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| Barroso da Fonte |
Depois da vulgarização que os sucessivos Presidentes da
República têm vindo a fazer das medalhas honoríficas, seria de esperar que uma
dessas distinções democráticas viesse parar às mãos de um Barrosão. O sortudo
foi Fernando Rodrigues, que liderou a Câmara de Montalegre entre 1997 e 2013.
Foi membro da Comissão de honra de Mário Soares e de Jorge Sampaio. Mas acabou
por ser Cavaco a promovê-lo a
Comendador, com a medalha da Ordem de Mérito, grau ouro.
Por mais vulgarizada que ande a porção de ouro que reveste as
medalhas douradas e por mais enxovalhos com que a esquerda tente afundar o
atual Presidente da República, a verdade é que Fernando Rodrigues foi, durante
16 anos o Presidente da Câmara de Montalegre e apenas saiu por força da lei e
da nobre decisão do então Secretário-Geral (António Seguro), em ordenar aos
candidatos do PS para não se recandidatarem em segundo lugar. Essa decisão foi
corajosa e, também por isso, António Seguro, marcou pontos que o enobrecem.
Cavaco Silva não teve a coragem de atribuir idêntica distinção
ao Padre Fontes, aquando das bodas de ouro de sacerdote. Sobretudo por ter
sido, com ideias inovadoras, o maior obreiro do salto qualitativo, no
mediatismo cultural e turístico das Terras de Barroso. Nem as centenas de
assinaturas que Hélder do Alvar recolheu, em abono da sua proposta e daquilo
que a imprensa argumentou nesse sentido, valeram para medalhar o Barrosão que
mais e melhores projetos teve para colocar Montalegre no mapa. Embora polémica
por razões puramente partidárias, Fernando Rodrigues, face à distribuição
selvagem, cega, surda e muda, como têm sido atribuídas insígnias tão honrosas,
aquela que coube ao anterior Presidente da Câmara de Montalegre foi bem
atribuída. Como não teria sido censurável se o PR dos anos oitenta, Ramalho Eanes, seguisse os
critérios do atual Chefe de Estado. Carvalho de Moura só não terá feito tanto,
porque também não dispunha de meios legais e muito menos financeiros, pelo
facto de não existirem os fundos comunitários.
Ramalho Eanes, na minha perspetiva, foi o melhor, o mais prudente
e justo dos três seguintes chefes de Estado. Iniciou o hábito de medalhar
alguns cidadãos. Desde aí foi um forrobodó!
Mário Soares, talvez pelas suas incontáveis voltas ao mundo, medalhou a
torto e a direito. A Jorge Sampaio
chamaram o «rei das medalhas». Medalhou primos, mandatários, padeiros,
leiteiras, ardinas. Cavaco não quis ficar atrás. E até medalhou o costureiro da
1ª dama. Esse abuso terá esgotado o baú das maiores hipocrisias nacionais. No
último dia 10 de Junho, por exemplo, já elegera alguns autarcas. Um dos
medalhados deveria, já nessa altura, ocupar a cela 43 ou 45 da cadeia de Évora,
se a justiça funcionasse em pleno. Agora, já não terá tempo para medalhar a
raia miúda, os técnicos da classe média, os que resistem à crise, os que apagam
incêndios, socorrendo os feridos, atenuando a fome, aos voluntários de todas as
causas nobres, aos desempregados que seriam tão úteis ao país carenciado de
gente séria, aos criativos, aos agentes da informação que correm todos os
riscos.
Como jornalista com 62 anos de combate porfiado, frontal e
pertinaz, prevejo que os próximos peitos a dourar vão ser os gays, as lésbicas,
as abortadeiras, os homossexuais, os «ricardos salgado», «os oliveira costa»,
«os incendiários», os proxenetas e os
chulos de todas as vias norte O índice
de podridão moral, política, cultural e cívica, ganha foros de erosão
planetária. O vitupério, a mentira, a depravação, a ganância, trepam a todo o
terreno. Os valores que alicerçavam a sociedade dos tempos, em que a palavra
valia tanto como uma escritura; em que podia andar-se na rua como se estivesse
em casa; da honestidade à prova de bala, perderam-se. Urge, por cobro a esta
correria apressada para o abismo.
A terminar este paradoxo: Manuel Martins que liderou a Câmara de
Vila Real, tantos anos como Fernando Rodrigues liderou a de Montalegre,
faleceu, subitamente, dia 10 do corrente. O JN de 13, numa quadrícula quase
invisível, escreveu que o autarca teve «algumas dezenas» de presenças no
funeral... Assim morrem alguns políticos venerados na vida e apupados na morte. Mesmo que com
silêncio sepulcral.
Barroso
da Fonte


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