quarta-feira, 12 de novembro de 2014

JÁ ESTÁ A RUGIR O LATO - Jorge Lage

MIRANDELA
Jorge Lage
Já falámos das aparelhagens sonoras de Mirandela e que por altura das Festa da «Bila» animavam as infernais tardes e noites do estio mirandelense.
Eu sei que o Artur Ferreira se vai recordar dos «ganchos» que ele e outros (como o Zé Santos e o Fernando Paulino) faziam para arranjarem uma folga ao saudoso Fernando Azevedo, na cabine sonora da «Sonomir», enquanto ele trabalhava de caixeiro no sótão do Arnaldo Morais.
Mas, das minhas indagações e algumas recordações posso dizer que a aparelhagem «Sonomir» e «Hipólito Seramota» eram as que animavam a «Bila», e os bairros festivos, e para as aldeias eram mais a «Estáquio» do Montevideu e a «Seixas» do Amílcar Seixas de Contins.
Para os que os exercícios de memória são maçadores eu ajudo.


Recuem aos anos cinquenta e sessenta, quando a maioria das aldeias do nosso concelho não tinham luz eléctrica. Na escuridão da noite era a candêa, o lampião, o gasómetro, o petromax e o candeeirinho de mesinha de cabeceira.
Em finais dos anos sessenta, à luz da candeia, na mesa da cozinha, li muito do Eça, dos Lusíadas, do Gil Vicente e dos autores, perfilados na «Selecta Literária» do António José Saraiva e Óscar Lopes, e dos medievos trovadores e cronistas. Os meus pais viam na luz mortiça da torcida e do murraco gasto o meu trabalho. E tínhamos pensamentos antagónicos. Eles pensavam que o meu trabalho de estudo era mais custoso, porque «dava cabo da cabeça» e eu achava que era um privilegiado, que o estudo era férias, porque trabalho era o braçal e extenuante da faina campesina.
Fosse como fosse, vamos ser realistas, trabalho duro qualquer um que não fosse mandrião ou se não tivesse deixado «morder pela mosca» o conseguia fazer. Mas, passar nos estudos, naquele tempo, tinha que ter um mínimo de inteligência. Embora os rurais mais expeditos lançavam logo a máxima: «um doutor é um burro carregado de livros». Por isso, o Capitão Esteves se lamentava que o filho, engenheiro agrónomo, não sabia distinguir na horta uma figueira de um pessegueiro, para gáudio e zombaria dos empregados, cujo último rosto foi o Frederico de Vale Madeiro.


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