terça-feira, 26 de março de 2013

A Páscoa

Igreja de Tabuaço - Alto Douro
 
Os dois episódios evangélicos que relatam a Páscoa são os que se referem ao Domingo de Ramos e à Última Ceia


Dürer
Domingo de Ramos

A iconografia do Domingo de Ramos remonta ao Século IV. No entanto, a sua difusão generalizada acontece a partir do Século VI. Este episódio desenrola-se durante a ida de Jesus a Jerusalém, como era costume entre os judeus, uma vez por ano, para comemorar a festa da Páscoa. O episódio é relatado pelos quatro evangelistas (Math. XXI, 1-11; Marc. XI, 1-10; Luc. XIX, 29-40; Joh. XII, 12-19).
Nas representações deste episódio, um detalhe salta à vista: a representação do jumento. É Jesus que informa os discípulos que o vai utilizar para fazer a sua entrada, humilde mas triunfal em Jerusalém, designando dois dos discípulos (os evangelistas não os nomeiam) para o irem buscar ao Monte das Oliveiras, transmitindo-lhes ainda o que deverão dizer ao seu proprietário. Apenas João se afasta desta descrição. Jesus não mandou os discípulos buscar o jumento. Encontrou-o e montou-o de seguida.
Às portas da cidade, depois dos discípulos terem colocado as suas vestes no dorso do animal para ser montado por Jesus, uma vaga de entusiasmo transborda da multidão, contribuindo, desta feita, para a sua entrada triunfal, acompanhado de cantos e hinos litúrgicos, estendendo as suas vestes para o Mestre passar.
Os três sinópticos não divergem na descrição. Também a literatura apócrifa acompanhou esta entrada triunfal. O Evangelho de Nicodemo (1-2) relata que os meninos dos judeus seguravam ramos e estendiam as suas vestes sobre o caminho[1].
Iconograficamente o episódio foi representado com variantes, tanto na arte do Oriente como na do Ocidente. Muitas vezes o jumento foi representado com pelo branco, cor simbólica do triunfo[2]. E junto a ele segue outro jumentinho, referido por Mateus. Os apóstolos normalmente seguem atrás do jumento e a pé[3]. A forma como Jesus ia montado foi, também, representada segundo duas variantes: a síria e a grega. Na arte oriental é representado como se estivesse sentado no trono. Com ambas as pernas no mesmo lado do dorso do animal. Na arte ocidental vai sentado com as pernas em ambos os lados do dorso, quase tocando o chão com os pés, para demonstrar que era um jumento pequeno[4].
A maioria das composições pictóricas representa as palmas fundamentadas no relato de João e os meninos influenciados pelo apócrifo de Nicodemo.
Leonardo

Igreja de Mesão Frio - Douro
A Última ceia

A ceia é um dos momentos mais importantes da narrativa evangélica. É ela que institui um dos principais sacramentos da liturgia cristã: a Eucaristia[5].
Iconograficamente, esta ceia realizada em Jerusalém, a última com os doze apóstolos antes da traição de Judas, é bem diferente das outras descritas nos relatos evangélicos.
Como era costume entre os judeus, Jesus e os seus discípulos dirigiram-se a Jerusalém para celebrarem a Páscoa[6].
Nos relatos evangélicos (Math. XXVI, 20-29; Marc. XIV, 10-25; Luc. XXII, 14-23; Joh. XIII, 21-38) estão bem patentes três grandes questões: o anúncio da traição[7]; a instituição mística da Eucaristia, repetida no rito da missa católica e o adeus aos apóstolos, descrito por João (Joh. XIII, 31-38); aos onze que restam depois de Judas sair para cumprir a sua traição. O número de comensais não é preciso, depreendendo-se que apenas tenha sido realizada por Cristo e pelos doze apóstolos.
O episódio, segundo Louis Réau, deu origem a dois temas iconográficos distintos que classificou de “Ceia histórica ou narrativa” e “Ceia simbólica”, conforme os artistas privilegiaram a narração da traição de Judas, ou a instituição do sacramento da comunhão eucarística[8].
A arte bizantina ao representar a comunhão dos apóstolos reteve como aspectos fundamentais o simbólico e o litúrgico. A arte ocidental, pelo menos até à Contra-reforma, privilegiou o aspecto histórico do relato.
O número de apóstolos, a disposição dos comensais, o lugar ocupado por Judas, ou por Jesus, os atributos de Judas para o assinalarem com as piores qualidades humanas, variaram com o tempo.
Uma característica, porém, manteve-se. Além de Judas, o outro apóstolo destacado foi sempre João, normalmente representado junto ao peito do Mestre. Atitude apenas mencionada no Evangelho de João (XIII, 23) e imposta pela tradição, também confirmada na literatura apócrifa[9].
Um belo poema de A. Passos Coelho, escritor transmontano,  sobre esta quadra


