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| Igreja de Tabuaço - Alto Douro |
Os dois episódios
evangélicos que relatam a Páscoa são os que se referem ao Domingo de Ramos e à Última
Ceia
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| Dürer |
Domingo de Ramos
A iconografia do Domingo
de Ramos remonta ao Século IV. No entanto, a sua difusão generalizada
acontece a partir do Século VI. Este episódio desenrola-se durante a ida de
Jesus a Jerusalém, como era costume entre os judeus, uma vez por ano, para
comemorar a festa da Páscoa. O episódio é relatado pelos quatro evangelistas
(Math. XXI, 1-11; Marc. XI, 1-10; Luc. XIX, 29-40; Joh. XII, 12-19).
Nas representações deste
episódio, um detalhe salta à vista: a representação do jumento. É Jesus que
informa os discípulos que o vai utilizar para fazer a sua entrada, humilde mas
triunfal em Jerusalém, designando dois dos discípulos (os evangelistas não os
nomeiam) para o irem buscar ao Monte das Oliveiras, transmitindo-lhes ainda o
que deverão dizer ao seu proprietário. Apenas João se afasta desta descrição.
Jesus não mandou os discípulos buscar o jumento. Encontrou-o e montou-o de
seguida.
Às portas da cidade, depois dos
discípulos terem colocado as suas vestes no dorso do animal para ser montado
por Jesus, uma vaga de entusiasmo transborda da multidão, contribuindo, desta
feita, para a sua entrada triunfal, acompanhado de cantos e hinos litúrgicos,
estendendo as suas vestes para o Mestre passar.
Os três sinópticos não divergem
na descrição. Também a literatura apócrifa acompanhou esta entrada triunfal. O
Evangelho de Nicodemo (1-2) relata que os meninos
dos judeus seguravam ramos e estendiam as suas vestes sobre o caminho[1].
Iconograficamente o episódio foi
representado com variantes, tanto na arte do Oriente como na do Ocidente.
Muitas vezes o jumento foi representado com pelo branco, cor simbólica do
triunfo[2]. E
junto a ele segue outro jumentinho, referido por Mateus. Os apóstolos
normalmente seguem atrás do jumento e a pé[3]. A
forma como Jesus ia montado foi, também, representada segundo duas variantes: a
síria e a grega. Na arte oriental é representado como se estivesse sentado no
trono. Com ambas as pernas no mesmo lado do dorso do animal. Na arte ocidental
vai sentado com as pernas em ambos os lados do dorso, quase tocando o chão com
os pés, para demonstrar que era um jumento pequeno[4].
A maioria das composições
pictóricas representa as palmas fundamentadas no relato de João e os meninos
influenciados pelo apócrifo de Nicodemo.
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A Última ceia
A ceia é um dos momentos mais
importantes da narrativa evangélica. É ela que institui um dos principais
sacramentos da liturgia cristã: a Eucaristia[5].
Iconograficamente, esta ceia
realizada em Jerusalém, a última com os doze apóstolos antes da traição de
Judas, é bem diferente das outras descritas nos relatos evangélicos.
Como era costume entre os judeus,
Jesus e os seus discípulos dirigiram-se a Jerusalém para celebrarem a Páscoa[6].
Nos relatos evangélicos (Math.
XXVI, 20-29; Marc. XIV, 10-25; Luc. XXII, 14-23; Joh. XIII, 21-38) estão bem
patentes três grandes questões: o anúncio da traição[7]; a
instituição mística da Eucaristia, repetida no rito da missa católica e o adeus
aos apóstolos, descrito por João (Joh. XIII, 31-38); aos onze que restam depois
de Judas sair para cumprir a sua traição. O número de comensais não é preciso,
depreendendo-se que apenas tenha sido realizada por Cristo e pelos doze
apóstolos.
O episódio, segundo Louis Réau,
deu origem a dois temas iconográficos distintos que classificou de “Ceia
histórica ou narrativa” e “Ceia simbólica”, conforme os artistas privilegiaram
a narração da traição de Judas, ou a instituição do sacramento da comunhão
eucarística[8].
A arte bizantina ao representar a
comunhão dos apóstolos reteve como aspectos fundamentais o simbólico e o
litúrgico. A arte ocidental, pelo menos até à Contra-reforma, privilegiou o
aspecto histórico do relato.
O número de apóstolos, a
disposição dos comensais, o lugar ocupado por Judas, ou por Jesus, os atributos
de Judas para o assinalarem com as piores qualidades humanas, variaram com o
tempo.
Uma característica, porém,
manteve-se. Além de Judas, o outro apóstolo destacado foi sempre João,
normalmente representado junto ao peito do Mestre. Atitude apenas mencionada no
Evangelho de João (XIII, 23) e imposta pela tradição, também confirmada na
literatura apócrifa[9].
