sábado, 30 de janeiro de 2016

Para onde vai o PS?


São José Almeida -  jornal Público
É bom que António Costa não se esqueça de que é líder do PS e de que não o deve negligenciar.
 

Como estava anunciado no céu da política portuguesa, o professor Marcelo transformou-se no Presidente Marcelo por força de uma maioria de votos que ultrapassa o resultado de eleição para o primeiro mandato de Cavaco Silva e de Mário Soares. Com a confirmação de uma vitória de que ninguém duvidava, o resultado eleitoral expôs a dimensão das mudanças em curso na esquerda portuguesa.
Com o pano de fundo da falência ideológica da social-democracia europeia e do fim do comunismo real no Leste da Europa, a esquerda tradicional entrou em colapso ideológico. A isto soma-se o crescendo do populismo político, potenciado em novos moldes pela suposta facilidade de comunicação de todos com todos através das redes sociais. Um populismo que tem campo de crescimento fertilizado pela crise económica que cavou o empobrecimento e a desconfiança dos eleitores cansados, por outro lado, da mediatização da sucessão de erros, falhas e até actos de corrupção.
Mas se o caldeirão explosivo da evolução da política na Europa se fez sentir sobretudo nos países do Sul atingidos especialmente pela crise do capitalismo especulativo, em Portugal esta crise tem consequências específicas à esquerda que se têm manifestado por um crescendo eleitoral do Bloco de Esquerda, o partido do sistema que assume o perfil de partido de protesto e de contestação ao próprio sistema, à semelhança do que aconteceu na Grécia com o Syriza, partido das margens do poder que foi catapultado para o Governo pela crise, e, ao contrário da Espanha, onde o corte com os partidos tradicionais de poder levou à criação de novos partidos saídos dos movimentos de rua.
O Bloco de Esquerda parece consolidar o crescimento enquanto força alternativa de poder à esquerda, papel até aqui representado pelo PS. Uma consolidação que tem como movimento complementar a queda eleitoral do PCP nestas presidenciais, a qual pode não ter sequência nas legislativas e ser apenas uma consequência de uma escolha desastrosa de candidato. Mas a consolidação do BE deve preocupar sobretudo o PS. Até porque é já uma evidência que, com este BE, o PS dificilmente voltará a conquistar uma maioria absoluta.
Daí que por mais que a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa possa até não preocupar António Costa enquanto primeiro-ministro, na sua qualidade de secretário-geral do PS ele tem de estar preocupadíssimo com o que se passou nestas eleições, bem como com a forma como o PS se arrasta na política portuguesa, em estado de ferida aberta e exposta, profundamente debilitado na sua condição de fazer política. O que é facto é que a direcção do PS, e em particular António Costa, ainda não teve capacidade de dar resposta à crise que o partido vive. Pior: parece ignorá-la, tal o inebriamento de ser chefe de Governo.
É certo que o problema do PS não é de hoje. A sua falência como partido organizado no modelo introduzido por António Guterres esgotou-se durante os dois Governos de José Sócrates e, desde então, as sucessivas direcções não têm conseguido travar a degradação orgânica e a falta de propostas que surgem sob o fundo da falência ideológica da social-democracia europeia. António José Seguro não resolveu a exaustão do PS e a subida de António Costa ao poder partidário apenas agravou as debilidades de um partido que estava já exaurido.
As feridas expostas pela guerra entre Costa e Seguro mantêm-se abertas e as presidenciais lançaram sobre elas sal. A forma como a candidatura de Maria de Belém Roseira foi apresentada pelos apoiantes de Seguro contra Costa é apenas mais um momento dessa guerra que rasga a carne e o corpo partidário. E que termina com o espectáculo feio dado pelos seguristas ao deixarem cair a sua candidata, uma demonstração de como é verdade a máxima de que os ratos abandonam o navio quando se anuncia o naufrágio.
António Costa negligenciou as presidenciais pensando que depois das legislativas, que esperava ganhar com maioria absoluta, podia impor Sampaio da Nóvoa ao PS. Enganou-se: perdeu as legislativas e ficou politicamente sem legitimidade para o fazer. Perante a derrota nas legislativas, a opção foi forçar a conquista do poder, aproveitando o facto de a direita não ter maioria absoluta, alcançando um inédito acordo à esquerda e rompendo caminhos desconhecidos no sistema de governação em Portugal. Só que o actual poder executivo de António Costa não tem força para cimentar o PS, até porque a legitimidade política do Governo está ferida pela falta de legitimidade eleitoral, ainda que tenha legitimidade constitucional.
É bom que António Costa não se esqueça de que é líder do PS e de que não o deve negligenciar. O risco é fácil de explicar: quando tiver de disputar eleições e precisar do partido, onde estará e qual será a relação do PS com o eleitorado? Para onde vai o PS?



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