quarta-feira, 5 de novembro de 2014

EDP - quem te viu e quem te vê

Ponte da Misarela - Montalegre
Barroso da Fonte
Há Serviços de interesse público que deixaram de o ser na teoria e na prática. Os correios,  os telefones, a televisão pública, a Rdp, a Tap, a Edp, etc.
O concelho de Montalegre, sendo dos mais agrestes, dos mais planálticos, dos mais expostos às intempéries climatéricas, deveria ser contemporizado com os sortilégios do progresso social, económico e tecnológico do país. Aqueles que aí nascem, vivem e têm de sobreviver, deveriam ser tratados, socialmente, com cuidados acrescidos. Deveriam ser tidas em conta contrapartidas positivas, como por exemplo se faz quando um funcionário público tem direito a subsídio de alimentação, de isolamento, de viagem. É esse o concelho do país que mais barragens acolhe e alimenta com a água dos seus rios: o Cávado e o Rabagão. Deveria ter contrapartidas.
O entrudo na ponte da Misarela
Ora o que sucede é o contrário de tudo isso. Quem aí nasce e tem de viver e conviver uma vida inteira, é descriminado desde que nasce até que morre. É sempre o último a receber aquilo que a lei exige e o primeiro a cumprir os deveres para com o Estado. Pior do que isso: o orçamento geral do Estado é distribuído a partir do Terreiro do Paço para a fronteira e nunca a começar da fronteira para o Terreiro do Paço. Os deputados, por exemplo, chegam a Lisboa, declaram que tem a residência em Trás-os-Montes, nos Açores ou na Madeira. Durante todo o mandato, passam a trabalhar em Lisboa,  e processam ajudas de custo que contemplam alimentação, pernoita e viagem, ao nível mais elevado da função pública.
Rio Cávado
 Portugal é um país pequeno em termos geográficos. Mas foi um império e consolidou uma língua de 250 milhões de falantes que tem vez e tem voz na União Europeia, nas Nações Unidas, na Nato, na OCDE.  A verdade é que anualmente se projectam empreendimentos, ditos de interesse público  a começar por Lisboa, zona envolvente, chegam a Setúbal, passam por Coimbra, alongam-se ao Algarve, sobem ao Porto, ainda vão chegando a Braga. Essa peçonhenta odisseia de investir o património de todos, junto aos lares  de alguns que nem sempre merecem o pão que comem, é um crime democrático que nunca teve ideias geradoras de um partido político que imponha tréguas para inverter a marcha dos investimentos que enriquecem os centros urbanos, em prejuízo crescente dos arrabaldes do País que somos. País que, a passo largo, em vez de incluir, de equiparar, de entrelaçar pessoas e bens, cada vez mais aprofunda os alicerces de uma convivência pacífica, justa e coerente.
Rio Rabagão
 Trago este tema à reflexão com os meus leitores, após alguns dias de pausa no meu pátrio Barroso que deu para testar injustiças flagrantes. O concelho Barrosão é aquele que tem maior número de barragens no leito dos seus rios (Cávado e Rabagão). Para acolher essas barragens empobreceu, com a cedência dos melhores vales agrícolas . O autor desta crónica viu nascer, desde os alicerces, a barragem do Alto Rabagão que foi a última do sistema. Na altura essas cinco albufeiras pertenciam à HICA (Hidroeléctrica do Cávado). Devo-lhe o abrigo que me deu para ser apontador da Magop e, depois, fiscal dessa empresa patronal. Devo-lhe ainda mais, o respeito de me garantir o emprego até regressar do Serviço Militar obrigatório. Teve a dignidade de, após eu ter regressado, do Ultramar, me escrever uma carta registada, a convidar-me para ir reocupar o lugar que me estava reservado. Agradeci mas não aceitei. Talvez tenha feito mal. Entretanto a HICA virou EDP. E esta pertence hoje aos Chineses, contra os quais nada tenho, a não ser o desencanto de, como filho de Codeçoso, ver às escuras, a Rua do Carvalho, que por minha interferência, passou a ser a rua mais habitada e mais moderna da aldeia. De nada vale esse estatuto, aos olhos da EDP.  Essa Rua, onde nasci e me criei com mais nove irmãos passou a ter luz eléctrica em 1962. Desde aí passou a ter quatro lâmpadas públicas. Passaram já 52 anos. Desde Setembro até hoje, essas quatro  necessárias luzes, encontram-se apagadas.  Dia 8 de Outubro pedi socorro, por mail, à simpática vereadora das obras que no mesmo dia me respondeu a informar que logo participara à EDP. Pelo silêncio em relação à avaria, presumo que a concessionária já nem sequer respeita a representante legítima da Câmara que fornece a energia. Como habitante ocasional dessa aldeia, onde nasce o importantíssimo Rio que suporta as duas barragens de Pisões e da Venda Nova e reforça o caudal de Salamonde e Caniçada, tenho outras mágoas contra as empresas prestadoras de Serviços: Edp, Vodafone e Televisão. Aos primeiros ventos deste Outono os retransmissores de Leiranco (junto a Sapiãos), deram o berro.  Se fosse em Lisboa, Porto e arredores essa pecha que me dizem ser  repetitiva, por cada trovoada ou temporal mais estrondoso, as empresas responsáveis já tinham greves à porta. Ali, em Barroso, onde reina a paz dos sepulcros e onde as bruxas e cartomantes têm ponto de encontro marcado pelo Padre Fontes, não é costumes tocar o sino a rebate. Aqui há dois ou três anos, Barroso ficou sem televisão. Quem quis retomar esses sinais obrigatórios de uma vida normal, teve que mudar de antena ou televisor. Muitos se terão governado com o mal público. Ainda o problema não estava sanado e já novas  pragas chegaram às mesmas vítimas. A par das antenas dos telemóveis e das televisões, uma outra praga social: não há sinais práticos para acesso à internet. E todas estas carências só vingam onde as vítimas ajoelham quando passa a procissão, como diria Torga, se fosse vivo.
Barroso da Fonte

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