segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A Europa – Origens (3)

                                      Tempo Caminhado: A Europa – Origens (2)


A civilização romana durou um milénio, desde a sua fundação ao seu declínio. Começou como uma tribo, passou a monarquia, a república e a Império. Em termos de governação, Roma deixou um contributo notável ao Ocidente, baseado nos princípios da República. O retórico grego (meados do séc.II) Elio Aristides pronunciou um discurso oficial de antologia, onde exaltava as grandezas de Roma. A unidade do Império não se baseava na escravidão, como nas monarquias orientais e nas de Alexandre e seus sucessores. Em Roma o trabalho cativo não era regra como nos impérios orientais. Roma governava homens livres e não escravos. A cabeça deste mundo não era um amo, mas sim um retor, um chefe. No Estado romano não havia gregos e bárbaros, nacionais e estrangeiros. Havia, como diz Aristides, homens.
Os romanos haviam aprendido com os gregos. Eles próprios diziam que eram melhores do que os gregos no combate, em Direito (que usaram para administrar o império, e o qual ainda hoje o Ocidente utiliza), em engenharia (que tanto influenciou todo o Ocidente), mas em tudo o mais, reconheceram a superioridade dos gregos, copiando-os literalmente.
A República corrompeu-se. São conhecidos os assassinatos de Cônsules (como o de César). Esta corrupção estendeu-se ao Império (que se havia de estender por todo o Ocidente até à época actual). Alguns imperadores eram completamente loucos. Muitos foram assassinados, tornando o poder ilegítimo, pois não se sabia quem mandava. Foram tempos de terror.
Contudo, no século I d.C. algo contribuiu para que os últimos séculos do Império Romano fossem lembrados para a posteridade como exemplares (por todo o Ocidente). E, de facto, é neste tempo que o império ascende aos píncaros. Sobretudo por influência da filosofia estóica que daria um contributo de excelência à governação de várias gerações de imperadores.
O estoicismo penetrou fundo na alma romana e ficou entranhado na do Ocidente, porque se houve mérito na maior civilização da Antiguidade, foi o de espalhar por todo o império a sabedoria recebida dos seus antecessores. O que quer dizer por todo o Ocidente e algumas partes do Oriente e da África. Podemos por isso dizer que o euro foi inventado pelos romanos, porque a sua moeda circulava por todo o império.
O estoicismo surgiu na Grécia (século III a. C.) e foi introduzido em Roma por Panécio, mestre do sírio Posidónio que por sua vez foi mestre de Cícero. Contudo, esta filosofia teve em Séneca o seu grande divulgador, seguido de Epicteco e do imperador Marco Aurélio. E durante cerca de cinco séculos, no mundo antigo, não foi restrito a nenhuma elite intelectual. Foi apropriado pelas classes dirigentes (senadores, burocratas, exército, aristocracia e burguesia) e infiltrou-se no abismo mais fundo da multidão, difundindo-se como uma filosofia popular.
No lugar dos antigos paradigmas, o estoicismo com ideias simples, austero e pragmático serviu de apoio para o homem deste Estado que se pretendia universal. A influência desta filosofia deveu-se à sua vivacidade política e ética.
A ética estoica segue o imperativo de viver segundo a natureza. Como a natureza do homem consiste na razão, então o homem devia viver segundo a razão. E a razão do homem é uma parcela da razão universal que rege e ordena o cosmos. A virtude reside na recta razão. E o destino não arrasta à força o homem virtuoso, condu-lo e guia-o rumo ao bem. A virtude está em agir segundo a recta razão. Tudo o mais, prazeres e por aí adiante, não é nem bom nem mau, é indiferente. A máxima da doutrina estoica resume-se a um mandamento básico: suporta e renuncia [sustine et abstine].
A política estoica é cosmopolítica. E este cosmopolitismo foi uma revolução radical para o mundo antigo. A cidade não é produto da natureza, mas sim da convenção. É obra artificial, representando uma prisão para o sábio. A verdadeira pátria do homem não está nesta ou naquela cidade, mas sim na natureza [Kosmos]. O homem é cidadão do mundo, cosmopolita. Não está vinculado às leis da cidade mas sim à legalidade natural. O Universo (que se identifica com a própria Divindade) é a nossa pátria natural.
Depois disto surgem imperadores memoráveis como Octávio Augusto, Marco Aurélio, e o “século de ouro” dos Antoninos. O que estes homens fizeram em todos os ramos do saber e da sociedade (socorro aos pobres, distribuição de pequenas propriedades privadas, o perdoar de dividas para recuperar a economia e por aí fora) fortaleceu o que haviam adquirido de Gregos como Sólon e Péricles, ampliando a futura alma europeia.
Constantino surge mais tarde, fazendo a ligação entre o mundo pagão (com as suas reminiscências indo-europeias) e o mundo cristão, ao qual dedicaremos o penúltimo escrito sobre estas origens. O último será o epílogo (com aspectos dos guerreiros germânicos e do período medieval).
Armando Palavras

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