Que
alguns (repetimos: alguns!) portugueses viveram para além das suas
possibilidades, não é segredo para ninguém (de certa forma porque foram
enganados). Como o não é em relação ao próprio Estado. Mas a Europa também não
está imune das responsabilidades que teve em contribuir para a destruição do
nosso aparelho reprodutivo: Impondo a destruição da agricultura, da nossa
“frota” pesqueira, a aposta na politica de Serviços, … e por aí fora.
E
Maastricht? Não foi a Europa que iludiu os portugueses prometendo-lhes um nível
de vida idêntico ao dos países mais ricos?
Isto,
porém, que todos sabemos, não diminui a culpa das governações de um certo
cavalheiro. A bancarrota a que conduziu o país não se traduz apenas em termos
económicos e financeiros, mas ainda (e talvez sobretudo) em termos sociais.
O
País está, portanto, numa encruzilhada diabólica, devido ao compromisso
assumido com os credores. Seja quem for que esteja no governo, tem que cumprir,
sob pena de no mês seguinte ao incumprimento não haver vencimentos. E se neste
momento houvesse eleições antecipadas como os do costume advogam, a situação
piorava. E de que maneira!
Qualquer
individuo sério sabe muito bem que até aqui o governo não tinha alternativa.
Havia que adquirir credibilidade perante os credores, para que estes, não muito
satisfeitos, mas com alguma comiseração nos permitissem algum investimento
antes de tempo. E foi o que aconteceu. Depois da bancarrota era impensável que,
passados dois anos, se pudesse seguir o caminho do investimento, anunciado a
semana passada pelos ministros Gaspar e Álvaro.
A
própria Europa e os credores parecem dar sinais para um certo equilíbrio entre
investimento e austeridade. Mas só agora. Foi preciso este ajustamento forçado
para que as pessoas entendam que o endividamento para além de certos limites é
insustentável.
Mas
não julguem uns tantos que a austeridade vai parar; é para durar, embora com
algum equilíbrio. Mas este equilíbrio só se consegue com as finanças públicas em ordem. Isto não tem nada
que ver com neo-liberalismos, ou outros ismos
quaisquer. Tem a ver com números, com a matemática!
Numa
situação idêntica, o Doutor Salazar afirmou em 1928: “ Mas não tenhamos
ilusões; as reduções de serviços e despesas importam restrições na vida, sofrimentos,
portanto. Temos de sofrer em vencimentos diminuídos, em aumentos de impostos,
em carestia de vida. Sacrifícios, e grandes, temos nós já feito até hoje, e
infelizmente perdidos para nossa salvação; façamo-los agora com finalidade
definida, integrados em plano de conjunto, e serão sacrifícios salutares”[1]. 
Alguém
dirá que era um fascista (ou “faxista”), por isso é que pensava assim. Pois bem,
o que nos diz Paul Krugman (Prémio Nobel da Economia) que não é “faxista”,
dando o exemplo espanhol? Acerca de como a Espanha pode voltar a ser produtiva,
escreve: “Uma das formas de lá chegar é
convencer ou forçar[2] os trabalhadores
espanhóis a aceitarem salários mais baixos”
(KRUGMAN, 20012, p.181).
Roosevelt
(que também não era “faxista”) dizia que tal
como as famílias um estado se poderia endividar durante um curto período de
tempo (meia dúzia de anos). Mais do que isso significava o empobrecimento.
Mas
recuemos a tempos longínquos: “ O
Orçamento Nacional deve ser equilibrado. As Dividas Públicas devem ser reduzidas,
a arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada. Os pagamentos a
governos devem ser reduzidos, se a Nação não quiser ir à falência. As pessoas
devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver por conta pública”.
Quem
acham que disse isto? Marcus Tullius Cícero em Roma no ano de 55 A .C. ou seja, há
exactamente 2058 anos! Também não era “faxista”. Era republicano.
Já
agora, tomem nota: “ Só há um meio de
aumentar as rendas públicas de um reino: que sejam muitos os que produzem e
poucos os que gastam, que se trabalhe muito e que se gaste com moderação. Se
todo o povo trabalhar assim, os rendimentos serão sempre suficientes”. Disse-o Confúcio, o sábio chinês há cerca de 2500
anos!
À
economia deve estar ligada a justiça, pois como bem entenderam alguns
imperadores romanos e o próprio Confúcio, só
um Estado justo se pode tornar num Estado próspero. E a justiça no seu entender
não obrigava a tratar todos por igual, mas a dar a cada qual o que lhe é
devido. Ou seja, a cada um o que lhe pertence.
Armando Palavras




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