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| Jorge Luis Borges |
Um Papa que veio do Fim do
Mundo, como ele próprio se definiu. Que lê Jorge Luis Borges e Dostoievski.
Veio das terras dos gaúchos, das milongas de Borges, das pampas argentinas, de Buenos Aires (a cidade do tango),
para uma Europa para lá do Atlântico. Modesto, reservado e austero, ocupa hoje
a cadeira de São Pedro.
Armando Palavras
Um Papa modesto, conservador e preocupado com os mais pobres.
São estes alguns dos traços do 266.º Papa, o primeiro latino-americano e
jesuíta. Aos 76 anos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio é uma surpresa e uma
escolha improvável para os que previam que, depois do pontificado curto de
Bento XVI, que renunciou devido à idade, o novo Sumo Pontífice seria escolhido
entre os mais jovens.
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| Dostoiévski |
No entanto, sabe-se hoje, o arcebispo de Buenos Aires foi o
principal adversário de Joseph Ratzinger na eleição de 2005, tendo chegado a
reunir 40 votos dos cardeais eleitores, recorda John Allen no perfil que traçou
de Bergoglio para o National Catholic Reporter. Oito anos depois, terá sido o
candidato de consenso depois de afastados outros nomes dados como favoritos.
Filho de pai italiano, um ferroviário, oriundo da região de
Turim, e de mãe dona de casa, tem quatro irmãos. Bergoglio estudou Teologia na
Alemanha e desempenhou vários cargos administrativos na Cúria, o que lhe
permite criar pontes entre os dois continentes com mais influência na Igreja
Católica.
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| Biblioteca Nacional da Argentina |
Bergoglio estudou engenharia química. Mais tarde, quando perdeu
um pulmão devido a uma doença respiratória, resolveu seguir o sacerdócio. E
agora é o primeiro Papa não europeu desde o ano 752.
Ascensão em plena ditadura

Nascido em Buenos Aires, em 1936, só seguiu o sacerdócio aos 32
anos. Após a ordenação dedicou os anos seguintes a ensinar Literatura,
Psicologia e Filosofia, antes de assumir, na década de 1970, o cargo de
provincial da Companhia de Jesus na Argentina. O país vivia então sob ditadura
e, enquanto muitos jesuítas se aproximavam da Teologia da Libertação e viam no
movimento progressista uma forma de oposição aos generais, Bergoglio insistiu
para que se mantivessem fiéis aos princípios espirituais da companhia e se
dedicassem ao trabalho pastoral, escreve Allen.
A ascensão religiosa de Jorge Mario Bergoglio coincidiu com um
dos períodos mais obscuros da Argentina: a ditadura militar(1976-1983). Foi
acusado de não proteger dois jesuítas que foram sequestrados clandestinamente
pelo governo militar por fazerem trabalho social em bairros de extrema pobreza.
Ambos os padres sobreviveram a uma prisão de cinco meses.
O caso é relatado no livro "Silêncio", do jornalista
Horacio Verbitsky, também presidente da entidade privada defensora dos direitos
humanos CELS. A publicação leva em conta muitas declarações de Orlando Yorio,
um dos jesuítas sequestrados, antes de morrer em 2000.
"A história condena-o: mostra-o como alguém contrário a
todas as experiências inovadoras da Igreja e, sobretudo, na época da ditadura, mostra-o
muito próximo do poder militar", disse há algum tempo o sociólogo
Fortunato Mallimacci, ex-decano da Faculdade de Ciências Sociais da
Universidade de Buenos Aires.
Os defensores de Bergoglio dizem que não há provas contra ele e
que, pelo contrário, o novo Papa ajudou muitos a escapar às Forças Armadas
durante os anos de repressão no seu país, tendo mesmo usado um encontro com o
general Videla para interceder em defesa das vítimas da ditadura.
