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Tempo Caminhado: A Europa – Origens (2) |
A civilização romana durou um
milénio, desde a sua fundação ao seu declínio. Começou como uma tribo, passou a
monarquia, a república e a Império. Em termos de governação, Roma deixou um
contributo notável ao Ocidente, baseado nos princípios da República. O retórico
grego (meados do séc.II) Elio Aristides pronunciou um discurso oficial de
antologia, onde exaltava as grandezas de Roma. A unidade do Império não se
baseava na escravidão, como nas monarquias orientais e nas de Alexandre e seus
sucessores. Em Roma o trabalho cativo não era regra como nos impérios
orientais. Roma governava homens livres e não escravos. A cabeça deste mundo
não era um amo, mas sim um retor, um
chefe. No Estado romano não havia gregos e bárbaros, nacionais e estrangeiros.
Havia, como diz Aristides, homens.
Os romanos haviam aprendido com
os gregos. Eles próprios diziam que eram melhores do que os gregos no combate,
em Direito (que usaram para administrar o império, e o qual ainda hoje o Ocidente
utiliza), em engenharia (que tanto influenciou todo o Ocidente), mas em tudo o
mais, reconheceram a superioridade dos gregos, copiando-os literalmente.
A República corrompeu-se. São
conhecidos os assassinatos de Cônsules (como o de César). Esta corrupção
estendeu-se ao Império (que se havia de estender por todo o Ocidente até à
época actual). Alguns imperadores eram completamente loucos. Muitos foram
assassinados, tornando o poder ilegítimo, pois não se sabia quem mandava. Foram
tempos de terror.
Contudo, no século I d.C. algo
contribuiu para que os últimos séculos do Império Romano fossem lembrados para
a posteridade como exemplares (por todo o Ocidente). E, de facto, é neste tempo
que o império ascende aos píncaros. Sobretudo por influência da filosofia
estóica que daria um contributo de excelência à governação de várias gerações
de imperadores.
O estoicismo penetrou fundo na
alma romana e ficou entranhado na do Ocidente, porque se houve mérito na maior
civilização da Antiguidade, foi o de espalhar por todo o império a sabedoria
recebida dos seus antecessores. O que quer dizer por todo o Ocidente e algumas
partes do Oriente e da África. Podemos por isso dizer que o euro foi inventado
pelos romanos, porque a sua moeda circulava por todo o império.
O estoicismo surgiu na Grécia
(século III a. C.) e foi introduzido em Roma por Panécio, mestre do sírio
Posidónio que por sua vez foi mestre de Cícero. Contudo, esta filosofia teve em
Séneca o seu grande divulgador, seguido de Epicteco e do imperador Marco
Aurélio. E durante cerca de cinco séculos, no mundo antigo, não foi restrito a
nenhuma elite intelectual. Foi apropriado pelas classes dirigentes (senadores,
burocratas, exército, aristocracia e burguesia) e infiltrou-se no abismo mais
fundo da multidão, difundindo-se como uma filosofia popular.
No lugar dos antigos paradigmas,
o estoicismo com ideias simples, austero e pragmático serviu de apoio para o
homem deste Estado que se pretendia universal. A influência desta filosofia
deveu-se à sua vivacidade política e ética.
A ética estoica segue o
imperativo de viver segundo a natureza.
Como a natureza do homem consiste na razão, então o homem devia viver segundo a
razão. E a razão do homem é uma parcela da razão universal que rege e ordena o
cosmos. A virtude reside na recta razão. E o destino não arrasta à força o
homem virtuoso, condu-lo e guia-o rumo ao bem. A virtude está em agir segundo a
recta razão. Tudo o mais, prazeres e por aí adiante, não é nem bom nem mau, é
indiferente. A máxima da doutrina estoica resume-se a um mandamento básico:
suporta e renuncia [sustine et abstine].
A política estoica é cosmopolítica.
E este cosmopolitismo foi uma revolução radical para o mundo antigo. A cidade
não é produto da natureza, mas sim da convenção. É obra artificial,
representando uma prisão para o sábio. A verdadeira pátria do homem não está
nesta ou naquela cidade, mas sim na natureza [Kosmos]. O homem é cidadão do mundo, cosmopolita. Não está
vinculado às leis da cidade mas sim à legalidade natural. O Universo (que se
identifica com a própria Divindade) é a nossa pátria natural.
Depois disto surgem imperadores memoráveis
como Octávio Augusto, Marco Aurélio, e o “século de ouro” dos Antoninos. O que
estes homens fizeram em todos os ramos do saber e da sociedade (socorro aos
pobres, distribuição de pequenas propriedades privadas, o perdoar de dividas
para recuperar a economia e por aí fora) fortaleceu o que haviam adquirido de
Gregos como Sólon e Péricles, ampliando a futura alma europeia.
Constantino surge mais tarde,
fazendo a ligação entre o mundo pagão (com as suas reminiscências
indo-europeias) e o mundo cristão, ao qual dedicaremos o penúltimo escrito
sobre estas origens. O último será o epílogo (com aspectos dos guerreiros germânicos
e do período medieval).
Armando Palavras


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