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| Jorge Lage |
Os lavradores que acabavam a
decrua no mês de Fevereiro, quase nem respiravam e botavam-se, com a junta de
«beis», de machos e os mais pobres com a de burros, na tarefa da entravessa das
encostas e fraguedos, para, a seguir, atacarem as baixas e as regotas e, por
fim, o amanho das terras mais mimosas das curtinhas para o «renobo». Renovo que
começava pelas batatas e pelo milho.
Mas, passado o tempo do Entrudo e
do repartir o burro, com um grande embude a servir de megafone para se ouvir
bem em toda a aldeia e ás vezes o diálogo e os insultos eram com os rapazes dos
Eixes, do lado de lá do rio. Os do lado de lá do rio cavavam trincheiras no
Sangil, na esperança que os seus mortos, ali ao pé, os ajudassem. Os de cá
punham-se a jeito na eira de meu pai ou nos penhascos das Fragas da Fervença.
Separava as duas «artilharias» o rio Rabaçal que aproveitava para lavar as
palavras com mais surro ou mais pestilentas, nas suas claras águas, de forma
que ao chegar à outra banda pouco mais mal já havia do que um espinotear dos
mais fanfarrões. Havia sempre dois vencedores: os de Chelas que se julgavam
sempre mais educados e cavalheiros e alguns dos Eixes que se orgulhavam da
linguagem mais desbocada e intimidativa que engasgava os de cá. No dia seguinte
podia haver alguma palavra mais sentida mas não passava disso.
Os preparativos para a Páscoa e
Pascoela começavam antes da quarentena quaresmal. Já se tinha marcado o frango
ou o galo, o peru ou a perua e, para os mais abastados o cordeiro ou,
raramente, o cabrito para serem sacrificados aos deuses das barrigas. Barrigas
que durante o ano tinham de ser equilibradas, não fosse o diabo tecê-las e
faltar pão ou batatas em Maio. Por isso o dito popular lembra: Guarda comida
para Maio e lenha para Abril, não sabes o tempo que há-de vir. Quem não se
lembra de este ou aquele lavrador segar uma embelga de pão aos tantos de Maio,
encaminhá-la para a eira e rebimbar-lhe os malhos, separando o colmo da palha
para bancelhos. O taleigo de trigo seguia no burro para à azenha, para ainda ao
fim da tarde se cozer e à noite o pão chegar às barrigas vazias?
Mas, neste tempo pascal,
celebrado há milhares de anos como uma passagem, de um tempo de míngua e para
esquecer, para um tempo de abundância e de generosidade dos deuses, ou seja de
um tempo inferior, para um superior segundo as congeminações mitológicas dos
clássicos, em que tudo se agita. Agita-se a alma depois do corpo passar pela
derrisca e porque não há celebrações sem comezaina e bailação ou pândega.
O que mais retenho do tempo
pascal da minha meninice era as minhas irmãs a revirarem a casa paterna do
avesso. Era o arrouçar dos móveis e das camas de um lado para o outro e a
escova a esfregar o sobrado e a deslizar sobre as «taubas» com alguma escuma de
sabão escurecida pelo surro a lamber a sujidade de um ano de casa de laboura.
Mas, nesse tempo, as têas
d’aranha levavam volta com a vassoura artesanal de milho ou um rascalho nas
loijes. Isto não ficava por aqui e as paredes da cozinha levavam várias mãos de
cal, travando-se autêntica luta de vontades entre a cal enegrecida pelas
fogueiras de Inverno e a vontade da minha irmã de as ver brancas. Acho que
havia um compromisso entre as partes e ficavam-se pelo meio-tom (cor de café
com leite) a cheirar a pintado de fresco. As panelas e os potes tripés de ferro
a repousar perfilados na altaneira prateleira, sorriam no seu brilho
plúmbeo-argênteo, pois recordavam a áspera esfregadela, gemida no seu sibilino
protesto. Era a areia finíssima da Carva o esfregão e a satisfação da minha mãe
pelo trabalho. Não podia haver potes e panelas mais reluzentes que os de minha
casa, porque a minha mãe era mulher para os deixar perfeitos, ainda que tivesse
de os esfregar nos 365 dias do ano.
