O Auto da Alma, Os Lusíadas,
A Paixão do Jovem Werther, Mensagem, À Espera do Centeio, Pela
Estrada Fora, O Lobo das Estepes,
Iluminações, ou O Aleph, são, entre outros, alguns dos nossos livros de culto. E
alguns, como Pedro Páramo, são-no de
cabeceira. Ficções é outro dos nossos
preferidos.
Borges, neste conjunto de contos,
transporta-nos para mundos imaginários e reais ao mesmo tempo.
Na “Biblioteca de Babel” tudo se
altera, tudo vai para lá da ordem habitual. “Não há nesta biblioteca dois
livros idênticos. A biblioteca é total e as suas estantes registam todas as
possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (número embora
vastíssimo, não infinito). Ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os
idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos,
o catálogo fiel da biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos …”
E desta biblioteca mental somos
transportados para a Lotaria da Babilónia, uma sociedade governada por uma Companhia
que se dedica a tornar o quotidiano dos cidadãos num imenso jogo de lotaria,
progressivamente complexa, até à insanidade, permitindo toda a espécie de
teorias explicativas porque, como nos diz Borges, “a Babilónia não é outra
coisa senão um infinito jogo de acasos”.
Surge-nos então Pierre Ménard,
autor de “Quixote”, inteiramente igual ao “Quixote” de Cervantes, mas ao mesmo
tempo absolutamente diferente.
E deste autor fictício somos
levados para o mundo dos sonhos, das ruínas circulares onde desembarca, de
noite, numa canoa de bambus, um homem que se sumia na lama sagrada. O mago
vindo do sul. Deita-se junto de um templo e sonha. Ouviu a voz de deus.
E, de novo, um escritor: Herbert
Quain. Morreu em
Roxommon. Escreveu livros experimentais. Admiráveis. Era
modesto. Os seus livros anseiam pelo espanto.
Salta-se para uma história de
suspense, de espionagem. Madden era implacável, e perseguia-o. Para lhe fugir
dirigiu-se ao jardim dos caminhos que se bifurcam. Aparece-lhe Stephen Albert.
Na biblioteca reflectem sobre a obra de Ts’ui Pên, que não acreditava no tempo
uniforme, absoluto. O narrador baleia Albert e é preso por Madden o que não
implicou que a mensagem fosse dada; o mote para Berlim poder atacar a cidade
secreta.
Da Europa, para a América Latina.
Ireneo Funes, com “um cigarro no duro rosto”, sabia sempre as horas, “como um
relógio”. Ficara paralisado de uma queda de cavalo. Tinha memória prodigiosa.
Enumerava, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registados pela Naturalis história. Tinha aprendido, sem esforço, inglês, francês, espanhol,
português e latim. E tinha 19 anos quando o narrador o conheceu (1868). Morreu
em 1889 de uma congestão pulmonar.
O inglês da Colorada, como todos
o conheciam em Tacuarembó, tinha uma cicatriz rancorosa na face. Era a marca da
sua infâmia. Por ter denunciado o homem que o havia protegido. Ele, afinal, era
Vincent Moon.
Kilpatrick foi um conspirador. E
pereceu na véspera da rebelião que sonhara. As circunstâncias do seu
assassinato (num teatro), são enigmáticas. E Ryan, o narrador desta história,
inquieta-se com determinadas descobertas. E como na morte de César, na noite da
morte de Kilpatrick houve presságios.
Erik Lönnrot não conseguindo
impedir o último crime, previu-o na periódica série de “factos de sangue que
culminaram na quinta de Triste-le-Rey”, no meio do “interminável cheiro de
eucaliptos”.
“Jaromir Hladik foi preso ao
anoitecer. Levaram-no para um quartel asséptico e branco, na margem oposta do
Moldau. Não conseguiu rebater nem uma só das acusações da Gestapo: o seu sangue
era judeu”.
Mas o milagre secreto aconteceu.
Deus concedeu-lho: “ matá-lo-ia o chumbo alemão, na hora determinada, porém na
sua mente um ano decorreria entre a ordem e a execução da ordem”.
Por fim, as três versões de Judas
surgem antes da “Seita da Fenix” e termina com aquele que o próprio Borges
considera o seu melhor conto: O Sul.
Armando Palavras
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