Pátroclo,
irmão[1] de
Aquiles, é morto por Heitor. Este morre às mãos de Aquiles; e o velho Príamo,
pai de Heitor, vai, submisso, junto de Aquiles resgatar o corpo do filho.
Na
Ilíada[2], essa
obra imortal, Íris exorta Príamo a resgatar o “divino Heitor”. Que fosse
sozinho.
Depois
de conduzido por Hermes, Príamo dirigiu-se ao local onde era costume Aquiles
sentar-se. Aí o encontrou, com os companheiros (os Mirmidones) a uma certa
distância. “O herói acabara a sua refeição e saciara a fome e a sede”, diz-nos
Homero. O “grande Príamo”, sem ser visto, entrou e, aproximando-se, “abraçou os
joelhos de Aquiles e beijou as suas terríveis mãos homicidas”, as mesmas que
haviam matado o seu filho Heitor.
Príamo,
de alma destroçada e coração despedaçado, produziu um lamento de assombro e, na
infinitude da memória, propõe-lhe um “resgate imenso” (para lhe acalmar a ira)
chorando abundantemente, “prosternardo aos pés de Aquiles”.
O
herói afastou o velho “docemente”, chorando seu pai.
O
diálogo entre os dois é sublime, ataca as entranhas da alma humana, corrói
silêncios, sobe montanhas, navega por rios profundos, espalhando-se como areias
da praia nas dunas dos desertos, sob o olhar silencioso das estrelas que os
cobrem nas noites densas e profundas do incomensurável Universo.
É
disto que o romance do escritor australiano, David Malouf, trata.
Não
é por acaso que a Ilíada, esse maravilhoso poema épico, é, talvez, a obra
fundamental da civilização europeia. E Homero o grande trovador da mesma!
Armando Palavras
Nasceu
em 1934, filho de pai libanês cristão e de mãe judia, descendente de sefarditas
portugueses. Vive na Austrália.
Vencedor
de inúmeros prémios literários: o Commonwealth Writers Prize, o Booker Prize, o
International IMPAC Dublin LiteraryAward, o Prix Femina Étranger e o Los
Angeles Times Book Award.
É
um do nomes apontados ao prémio Nobel.
É
autor de poesia, contos, peças de teatro, romances, librettos e um livro
autobiográfico, entre os quais Recordando
a Babilónia, Uma Vida Imaginária e
Conversations at Curlow Creek.
[1] Ou primo. Ao tempo não se diferenciavam.
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