domingo, 14 de fevereiro de 2016

Medalhar a corrupção não honra um Chefe de Estado


Barroso da Fonte
Dia 12 deste mês ficará na história como dia invernoso, futebol do melhor da época e mais uma escorregadela do mais alto magistrado da Nação.
  Se calhasse no dia 13 diríamos que foram as bruxas vindas da Galiza e arrastadas pelo vento, a mando do mediático Padre para os lados de Lisboa. Mas foi na véspera do dia 13. E por isso não houve intervenção  demoníaca. Contra o mau tempo não podemos barafustar porque estamos no auge do inverno e o remédio é aguentar. Mas há remédio para acabar com esta anarquia antidemocrática que transforma a corrupção  em modelo de virtudes e cava um fosso na sociedade que trabalha e a sociedade esbanja, que protege e endeusa uns e espezinha outros.
 Após uma semana quase completa a impingir futebol a crentes e a descrentes, realizou-se nessa noite um dos jogos mais mediáticos da primeira liga: Benfica e Porto. Ao que disseram os diversos canais televisivos e mostraram as imagens selecionadas, esse jogo foi um hino à futebol. Até a equipa de arbitragem, desta vez, mereceu elogios. Dizem ter ganho a equipa que foi mais feliz. E aos nortenhos, agradou a vitória do Porto.
  Quanto àquilo que, a meio dessa tarde, as televisões mostraram, a partir da Presidência da República, já pela sexta vez, em 2016, foi a exaltação daquilo que todos os políticos gostam de prometer, nas campanhas eleitorais, mas logo esquecem e, de imediato, aplaudem: a corrupção.
O país está irreconhecível no tocante à desonestidade. Os políticos mudam de convicções como o vento muda de direção. Aqueles quatro vocábulos que António Costa tanto alardeou na campanha eleitoral, ao proclamar: «Palavra dada, palavra honrada», foram logo descontextualizados e reduzidos a gargalhadas carnavalescas. Demonstrei-o numa das minhas últimas crónicas.
Todos os Chefes de Estado que tivemos, por eleição, desde a revolução dos cravos, usaram e abusaram das medalhas honoríficas, que desde 1802, foram instituídas para distinguir o mérito excecional. Durante o Estado Novo essas distinções eram entregues no dia 10 de Junho que, erradamente, continua a celebrar-se nessa data, quando deveria ser em 24 de Junho, muito bem traduzida pela «Primeira de Tarde Portuguesa». O dia de um país não se assinala quando nasce ou morre um filho desse país, mas quando esse país se liberta, se emancipa ou se torna independente. Portugal nasceu naquela primeira tarde Portuguesa, em 24 de Junho de 1128, na Batalha de S. Mamede. O 10 de Junho passou a assinalar o dia da morte de Luís de Camões que foi um nome grande da cultura mundial. Mas homens grandes houve, felizmente, muitos, sobretudo anteriores a Camões. Recentemente ressuscitou-se o 1º de Dezembro, dia da restauração, alusivo a 1640. Na altura alertámos os deputados para a incongruência, quase direi, disparate, porque apenas se restaura aquilo que já existe. Quando se fez a restauração Portugal já tinha nascido há 512 anos. Anda muita gente pelos areópagos da vida nacional que imita os papagaios: limitam-se a proferir o que lhes ensinam...
Volto às oito personalidades que o chefe de Estado condecorou em 12 do corrente, colocando ao pescoço de oito cidadãos, distinções que foram pura e simplesmente banalizadas. Entre os ex-ministros  que entraram na galeria das celebridades, houve uma diferença abismal.  Exemplifico com dois do PS:  enquanto Rui Carlos Pereira, desde há muito deveria ter sido agraciado, Maria de Lurdes Rodrigues, nunca, por nunca, deveria receber tal galardão. Chegou a ser condenada a três anos e meio de prisão, por irregularidades graves. Fez figura com dinheiros públicos que recomendariam a exclusão dessa docente da vida ativa do Estado. Cavaco Silva, talvez para equilibrar o ato político, com Nuno Crato, cometeu essa afronta, mesmo a quem, como eu próprio sempre o defendi, até por ter nascido no mesmo ano, ter sido alferes no mesmo tempo e ter cumprido o serviço militar no Ultramar, sacrifício a que outros fugirem, alegando ter o pé raso.
Já noutra altura condecorara autarcas que viram os orçamentos chumbados pelos órgãos fiscalizadores; e até condecorou o costureiro da primeira dama.
Ao pretender nivelar um político da sua área política, com outro da área opositora, errou.
Sete dos oito agraciados deste dia 12, terão ficado ofuscados pelo critério político. Foi um péssimo serviço à moral, um incentivo à prevaricação e mais um abuso das competências do cargo. Vulgarizou em dez anos, como fizera Mário Soares e Jorge Sampaio («o rei das medalhas») o simbolismo e mérito das insígnias. Nunca condecorou representantes do povo que o elegeu: operários têxteis, camponeses, pastores, gente simples. A solidariedade com a gente da minha terra – esse Povo que sempre o recebeu com hospitalidade e que lhe garantiu vitórias sucessiva- foi sempre ignorado pelos sucessivos Presidentes. De Cavaco esperava, respeito, gratidão e apreço.

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