quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A Europa – Origens (4)

Tempo Caminhado: A Europa – Origens (3)

O Hápax, a Incarnação e Santíssima Trindade, são elementos que há muito se discutem como fundamentais no Cristianismo. E seriam fundamentais para a formulação do pensamento europeu. Talvez. Contudo, para este escrito não lhes daremos a mínima importância, na medida em que o seu desenvolvimento e argumentação iriam muito para além das dimensões do que se pretende. Interessa-nos apresentar as ideias simples do Cristianismo que, de alguma forma, contribuíram para fundamentarem o pensamento Ocidental.
O Cristo histórico nasceu onde todos sabemos, domínio do império romano, numa época de grandes conflitos sociais e políticos, e de grande pobreza pela maior parte das populações.
O Cristianismo lembra que a dignitas, a qualidade do nobre, é de todo o ser humano. Porque todos os homens são filhos de Deus, logo toda a vida é consagrada, ou seja, todos somos sacerdotes do Altíssimo. Ainda hoje esta ideia é revolucionária. Ninguém tinha chegado tão longe.
Os velhos ensinamentos morais transmitidos por Deus a Moisés (Os Dez Mandamentos), transmitidos por Jesus nas “Bem-aventuranças”, serviram toda a base moral (e ética) europeia (melhor dizendo, Ocidental) até aos dias de hoje. Porque se não limitaram, com o cristianismo, à sua concepção literal. Jesus Cristo introduz elementos novos. Não é o julgamento que interessa mas sim a misericórdia – o grande amor de Deus, que dá e perdoa. O amor de Deus é infinito. Este elemento, o Amor Universal, é fulcral na doutrina cristã. Logo, na civilização europeia. Porque vai muito para além da generosidade, da amabilidade, da decência…
A carta de São Paulo aos Coríntio é disso um bom exemplo. Como o são as passagens do Evangelho onde Jesus exorta a amar os inimigos, fazer bem a quem nos odeia, abençoar quem nos amaldiçoou, rezar por quem nos maltratou e dar a outra face a quem nos esbofeteou.
Isto é o amor supremo que ainda não está ao alcance do homem nesta fase de desenvolvimento, quanto mais na época em que Ele viveu. Cristo, de certa forma, chama a atenção velada para a chama divina individual.
O Amor cristão está muito para lá do Amor pela Sabedoria (ou pela alma), como era subscrito pelos filósofos da Antiguidade. Ou pelo dos Provérbios (“Eu amo quem me ama”). O Amor cristão é o amor pelo pobre, pelo humilde, pelo desprezado, pelos próprios inimigos.
O homem pagão dos primórdios vive fascinado pelo mundo e pelas potências que o arrebatam (poder, riqueza, prazer, paixões … ), o pagão clássico, aristocrata por excelência, torna-se estóico. Como conciliar esta ética estóica que exige repulsa e desprezo, com a que exige amor e compaixão?
Mas o cristianismo foi mais tarde influenciado pelo seu grande teorizador, tornando-se na negação dos poderes deste mundo – Santo Agostinho. Nos solilóquios diz-nos: “ Quero conhecer Deus e a alma. Nada mais? Nada mais, em absoluto”. [Deum et animam scire cupio. Nihilne plus? Nihil omnino]. E em De vera religione, despreza o mundo exterior, a sociedade. Para Agostinho o importante é a interioridade do próprio homem: “ Não vás para fora, permanece dentro de ti, no interior do homem habita a verdade” [Noli foras ire, in te redi, in interíore homine habitat veritas].
A lista de cientistas desde o declínio do império romano até aos dias de hoje é infindável, mas seria interessante transcrevê-la para se verificar que a Ciência europeia, tal como a conhecemos, foi preservada por cristãos, cultivada por eles, de acordo com os seus pressupostos. Os seus fundamentos são cristãos, como o são os seus criadores, que em tudo foram influenciados pelos Gregos (e de certa forma aos Romanos), em cujas fontes beberam.
Armando Palavras


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