| Barroso da Fonte |
Nessa
altura o verdadeiro povo vivia anestesiado de pés e mãos. E aceitou como boa a
explicação que os chamados capitães de Abril idealizaram e conseguiram impor.
Só lhes faltou a sinceridade: dizerem a esse povo anestesiado que o golpe de
Estado que congeminaram e levaram à prática – felizmente com sucesso – não para
salvar o povo, mas para impedirem que fosse posto em prática o Decreto-Lei
373/73 que abriu as portas aos oficiais milicianos que, após regressarem de uma
primeira comissão no Ultramar, quisessem meter o «chico», isto é: requeressem a
sua integração no quadro de complemento. Na altura os oficiais que saíam das
escolas de formação militar eram insuficientes para substituir os comandos de
companhia. Como os milicianos (COM e alguns CSM) frequentavam os cursos de
preparação intensiva e eram mobilizados para os diferentes palcos de guerra,
não todos, mas alguns, regressavam com louvores e condecorações. Para
concluírem cursos interrompidos, ou para fazerem carreira militar, optavam por
essa profissionalização que de maneira alguma agradava aos do quadro permanente
que viam perigar as suas promoções e a sua antiguidade. Essa rebelião dos
capitães de Abril, deu-se, pois, em primeiro lugar, por motivações
reivindicativas contra os oficiais
milicianos que eram desviados das suas opções, na altura em que já haviam feito
ou estavam em vias disso, cerca de três anos de vida militar. Afinal apenas se
oficializava uma prática que já vingava naquelas companhias em que o alferes
mais
antigo da companhia, substituía o capitão do quadro, uns a título efectivo
(por promoção, doença ou morte), outros em grandes períodos, como férias, ou
doença prolongada). Foram centenas, muitas centenas de oficiais milicianos que
na Guiné, em Angola, Moçambique, assumiram, interinamente, essas funções. Só
que tal promoção não estava legislada. Mais: por essa altura eram os oficiais
milicianos que, transitavam do Exército para os quadros de comando da GNR,
da Guarda
Fiscal. Nunca se questionou a qualidade da preparação de uns e de outros
porque, de uma maneira geral, todos davam o seu melhor. Ora se os milicianos,
ao nível de pelotão e, às vezes de companhia, serviram durante treze anos e
nunca foram postos em causa pelos do quadro permanente, quais os motivos por
que foram traídos por estes, sem que,
uma vez no mando e no comando dos destinos do país, reparassem as injustiças,
os vexames e os enxovalhos de que nunca mais se libertaram? Nunca vi e nunca ninguém viu ou ouviu, qualquer
«ex-capitão de Abril» ter uma palavra de apreço, de respeito e de admiração
pelos oficiais milicianos que, durante tantos anos, foram parceiros nas boas e
nas más horas, combateram nas mesmas frentes de combate, partilharam as mesmas casernas, as mesmas
mesas, os mesmos pratos, vestiram as mesmas fardas, usaram as mesmas armas,
gastaram das mesmas munições, beberam do mesmo cantil e até leram histórias de
família, através dos mesmos aerogramas. Quem esperaria tamanha ingratidão por parte
de alguns, muito mais modernos, que viram encurtados os seus cursos na academia
e que logo foram enquadrados nas suas carreiras, - essa sim - uma tremenda
injustiça face a quem completou a sua formação integral?
Alguns desses «capitães de Abril»,
abrigaram-se no beiral de oficiais superiores. E ficaram todos a «salvo»,
porque o «verdadeiro povo», cheio de guerras e de emigração não esperou para
perceber as razões da euforia. Mesmo que fosse outra a origem da queda do poder
reinante, desde que não houvesse sangue nem distúrbios públicos, o mesmo povo
sairia para as ruas, dando largas à sua euforia. A comunicação social, ontem
como hoje, esteve e está ao lado dos poderosos, da sensação. Porque só pensa
nas vendas, nas tiragens, nas audiências, mesmo atropelando os indigentes. E
este é exemplo exacto nestes 40 anos de comemoração. Alguma vez, algum canal
televisivo, alguma rádio, algum jornal de grande expansão chamou aos seus
microfones, algum programa exclusivo, sobre o diferendo entre os «capitães» de
Abril e os espezinhados milicianos? 
É
por isso que os «capitães» de Abril estão mal habituados. Fizeram carreira
apressada, antes, durante e depois da revolução que teria de dar-se fosse com
eles ou com outros. Nunca se escreveram tantos livros e nunca houve tantos
autores de guerra. Até já alguns académicos elegeram o tema e o trataram,
fazendo vista grossa àquele diferendo sempre ostracizado. Há excepções felizes:
Rui Neves da Silva, capitão miliciano., escreveu em 2007 «Milicianos os Peões
das Nicas». Nas suas 730 páginas condensa-se a versão objectiva da guerra e da
reivindicação do século. rneves@netcabo.pt
Barroso da Fonte

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