Relatório
da comissão das PPP arrasa Sócrates, regulador e gestão da Estradas de Portugal
Raquel Almeida Correia
O
relatório da comissão de inquérito às parcerias público-privadas (PPP),
entregue nesta segunda-feira no Parlamento e a que o PÚBLICO teve acesso,
arrasa as decisões tomadas por membros do Governo de José Sócrates. A
administração da Estradas de Portugal (EP) é acusada de ter sido “conivente com
a opção política vigente” e o regulador dos transportes considerado “incapaz”
de exercer as funções de supervisão destes contratos.
As
conclusões do relatório de 500 páginas, que será divulgado publicamente na
terça-feira, começam por apontar que “a utilização massiva de PPP em Portugal
como forma de financiamento do Estado desvirtuou o seu objectivo fundamental:
reduzir custos para o Estado e melhor satisfazer as necessidades públicas”.
Um
dos principais problemas identificados pela comissão foi o facto de os estudos
encomendados pelo Estado para suportar a celebração destes contratos assentarem
“em cenários inflacionados e pouco realistas”. Mas a comissão vai mais longe e
afirma que “o recurso excessivo às PPP teve por base a necessidade de os
agentes políticos realizarem obra sem formalmente se endividarem”, por via de
um “aproveitamento político pernicioso” que resultou do facto de este tipo de
encargos não ter impacto na dívida pública, naquela altura.
As
maiores críticas são direccionadas aos contratos feitos no sector rodoviário,
com destaque para a Lusoponte, que a comissão classifica como “um dos piores
exemplos”. Neste caso, o relatório indica que os acordos de reequilíbrio
financeiro desta concessão já custaram aos contribuintes portugueses quase 847
milhões de euros.
É,
porém, na parte destinada às antigas auto-estradas sem custos para o utilizador
(SCUT) que surgem as mais duras acusações aos responsáveis políticos,
especialmente no que diz respeito às renegociações ocorridas em 2010, durante o
Governo de José Sócrates. “A comissão considera inaceitável que o Governo à
época tenha assumido e aceite crescimentos elevados de tráfego que não eram de
todo previsíveis” e que, não se concretizando, obrigaram à compensação
financeira dos concessionários.
Neste
campo, o relatório aponta especificamente o dedo aos ex-secretários de Estado
dos Transportes, Paulo Campos, e das Finanças, Carlos Costa Pina. No que diz
respeito a este último, a comissão escreve que o “repudia politicamente” pela
“desresponsabilização que evidenciou” na renegociação destas PPP.
A
anterior gestão da EP, liderada por Almerindo Marques, também não escapa às
críticas. Além de acusar a empresa de conivência com as opções políticas na
massificação das PPP, a comissão quer que os administradores sejam “chamados a
assumir as responsabilidades” a par dos governantes da altura, especialmente no
que toca à contratação de subconcessões rodoviárias, como a obra do Túnel do
Marão, parada desde 2011. Isto porque foram assumidos encargos que puseram em
causa a sustentabilidade da EP, apesar dos alertas do Tribunal de Contas e da
Inspecção-Geral de Finanças. O relatório cita uma “carta de conforto” enviada à
empresa por dois ex-ministros de Sócrates (Mário Lino e Teixeira dos Santos)
assegurando o cumprimento dos compromissos financeiros.
Já
em relação ao IMTT, que supervisiona o sector dos transportes, o relatório
indica que “acusou incapacidade em exercer na plenitude a sua função de
regulador”, nomeadamente no que se refere às PPP do sector ferroviário.
O
relatório dá conta que, mesmo com a última renegociação (feita pelo actual
Governo com uma poupança de 300 milhões de euros ao longo da vida dos
contratos), os contribuintes vão ser onerados em mais de 12 mil milhões de
euros por causa das PPP. E termina afirmando que “entende, por força dos
pedidos feitos por autoridades judiciais, enviar o relatório ao Ministério
Público”.
Oliveira
Martins: Última palavra nas PPP é do Tribunal de Contas
18/06/2013
| 11:41 | Dinheiro Vivo
O
presidente do Tribunal de Contas afirma que apesar do inquérito às PPP ter ido
parar às mãos do Ministério Público, é o Tribunal de Contas, a que preside, que
tem a última palavra.
“Se
não forem cumpridas as orientações do Tribunal obviamente que há pagamentos
indevidos e isso está fora de causa. Tem de ser cumprido escrupulosamente tudo
o que o Tribunal de Contas decidiu nesta matéria”, afirmou à margem do
Seminário 'A economia social, o emprego e o desenvolvimento local”.
Oliveira
Martins refere que “a última palavra neste domínio cabe ao Tribunal de Contas e
tudo o que o Tribunal de Contas decidiu nesta matéria, designadamente na
emissão dos vistos, é o que vai ter de ser cumprido”.
Ainda
assim lembra que “é prematuro fazer quaisquer comentários porque este tema na
altura própria foi considerado pelo Tribunal” e tendo em conta os
desenvolvimentos “é ainda prematuro fazer qualquer consideração”.

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