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| COSTA PEREIRA Portugal, minha terra. |
Antes de abordarmos o tema anteriormente prometido
queremos ainda fazer mais algumas oportunas considerações à volta dos Impérios
e do Culto do Espírito Santo, de modo a que, na medida do possível, os mais ambiciosos
em saber, melhor conheçam as raízes culturais do povo açoriano, que são, sem
tirar nem pôr, aquelas que sempre alimentaram e alimentam a alma do português
continental. Não fora os condicionantes geográficos e insulares, aliados ao isolamente a que
durante muitos anos estiveram sujeitos os açorianos a influírem no viver e
sentir do habitante das ilhas, para que em relação ao continente se notasse qualquer
diferença quanto à pratica, origem e raiz bem lusitana das tradições populares,
do sentimento religioso e dos usos e costumes deste povo afável, simples e
hospitaleiro. Mas voltemos aos Impérios, essas garridas "capelas",
constituídos por uma porta, duas janelas e uma dispensa, que no século XVII
começaram a ser construídas na Terceira e cuja gestão e utilização é autónoma
da Igreja, pese entretanto, como a Casa do Povo, se situarem, por norma, junto
ao adro ou terreiro do orago local. Aliás, a única função do sacerdote católico
na "religião do Espírito Santo" é, nestas circunstâncias, colocar a
coroa aos imperadores ou imperatrizes e benzer as carnes e o pão a utilizar na
função ou bodo. Nas procissões, na preparação dos bodos, no
"sacrifício" dos bovídeos, na reza do terço ou nas
"alumiações", a intervenção de clero é nula. A eleição do imperador realiza-se
por sorteio, o "pelouro", entre os irmãos do império, no último
domingo dos festejos. Que determinará quem será o imperador em cada semana que
vai do Sábado Santo (Aleluia) até ao Domingo de Pentecostes, em alguns casos,
ou Domingo da Santíssima Trindade, noutros. A quem calhar a "sorte"
de sair o número um, será o responsável pelos festejos da primeira das sete ou
oito semanas e ficará com a coroa do Espírito Santo em sua casa, durante todo o
ano.
No ano seguinte, chegada a Páscoa, com o mesmo ritual
de sempre começam as "alumiações", um misto de veneração das
insígnias do Divino e de convívio alegre na casa do imperador ou rezando o
terço no império, e cantasse o pezinho ao imperador e às pessoas que deram
ofertas generosas ao Espírito Santo, uma tradição que lembra os
"reis" ou janeiras do continente, pois um grupo vai de casa em casa
cantar o pezinho aos benfeitores do império. O Culto do Espírito Santo, vivido
deste modo, crê-se remontar a tempos imemoráveis, mesmo anteriores ao do seu
registo histórico. Em Portugal a sua
revitalização é atribuída a um projecto concebido por uma elite no final do
reinado de D. Dinis. Santa Isabel e a benjamim Ordem de Cristo, onde foram
integrados todos os cavaleiros Templários, e não só, devem ter tido uma relação
directa com esse circulo interno que difundiu o culto. Recorde-se que, em
território continental, este culto foi muito intenso e persistente em locais de
implantação templária, como Tomar, Beira Baixa e Sintra. Por tal motivo é de
supor que, para além dos Franciscanos, a Ordem de Cristo tenha tido um papel
importantíssimo na sua expansão, tanto no continente como, depois, nos Açores.
O "bodo", também com o mesmo significado usado nas áreas de Leiria e
Pombal é termo bem conhecido no continente. Na Terceira não tivemos
oportunidade de participar em nenhum, mas fazendo parte da gastronomia local,
podemos saboreá-lo na "Quinta do Martelo" - São Mateus, onde nos
foram servidas com todos os requisitos e animação as "Sopas do Santo
Espírito", e a alcatra, um cozido,
de carne de vaca, em vinho de cheiro (americano) feita em alguidares de barro,
temperada com especiarias e cozinhada em forno de lenha, precisamente como é
servida pelos imperadores nos festejos do Espírito Santo. Outro elemento
importante nestes festejos é o touro, pois não só fornece a carne (como a vaca,
além da carne também o leite) para a função ou bodo, ainda empresta a sua força
bruta para cabeça de cartaz, quer nas arenas, quer nas "esperas" de
rua, onde as "marradas" são espectáculo. As "marradas" é um
termo usado pelos terceirenses para distinguirem as "touradas à
corda" que, plagiando José Vieira, são o mais popular dos folguedos da
ilha e não há quem resista a esse espectáculo rico de emoção e colorido. Têm
inicio em Maio, associadas aos festejos do Espírito Santo, e prolongam-se por
toda a ilha até Outubro. Normalmente são corridos quatro touros numa tarde.
Depois de estalar um foguete, o touro sai, da gaiola ou caixão, amarrado por
uma corda de cem metros que é segurada a meio e no extremo por dois grupos de
pastores, de camisa branca; e no caminho todos correm à sua frente, embora não
faltem os corajosos que se atrevem a uns "passes" utilizando um
guarda-chuva ou peças de roupa, a servirem de capa. No continente, a "Vacada
das Cordas" ou "Vaca das Cordas" que, na véspera da Procissão do
Corpo de Deus, se realiza em Ponte de Lima (Minho) é muito semelhante às
"marradas".
E que mais adiantar, por hoje ? A promessa de na
próxima falar da Praia.
Costa Pereira
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