das crónicas no "Expresso". Não conheço "Alentejo Prometido", excepto das pré-publicações e referências na imprensa. Não conheço o Alentejo, excepto por três ou quatro passagens breves e umas semanas no quartel de Vendas Novas. Mas a minha ignorância na matéria, aliás presumivelmente semelhante à do lisboeta médio sobre Trás-os-Montes, não vem ao caso. E o caso é a exuberante exibição de fanatismo, e talvez algum desequilíbrio patológico, que o referido livro alimentou.
A história, que peço desculpa por repetir, começou após a presença do Henrique no programa "Irritações", da Sic Radical, onde falou da tal propensão suicida e de uma alegada indiferença à mesma. Num instante, a internet desatou a babar uma indignação rara até para os generosos padrões daquilo. Criaram-se petições sortidas, umas para suprimir o livro, outras para suprimir o Henrique. A página no Facebook do responsável pelo "Irritações", Pedro Boucherie Mendes, desapareceu por dias. A espelunca anfitriã do lançamento cancelou-o corajosamente. A polícia foi convocada para um local alternativo. Incansáveis activistas dos direitos civis ficaram civicamente mudos.
Nada disto é exactamente novo. O que se calhar não é comum é a desproporção do ódio face ao pretexto: que espécie de transtorno leva milhares de pessoas a perderem tempo e a cabeça, admitindo que a tinham, à conta de umas opiniões (e umas estatísticas) transcritas em papel? Diversos factores ajudam à festa.
Em primeiro lugar, há o ancestral afecto popular por linchamentos, embalados pelo conforto do anonimato ou pela força da multidão. Poucos fenómenos consolam tanto a humanidade quanto a impressão da razão atribuída pelo número: se "toda a gente" adere a uma "causa", seja esta a liberdade de expressão do "Charlie Hebdo" ou o silenciamento da expressão do Henrique, é aí que o cidadão mediano e medianamente cobardolas quer estar.
Em segundo lugar, há o estímulo à irracionalidade providenciado pela internet. Se antigamente a indignação das massas se traduzia no futebol ou nas dúzias de ociosos que prometiam, à porta dos tribunais, vingar sujeitos cuja existência lhes escapava dez minutos antes, hoje as "redes sociais" democratizam imenso o processo. Qualquer um, no recato do lar e sem despesas, está habilitado a despejar fúria em cima de quem lhe apetecer. Embora com resultados duvidosos, é a terapia ocupacional em voga.
Em terceiro lugar, há a circunstância de o Henrique não ser de esquerda, deformidade que, em Portugal, consubstancia desde logo um delito ou dois. Questionar a perfeição ética do eleitorado "natural" do PCP acrescenta três ou quatro. Ser, para cúmulo, editado "pelo" Pingo Doce, remata o cadastro e define um "fascista". Por experiência própria, sei que muitos "anti-fascistas" lidam um bocadinho mal com o contraditório e defendem o castigo sumário dos canalhas que o arriscam. Como os aparelhos ortodônticos, a tolerância é um penduricalho - bem bonito - que essa rapaziada usa na boca.
Por fim, há o "contexto" actual, que se não me engano favorece os instintos inquisitoriais. Se as recorrentes raivas da extrema-esquerda jamais precisaram de pedir licença aos titulares do regime, quando a extrema-esquerda é oficiosa e oficialmente o regime a raiva será praticamente obrigatória. E, daqui em diante, quase ininterrupta. É esperar para ver - e calar, na certeza de que a desilusão que o Alentejo suscitou no Henrique só afectará os iludidos pelo país inteiro.

terça-feira, 1 de Março

Os parodiantes de Lisboa

É natural que, perante a extraordinária trupe cómica que alguns confundem com um governo, cada espectador tenha os seus favoritismos. Os tradicionalistas, por exemplo, preferem as anedotas brejeiras do dr. Costa, que para cúmulo se ri enquanto as conta. Os adeptos da comédia do embaraço optam pelo dr. Centeno, um Ricky Gervais de segunda apanha. As crianças deleitam-se com o humor físico do filho de Mário Soares, excessivo para as sensibilidades finas. E há os seguidores fiéis do nonsense do ministro da Educação (que arrasta o estilo desde Cambridge, como metade dos Monty Python), os fãs incondicionais do ministro do Ensino Superior (a rábula "Tenhemos Humildade" é já um clássico) e os devotos do dr. Santos Silva (velho mestre da piada involuntária). A mim, porém, quem me tira o discreto surrealismo do ministro da Economia tira-me tudo.
O homem abre a boca e, com a sisudez de Buster Keaton, as graças saem umas atrás das outras - e às vezes à frente: os níveis de fiscalidade não dissuadem o investimento estrangeiro; o aumento do preço dos combustíveis não prejudicará o sector do calçado; o Orçamento de Estado cria confiança. E a mais recente: as famílias com filhos evitam os restaurantes para não maçar os restantes clientes. Na semana que vem, o dr. Caldeira Cabral garantirá que o povo só não se desloca de helicóptero por causa das vertigens. É uma pena que a galhofa decorra à custa da nossa falência. Ainda assim, é um preço justo.

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