Um belo poema de A. Passos Coelho, escritor transmontano, sobre esta quadra
PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO
Pilatos condenou à morte,
Pela Sua Palavra, Jesus,
Que não merecia tal sorte,
Sendo Ele pregado na cruz.
Ao ser o povo auscultado,
Pilatos, Barrabás libertou,
E Jesus foi crucificado,
E depois as suas mãos lavou.
Foi do povo a democracia,
Dando Caifás o assentimento,
Mostrando a sua heresia,
Denotando seu mau sentimento.
Democracia consciente,
Tem de ser o eleitorado,
Mostrando tão bem o que sente,
Sem se sentir centralizado.
Sem o demo, a liberdade,
Com bem livre pensamento,
Com uma bem sã mocidade,
Dentro de um bom casamento.
Jesus Cristo é o Salvador,
Ressuscitou da Sua morte,
Merece bem o nosso amor,
E do povo um melhor porte.
Sílvio Teixeira
VILA REAL - PORTUGAL
[1]
Louis Réau (Idem, p.412) informa que
este Evangelho apócrifo descreve o caminho cheio de palmas e o episódio do anão
Zaqueu que, prejudicado pela sua estatura havia subido a uma árvore (uma
palmeira) para melhor apreciar o acontecimento. Na verdade, o apócrifo referido
não lhes faz referência. A única referência aos ramos de palmeira é feita por
João e o episódio de Zaqueu é descrito em Lucas. O evangelista, porém, coloca-o em Jericó
(XIX, 1-10). E a árvore a que Zaqueu teria subido era, como refere Lucas, um sicómoro, uma espécie de figueira.
Árvore que alguns autores designam de
amargoseira e figueira-do-faraó.
O que terá levado Réau a
fazer esta afirmação é o facto deste apócrifo estar escrito em várias versões
(copta, arménia, síriaca, georgiana e eslava) que diferem entre si em detalhes. Assim
como a versão latina, todas tiveram como base a fonte original em grego. Ora é a versão
latina que, por vezes, suscita certas dúvidas em determinados detalhes. No
Ocidente, o Evangelho de Nicodemo (Gesta
Pilati ou Memórias de Nicodemos),
não se limitou a ser mais um dos tantos apócrifos que circulavam. Foi um texto
de grande difusão e de grande influência em toda a antiguidade. Só que a sua
versão feita do grego originou duas formas textuais: a “A” e a “B”. Ora ao que
parece, a recensão grega “A” é a que se aproxima mais da fonte original. A “B”
amplia ou diminui os episódios da “A”, versão por nós seguida. A este propósito
cf. MORALDI, Luigi, op.cit.,
pp.279-336.
[2] Os
asnos evangélicos foram muito populares no sul da Alemanha. Em regiões como
Alsácia e Suiça. Contudo, a Reforma, fundamentada nos preceitos de Trento,
passou a eliminá-los das representações. Para além da nobreza que se pretendia
transmitir aos temas, os asnos eram considerados símbolos de idolatria.
[3] O
facto de Jesus ir montado no jumento, permite distinguir os dois episódios: o
de Jerusalém e o de Jericó. Porque Lucas refere que Jesus, em Jericó, entrou a
pé.
[4] Réau, Louis, op.cit., Tomo 1, vol. 2, p. 414-415.
[5] O
momento em que Jesus ,
simbolicamente através do pão e do vinho, oferece o seu corpo e o seu sangue
aos apóstolos (Math. XXVI, 26-29; Marc. XIV, 22-25; Luc. XXII, 19-20). João, o
mais simbólico dos evangelistas, é omisso quanto à Santa Ceia Sacramental. Nesta ceia sacramental se inspirou a segunda
iconografia da Santa Ceia
(capela-mor), concebida simbolicamente como a Comunhão dos Apóstolos, ou por outras palavras, a Instituição do
Sacramento da Eucaristia e do Sacrifício da Missa. É assim, o símbolo do
Sacramento da Comunhão.
[6]Em
rigor, havia duas festas distintas: a Páscoa, que só durava um dia, e a Festa
dos Pães Ázimos, que durava os sete dias seguintes.
[7]O
relato de João, em certos detalhes, não coincide com os relatos sinópticos.
Para Mateus, o traidor é o que mete a mão no prato. De acordo com Lucas é o que
tem a mão sobre a mesa
[8] RÉAU, Louis, op.cit., Tomo 1, vol. 2, p. 409.
[9] No
Livro do Descanso (42-45), Maria já
próxima da morte, dirigindo-se a João o primeiro apóstolo a chegar, lembrou-lhe
que Jesus o amara mais do que aos outros. Mais recentemente James D. Tabor, em A
Dinastia de Jesus
(A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006, p. 301), refere outras tradições sobre
Tiago, o Justo, conhecido na comunidade primitiva cristã como o irmão do
Senhor, sustentadas pelo Evangelho de
Tomé e pelo Evangelho dos Hebreus.
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