Fosse como fosse, o Domingo dos
Lázaros ou da Paixão era o aviso para tudo estar a postos para o Sábado de
Aleluia e Domingo de Páscoa. Pelo que o Domingo de Ramos já era uma pequena
festa, com os padrinhos e os afilhados a trocarem prendas ou pelo menos cumprimentos,
e os raminhos bentos de oliveira guardados para afastar trovoadas, das casas,
dos campos e dos animais. Os ramos dos cristãos tentaram herdar os poderes das
Maias dos nossos antepassados Celtas e das libações aos deuses do Olimpo. O
Domingo de Pascoela era um dia festivo e a despedida desta grande trilogia
passante anual. Lá diz o dito, «Lázaros, Ramos, na Páscoa estamos».
Em algumas localidades mais
ousadas e propensas a representações teatrais faziam-se os «ramos» ou peças
teatrais sobre passagens bíblicas mais marcantes e emotivas. A morte de Abel
pelo irmão Caim era um deles, embora o mais representado fosse (e é) a própria
Paixão de Jesus. Volta não volta, o meu pai, com a sua memória prodigiosa,
repetia em tom dramático as palavras que tinha ouvido aos actores populares nos
ramos: «Setas e mais Abel// Dizem que são meus irmãos,// Também «há-dem» ser
meus cravos// se lhe chegar a por as mãos»!
A Páscoa era um tempo de
abundância e de partilhar com os amigos. Com o anho escolhido a ser alvo de
cuidados especiais, não fosse o «Zé descalço» abocanhá-lo junto a algum
barranco ou calço. Os pruns também eram melhor alimentados, já que as pruas
foram sacrificadas aos estômagos pelo tempo dos macaronos.
Os folares eram a iguaria de maior identificação
com a Páscoa e quem os não tivesse considerava-se como vivendo com grandes
privações ou na miséria. Todos tinham alguns ovos guardados num local mais
fresco ou no grão da tulha ou duma rasa, evitando-se as temperaturas mais
altas.
A minha mãe levava o ritual
antigo do sacrifício da Páscoa a peito. Marcava o dia para fazer os folares no
forno dos meus avós nos Eixes, junto à Igreja. Sempre era mais seguro ter a
minha avó Rosa por perto, nem precisava de pensar na lenha para o forno.
Depois, sacrificava uma boa espada da ceba a meia-cura e retalhava-a em
pequenas e grossas fatias, fosse a carne magra ou a gorda. E lá seguia de
canastra à cabeça, com um grande tacho de gemalte acolado de pedaços de
presunto, outro tacho com salpicões e linguiças, as dúzias de ovos, o azeite e
a farinha triga. Nesse dia ou no seguinte regressava uma carrada de folares que
duravam quase 15 dias.
Fazer os folares era um processo
demorado, com paciência, quando a massa estivesse bem lêveda e descansada
seguia para os tachos e recebia os pedaços das carnes. Depois o forno tinha de
estar bem quente, no ponto, sem brasas a mais e com trabalho certo do
ranhadouro. Não podia queimar os folares, como não os podia deixar crus. Era a
massa a descansar que adormecia aconchegada, como se cobria um filho, sob as
mantas ou cobertores mais gastos.
A mesa era farta e não podiam
faltar os económicos para acompanharem o final do café na «choclateira» ou da
refeição mais calma ou demorada.
Sem os dormidos da Inês, nem o
bolo podre de Santa Maria ou uma tradicional fatia de folar com os amigos não
tenho a minha Páscoa.
Jorge Lage - jorgelage@portugalmail.com - 25MAR2014
Provérbios:
Poda
em Abril, vinho no mandil.
Inverno
de Março e seca de Abril, deixam o lavrador a pedir.
Moleiro
que muito maquia perde a freguesia.


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