Primeiro jesuíta a comandar Igreja Católica
Como bispo auxiliar (desde 1992) e depois como arcebispo de
Buenos Aires (desde 1998), o cardeal manteve sempre uma posição conservadora em
termos teológicos, sendo considerado próximo do movimento Comunhão e
Libertação, grupo católico com grande influência junto da política italiana.
Será também o primeiro jesuíta a assumir o trono de São Pedro.
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| Gaúchos nas Pampas |
No Vaticano, longe de possíveis polémicas dos tempos de
ditadura, é esperado que o cardeal sul-americano, silencioso e tímido, conduza
a Igreja Católica com firmeza e com uma clara preocupação social.
"Ele é capaz de fazer a necessária renovação sem saltos
para o desconhecido. Será uma força de equilíbrio", disse à Reuters
Francesca Ambrogetti, co-autora da biografia de Bergoglio, após uma série de
entrevistas durante três anos.
"Ele partilha da visão de que a Igreja Católica deve ter um
papel missionário, que sai ao encontro das pessoas, que é activa... Uma Igreja
que não se preocupa tanto em regular a fé, mas sim em promovê-la e facilitá-la",
acrescenta Ambrogetti.
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| Buenos Aires |
Um ortodoxo contra aborto e casamento gay
O novo Papa é também destacado pela preocupação com os mais
pobres. O Guardian escreveu que, em 2001, quando João Paulo II o nomeou
cardeal, Bergoglio pediu aos fiéis que, ao invés de se deslocarem a Roma,
distribuíssem o dinheiro da viagem entre os mais pobres. Durante a crise
económica que atingiu a Argentina, surgiu como uma voz da consciência nacional
e, por várias vezes, tem alertado para as consequências da globalização
desregrada para os que já sobrevivem com muito pouco.
É também destas críticas que resultou a sua má relação com o
casal Kirchner. O ex-Presidente Nestor Kirchner chegou mesmo a considerar o
então arcebispo como "o verdadeiro representante da oposição".
Com Cristina Kirchner, que sucedeu ao marido na Presidência da
Argentina, a relação também não tem sido fácil, tendo atingido um pico de
conflitualidade quando foi aprovado o casamento gay no país. Apesar destas
diferenças, a actual Presidente já disse que vai estar em Roma, na terça-feira,
na cerimónia de inauguração do pontificado do Papa Francisco.
Ao longo dos anos, Jorge Mario Bergoglio deu prova da sua
ortodoxia, manifestando também a sua oposição incondicional ao aborto e à
contracepção ou à adopção por casais homossexuais. Em 2010, escreve o Guardian,
quando a Argentina se tornou o primeiro país latino-americano a legalizar o
casamento gay, o cardeal afirmou que a alteração legislativa representava uma
forma de discriminação de crianças que, disse, deveriam ter o direito a ser
educadas por um pai e uma mãe. Ainda assim, admite o recurso ao preservativo
para impedir doenças infecciosas – ficou famosa a sua visita, durante as
cerimónias pascais de 2001, a um hospital para lavar e beijar os pés de 12
doentes com sida.
É conhecido também pela timidez e modéstia – Allen recorda que
recusou viver no palácio apostólico, que trocou por um apartamento na capital
argentina, dispensou a limusina (prefere viajar de autocarro e metro).
"O seu estilo de vida é sóbrio e austero. É a forma como
vive. Viaja de metro, de autocarro e quando vai a Roma voa em classe económica",
conta Francesca Ambrogetti.
"Sempre foi uma pessoa simpática e acessível", contou
à Reuters Roberto Crubellier, empregado de uma igreja na Baixa de Buenos Aires,
onde Bergoglio costumava ir.
O homem simples que cozinha as suas próprias refeições gosta de
tango e literatura, principalmente os autores clássicos.
E é também um apaixonado por futebol. É adepto do San Lorenzo de
Almagro, de que é inclusivamente sócio. Gosta de ir ver os jogos da sua equipa,
algo que agora terá mais dificuldades em fazer.






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