Na palma da mão, é um ponto
negro, indistinguível a olho nu. Já à lupa binocular, este pedaço de carvão,
nem de um milímetro de comprimento, ganha formas. É uma flor, exemplar único,
nova para a ciência. Esteve enterrada em argila durante 110 milhões de anos,
até ter sido recolhida entre quilos de terra pelo investigador Mário Miguel
Mendes perto da vila do Juncal, no concelho de Porto de Mós, distrito de
Leiria. Ela e os fósseis de outras três plantas, também classificadas
entretanto como novidades científicas, enriquecem as colecções do jardim
português do Cretácico, quando os dinossauros reinavam e as plantas com flor começavam
a despontar na Terra.
Antes, uma breve história. Há
cerca de 440 milhões de anos, ter-se-ão deslocado para terra firme, vindas do
mar, as primeiras plantas. “Esses primeiros colonizadores terão sido algas
verdes já extintas, que apresentavam semelhanças com os briófitos, grupo de
plantas a que pertencem os musgos”, explica-nos o paleobotânico Mário Miguel
Mendes, do Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do
Algarve, em Faro, e do Museu Geológico, em Lisboa. “Para que as plantas
pudessem conquistar o meio terrestre, tiveram de desenvolver estruturas que
possibilitassem, por um lado, a obtenção de água e, por outro, reduzir a sua
perda. Além disso, desenvolveram as raízes que fixavam a planta ao solo,
absorvendo água necessária à sua manutenção, e os caules que suportam as
folhas, órgãos fotossintéticos por excelência.”
Estavam ainda longe de ter
flores, e os continentes onde viviam tinham uma configuração muito diferente da
de hoje. A evolução tornou as plantas mais complexas, até aparecerem as
gimnospérmicas, como as coníferas, em que as sementes não estão encerradas
dentro de um fruto, de que são exemplo os pinheiros e os seus pinhões. “Há
cerca de 320 milhões de anos, em Portugal formavam-se cordilheiras de montanhas
com lagos envolvidos e habitados por vegetação rica e diversificada. Havia
cavalinhas gigantes e plantas afins de licopódios e selaginelas actuais, mas de
porte arbóreo, a par de coníferas que lembravam araucárias. Os fetos eram
particularmente abundantes e diversificados”, conta Mário Miguel Mendes. “Esta
vegetação desenvolvia-se em ambientes pantanosos, em clima húmido e
relativamente quente das áreas próximas do equador da Terra de então. São desta
altura muitos dos depósitos de carvão mundiais, inclusivamente em Portugal.”
Há cerca de 250 milhões de anos,
os continentes anteriormente existentes já tinham colidido entre si e formado
um só supercontinente, a Pangeia. Mas a tectónica é imparável e a fragmentação
das placas ao longo da era Mesozóica – iniciada há 235 milhões de anos, no
período do Triásico, e terminada com o Cretácico, entre há 145 e 65 milhões de
anos –, colocou novos desafios às plantas terrestres. Se na Pangeia viviam
sobre a influência de um clima continental, com a fragmentação das placas
tectónicas as plantas tiveram de se adaptar a condições mais húmidas. “Esta
interacção entre clima e fenómenos tectónicos ditou o aparecimento e a extinção
de alguns grupos vegetais”, explica o paleobotânico.
“Há 225 milhões de anos, no
Triásico, as plantas foram povoando as imensas áreas continentais
semidesérticas, a partir da vizinhança de áreas lacustres. No Jurássico
(200-145 milhões de anos), as coníferas dominavam a vegetação arbórea. Os fetos
abundavam.”
Mas a Terra continuava sem
flores. As primeiras plantas com flores, ou angiospérmicas, apareceram
relativamente tarde na história do planeta – “apenas” há cerca de 130 milhões
de anos, no início do Cretácico, como indicam os fósseis mais antigos. E as
suas flores eram pequenas. E sem pétalas. Hoje, as angiospérmicas dominam a
vegetação terrestre, ocupando quase todos os ecossistemas e representando mais
de 85% das espécies vegetais vivas.
“O aparecimento súbito destas
plantas no Cretácico Inferior sempre intrigou os cientistas. Charles Darwin
referia-se a este súbito evento evolutivo que provocou alterações profundas em
todos os ecossistemas terrestres como um ‘ mistério abominável’. Aparentemente,
o seu desenvolvimento foi feito a par da evolução dos insectos e a sua enorme
diversificação terá resultado do êxito adaptativo das suas inovações
evolutivas. Mas muitos aspectos relacionados com as condições paleoambientais
que presidiram à proliferação das angiospérmicas continuam por esclarecer”, diz
Mário Miguel Mendes.
Portugal tem contribuído para a
reconstituição desta história do nosso planeta. Tal como nos Estados Unidos, na
China e em Espanha, em Portugal encontram-se os fósseis de plantas com flores
mais antigos do mundo. São de flores, sementes e frutos, com cerca de 125
milhões de anos, recolhidos em Torres Vedras pela dinamarquesa Else Marie
Friis, uma das maiores especialistas em angiospérmicas. Por exemplo,
identificou pólenes (que só existem quando há flores) de um género e espécie
novos – a Mayoa portugallica, descrita em 2004.

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