![]() |
Tempo Caminhado: A Europa – Origens (3) |
O Hápax, a Incarnação e Santíssima
Trindade, são elementos que há muito se discutem como fundamentais no
Cristianismo. E seriam fundamentais para a formulação do pensamento europeu.
Talvez. Contudo, para este escrito não lhes daremos a mínima importância, na
medida em que o seu desenvolvimento e argumentação iriam muito para além das
dimensões do que se pretende. Interessa-nos apresentar as ideias simples do
Cristianismo que, de alguma forma, contribuíram para fundamentarem o pensamento
Ocidental.
O Cristo histórico nasceu onde
todos sabemos, domínio do império romano, numa época de grandes conflitos
sociais e políticos, e de grande pobreza pela maior parte das populações.
O Cristianismo lembra que a dignitas, a qualidade do nobre, é de
todo o ser humano. Porque todos os homens são filhos de Deus, logo toda a vida
é consagrada, ou seja, todos somos sacerdotes do Altíssimo. Ainda hoje esta
ideia é revolucionária. Ninguém tinha chegado tão longe.
Os velhos ensinamentos morais
transmitidos por Deus a Moisés (Os Dez Mandamentos), transmitidos por Jesus nas
“Bem-aventuranças”, serviram toda a base moral (e ética) europeia (melhor
dizendo, Ocidental) até aos dias de hoje. Porque se não limitaram, com o
cristianismo, à sua concepção literal. Jesus Cristo introduz elementos novos.
Não é o julgamento que interessa mas sim a misericórdia – o grande amor de
Deus, que dá e perdoa. O amor de Deus é infinito. Este elemento, o Amor
Universal, é fulcral na doutrina cristã. Logo, na civilização europeia. Porque
vai muito para além da generosidade, da amabilidade, da decência…
A carta de São Paulo aos Coríntio
é disso um bom exemplo. Como o são as passagens do Evangelho onde Jesus exorta
a amar os inimigos, fazer bem a quem nos odeia, abençoar quem nos amaldiçoou,
rezar por quem nos maltratou e dar a outra face a quem nos esbofeteou.
Isto é o amor supremo que ainda
não está ao alcance do homem nesta fase de desenvolvimento, quanto mais na
época em que Ele viveu. Cristo, de certa forma, chama a atenção velada para a
chama divina individual.
O Amor cristão está muito para lá
do Amor pela Sabedoria (ou pela alma), como era subscrito pelos filósofos da
Antiguidade. Ou pelo dos Provérbios (“Eu amo quem me ama”). O Amor cristão é o
amor pelo pobre, pelo humilde, pelo desprezado, pelos próprios inimigos.
O homem pagão dos primórdios vive
fascinado pelo mundo e pelas potências que o arrebatam (poder, riqueza, prazer,
paixões … ), o pagão clássico, aristocrata por excelência, torna-se estóico.
Como conciliar esta ética estóica que exige repulsa e desprezo, com a que exige
amor e compaixão?
Mas o cristianismo foi mais tarde
influenciado pelo seu grande teorizador, tornando-se na negação dos poderes
deste mundo – Santo Agostinho. Nos solilóquios diz-nos: “ Quero conhecer Deus e
a alma. Nada mais? Nada mais, em absoluto”. [Deum et animam scire cupio.
Nihilne plus? Nihil omnino]. E em De vera religione, despreza o mundo exterior,
a sociedade. Para Agostinho o importante é a interioridade do próprio homem: “
Não vás para fora, permanece dentro de ti, no interior do homem habita a
verdade” [Noli foras ire, in te redi, in interíore homine habitat veritas].
A lista de cientistas desde o
declínio do império romano até aos dias de hoje é infindável, mas seria
interessante transcrevê-la para se verificar que a Ciência europeia, tal como a
conhecemos, foi preservada por cristãos, cultivada por eles, de acordo com os
seus pressupostos. Os seus fundamentos são cristãos, como o são os seus
criadores, que em tudo foram influenciados pelos Gregos (e de certa forma aos
Romanos), em cujas fontes beberam.
Armando Palavras

Sem comentários:
Enviar um comentário