quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Acompanhar, à distância, a gravidez



Jorge Lage
5- Acompanhar, à distância, a gravidez – Em pequeno sabia que se a gata, a reca, a ovelha ou a burra traziam a barriga grande e descaída era certo e sabido que haver novas crias. Por isso, quando fui pai tudo me pareceu normal, mesmo não tendo programado a vinda dos filhos. Vieram quando Deus e a boa fortuna entenderam. A segunda gravidez foi vista como um redobrar de gastos para um salário em que mais de metade era para a renda da casa. Mas, aceitamos. O dia do nascimento do segundo filho acabou por ser o mais feliz da minha vida. Se o meu Pai fosse vivo explicaria porquê. Certo é que, quando saí do hospital, depois de o ir ver com os meus olhos, quase enlouqueci de alegria. Não sabia onde estava, se pousava os pés no chão, se voava, se planava… O fim do mundo em felicidade inaudita. Quase quarenta anos depois… É muito tempo!... A minha filha consegue quase o impossível e vai ser Mãe, se tudo correr bem, dentro de meses. As novas tecnologias da medicina gestativa conseguem detectar, com menos de dois meses de vida e dois centímetros de comprimento, o coraçãozinho da criança a bater. Uma complexa análise ao sangue sabe-se se está tudo bem e qual o sexo. Pelos três meses de gravidez, o médico disse à minha filha que o rapaz é «avantajado», «de nariz arrebitado» e o percentil de desenvolvimento acima da média. Antes a minha filha tinha sido informada que não podia ter filhos por questões de saúde desde a infância. E, do outro lado do mundo, separados por umas semanas, o meu filho diz-me que vai ser pai de uma menina e está tudo normal, depois de outra análise complexa. Uma experiência estonteante e inebriante, principalmente para a minha mulher. Compra roupa e mais roupa de criança e estende-a em cima duma cama. Depois, penso nesta sociedade egoísta e materialista, em que tenho de pagar abortos e mais abortos, assassinando meninos e meninas que queriam nascer. Os abortos têm prioridade sobre as doenças graves. Somos uma sociedade, ou pelo menos um povo, condenado ao desaparecimento. Para além dos netos que terei, se Deus e a boa fortuna andarem com a mão por perto, este tempo familiar faz-me dar maior valor à vida.

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