quarta-feira, 23 de abril de 2014

Barroso da Fonte - 40 anos de glória para os capitães de Abril, outros tantos de enxovalho para os Combatentes



Barroso da Fonte
Barroso da Fonte
Se as intenções dos capitães do quadro permanente acerca do golpe militar do 25 de Abril correspondessem àquilo que impingiram na opinião pública e que os holofotes mediáticos, desde aí, até hoje propalaram, sobretudo nas classes menos escolarizadas, até eu e muitos milhares estaríamos hoje na celebração nacional das comemorações dos 40 anos que vão decorrer no Parlamento. E nem sequer iríamos amuar como os profissionais das armas, a quem nunca faltou palco, algazarra e protagonismo.
 Nessa altura o verdadeiro povo vivia anestesiado de pés e mãos. E aceitou como boa a explicação que os chamados capitães de Abril idealizaram e conseguiram impor. Só lhes faltou a sinceridade: dizerem a esse povo anestesiado que o golpe de Estado que congeminaram e levaram à prática – felizmente com sucesso – não para salvar o povo, mas para impedirem que fosse posto em prática o Decreto-Lei 373/73 que abriu as portas aos oficiais milicianos que, após regressarem de uma primeira comissão no Ultramar, quisessem meter o «chico», isto é: requeressem a sua integração no quadro de complemento. Na altura os oficiais que saíam das escolas de formação militar eram insuficientes para substituir os comandos de companhia. Como os milicianos (COM e alguns CSM) frequentavam os cursos de preparação intensiva e eram mobilizados para os diferentes palcos de guerra, não todos, mas alguns, regressavam com louvores e condecorações. Para concluírem cursos interrompidos, ou para fazerem carreira militar, optavam por essa profissionalização que de maneira alguma agradava aos do quadro permanente que viam perigar as suas promoções e a sua antiguidade. Essa rebelião dos capitães de Abril, deu-se, pois, em primeiro lugar, por motivações reivindicativas  contra os oficiais milicianos que eram desviados das suas opções, na altura em que já haviam feito ou estavam em vias disso, cerca de três anos de vida militar. Afinal apenas se oficializava uma prática que já vingava naquelas companhias em que o alferes mais antigo da companhia, substituía o capitão do quadro, uns a título efectivo (por promoção, doença ou morte), outros em grandes períodos, como férias, ou doença prolongada). Foram centenas, muitas centenas de oficiais milicianos que na Guiné, em Angola, Moçambique, assumiram, interinamente, essas funções. Só que tal promoção não estava legislada. Mais: por essa altura eram os oficiais milicianos que, transitavam do Exército para os quadros de comando da GNR, da Guarda Fiscal. Nunca se questionou a qualidade da preparação de uns e de outros porque, de uma maneira geral, todos davam o seu melhor. Ora se os milicianos, ao nível de pelotão e, às vezes de companhia, serviram durante treze anos e nunca foram postos em causa pelos do quadro permanente, quais os motivos por que  foram traídos por estes, sem que, uma vez no mando e no comando dos destinos do país, reparassem as injustiças, os vexames e os enxovalhos de que nunca mais se libertaram? Nunca vi e  nunca ninguém viu ou ouviu, qualquer «ex-capitão de Abril» ter uma palavra de apreço, de respeito e de admiração pelos oficiais milicianos que, durante tantos anos, foram parceiros nas boas e nas más horas, combateram nas mesmas frentes de combate,  partilharam as mesmas casernas, as mesmas mesas, os mesmos pratos, vestiram as mesmas fardas, usaram as mesmas armas, gastaram das mesmas munições, beberam do mesmo cantil e até leram histórias de família, através dos mesmos aerogramas. Quem esperaria tamanha ingratidão por parte de alguns, muito mais modernos, que viram encurtados os seus cursos na academia e que logo foram enquadrados nas suas carreiras, - essa sim - uma tremenda injustiça face a quem completou a sua formação integral?
  Alguns desses «capitães de Abril», abrigaram-se no beiral de oficiais superiores. E ficaram todos a «salvo», porque o «verdadeiro povo», cheio de guerras e de emigração não esperou para perceber as razões da euforia. Mesmo que fosse outra a origem da queda do poder reinante, desde que não houvesse sangue nem distúrbios públicos, o mesmo povo sairia para as ruas, dando largas à sua euforia. A comunicação social, ontem como hoje, esteve e está ao lado dos poderosos, da sensação. Porque só pensa nas vendas, nas tiragens, nas audiências, mesmo atropelando os indigentes. E este é exemplo exacto nestes 40 anos de comemoração. Alguma vez, algum canal televisivo, alguma rádio, algum jornal de grande expansão chamou aos seus microfones, algum programa exclusivo, sobre o diferendo entre os «capitães» de Abril e os espezinhados milicianos?
É por isso que os «capitães» de Abril estão mal habituados. Fizeram carreira apressada, antes, durante e depois da revolução que teria de dar-se fosse com eles ou com outros. Nunca se escreveram tantos livros e nunca houve tantos autores de guerra. Até já alguns académicos elegeram o tema e o trataram, fazendo vista grossa àquele diferendo sempre ostracizado. Há excepções felizes: Rui Neves da Silva, capitão miliciano., escreveu em 2007 «Milicianos os Peões das Nicas». Nas suas 730 páginas condensa-se a versão objectiva da guerra e da reivindicação do século. rneves@netcabo.pt 
                      
 Barroso da Fonte

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