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| Acílio Estanqueiro Rocha |
2. A suposta obrigatoriedade do
AO, desde 13 de Maio passado, motivou esclarecimentos de alguns juristas, que
sustêm que o prazo de transição terminará somente em 22 de Setembro de 2016,
pois não é a data em que o governo anterior efectuou o depósito da ratificação
que conta mas a data de publicação em Diário da República, em 17 de Setembro de
2010 (e não de 13 de Maio de 2009, data de depósito). Para além deste detalhe,
como pode um Tratado sequer vigorar sem a ratificação plena das partes
contraentes (há Estados subscritores que ainda não o ratificaram, já lá vão
mais de vinte anos sobre a sua celebração)? Aguarda-se também o desfecho da
acção popular judicial levada ao Supremo Tribunal Administrativo, requerendo a
não-aplicação do AO, argumentando com a inconstitucionalidade da Resolução do
Conselho de Ministros nº 8/2011, de 25 de Janeiro, que impôs o AO na
administração do Estado a partir de Janeiro de 2012 (e ao sistema educativo
logo no ano lectivo de 2011/12), tomada poucos meses antes de o governo cair,
antecipando em vários anos a aplicação do AO em sectores fundamentais da
sociedade, pretendendo-se porventura criar um facto consumado (alguns editores
de manuais escolares, que se oponham ao AO, tiveram de proceder de modo
diferente do planeado).
3. Num Fórum realizado na
Universidade de Lisboa, Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao ‘Acordo
Ortográfico’ de 1990, no passado dia 14 de Abril, na Faculdade de Letras, foi
aprovada uma moção que defende que a obrigatoriedade do uso do Acordo
Ortográfico de 1990 no ensino e na administração pública deve ser imediatamente
suspensa, por múltiplas razões aí expendidas. Os pareceres de especialistas
portugueses e brasileiros são suficientes para “parar e pensar”! Num parecer da
própria Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário de 1991, pode ler-se:
"Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não
assinar. O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria
contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos".
Para o linguista António Emiliano, o AO é "um monumento de incompetência e
de ignorância", acrescentando que "apresenta fundamentação deficiente
e falaciosa das mudanças propostas, contém erros técnicos grosseiros e propõe
soluções ortográficas estapafúrdias e injustificáveis".
4. As incertezas e confusões são
tantas com a aplicação do AO que o que está em questão é mesmo a beleza e
expressividade da nossa Língua – "A nossa magna língua portuguesa /De
nobres sons é um tesouro", como se lhe referiu Fernando Pessoa. Desde
logo, a questão da pronúncia ou não das consoantes mudas, e assim se elas são
ou não mantidas ou eliminadas na escrita, daí resultando uma excessiva
“insegurança ortográfica”. No Brasil, ao contrário do AO, continua a
escrever-se (e muito bem!) “recepção”, “concepção”, etc. Arrepia, por exemplo,
ver escrito na televisão “direto”, quando noutras línguas – “direct” (inglês),
“direct” (francês), “directo” (espanhol), “direkt” (alemão) – a etimologia é
respeitada.
Além disso, como explicar aos
alunos a queda de consoante em certas palavras, mantendo-a em palavras dessa
mesma família (“Egito” e “egípcio”, “setor” e “sectorial”, “vetor” e
“vectorial”, etc.), ou a confusão provocada pela eliminação de acentos: assim,
lia-se no cachecol de um adepto do clube agora bicampeão, “Ninguém pára o
Benfica”, sendo inconcebível que esse adepto, conforme ao AO, escrevesse
“ninguém para o Benfica; se imaginarmos para a próxima feira do livro o cartaz,
“Braga pára para ler”, se suprimirmos o acento – segundo o AO – será
ininteligível. A eliminação do hífen não provoca menos confusões (a que nos
referiremos proximamente). Aliás, o próprio conversor “Lince” (para os
computadores) viola o AO. Certamente, não pode a “ortografia política” impor-se
à ortografia científica. Por tudo isto, e pelo que ainda direi, nunca escrevi
segundo o AO, e não o farei.
Acílio Estanqueiro Rocha
Nota 1: Acílio Estanqueiro Rocha,
é Prof. Catedrático Emérito da Universidade do Minho, ex-Vice-Reitor, doutorado
pela Sorbonne-Paris e pela Universidade do Minho, com muitos trabalhos
publicados.
Nota 2: Ao longo de três textos
(este é o primeiro) desenvolve um trabalho claro e profundo, já publicados no
jornal Diário do Minho. Tese com que me identifico. (Jorge Lage)


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