Poema de Silvio Teixeira sobre a Páscoa




PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO

Pilatos condenou à morte,
Pela Sua Palavra, Jesus,
Que não merecia tal sorte,
Sendo Ele pregado na cruz.



Ao ser o povo auscultado,
Pilatos, Barrabás libertou,
E Jesus foi crucificado,
E depois as suas mãos lavou.

Foi do povo a democracia,
Dando Caifás o assentimento,
Mostrando a sua heresia,
Denotando seu mau sentimento.

Democracia consciente,
Tem de ser o eleitorado,
Mostrando tão bem o que sente,
Sem se sentir centralizado.

Sem o demo, a liberdade,
Com bem livre pensamento,
Com uma bem sã mocidade,
Dentro de um bom casamento.

Jesus Cristo é o Salvador,
Ressuscitou da Sua morte,
Merece bem o nosso amor,
E do povo um melhor porte.

Sílvio Teixeira
VILA REAL - PORTUGAL




[1] Louis Réau (Idem, p.412) informa que este Evangelho apócrifo descreve o caminho cheio de palmas e o episódio do anão Zaqueu que, prejudicado pela sua estatura havia subido a uma árvore (uma palmeira) para melhor apreciar o acontecimento. Na verdade, o apócrifo referido não lhes faz referência. A única referência aos ramos de palmeira é feita por João e o episódio de Zaqueu é descrito em Lucas. O evangelista, porém, coloca-o em Jericó (XIX, 1-10). E a árvore a que Zaqueu teria subido era, como refere Lucas, um sicómoro, uma espécie de figueira. Árvore que alguns autores designam de amargoseira e figueira-do-faraó.
O que terá levado Réau a fazer esta afirmação é o facto deste apócrifo estar escrito em várias versões (copta, arménia, síriaca, georgiana e eslava) que diferem entre si em detalhes. Assim como a versão latina, todas tiveram como base a fonte original em grego. Ora é a versão latina que, por vezes, suscita certas dúvidas em determinados detalhes. No Ocidente, o Evangelho de Nicodemo (Gesta Pilati ou Memórias de Nicodemos), não se limitou a ser mais um dos tantos apócrifos que circulavam. Foi um texto de grande difusão e de grande influência em toda a antiguidade. Só que a sua versão feita do grego originou duas formas textuais: a “A” e a “B”. Ora ao que parece, a recensão grega “A” é a que se aproxima mais da fonte original. A “B” amplia ou diminui os episódios da “A”, versão por nós seguida. A este propósito cf. MORALDI, Luigi, op.cit., pp.279-336.
[2] Os asnos evangélicos foram muito populares no sul da Alemanha. Em regiões como Alsácia e Suiça. Contudo, a Reforma, fundamentada nos preceitos de Trento, passou a eliminá-los das representações. Para além da nobreza que se pretendia transmitir aos temas, os asnos eram considerados símbolos de idolatria.
[3] O facto de Jesus ir montado no jumento, permite distinguir os dois episódios: o de Jerusalém e o de Jericó. Porque Lucas refere que Jesus, em Jericó, entrou a pé.
[4] Réau, Louis, op.cit., Tomo 1, vol. 2, p. 414-415.
[5] O momento em que Jesus, simbolicamente através do pão e do vinho, oferece o seu corpo e o seu sangue aos apóstolos (Math. XXVI, 26-29; Marc. XIV, 22-25; Luc. XXII, 19-20). João, o mais simbólico dos evangelistas, é omisso quanto à Santa Ceia Sacramental. Nesta ceia sacramental se inspirou a segunda iconografia da Santa Ceia (capela-mor), concebida simbolicamente como a Comunhão dos Apóstolos, ou por outras palavras, a Instituição do Sacramento da Eucaristia e do Sacrifício da Missa. É assim, o símbolo do Sacramento da Comunhão.
[6]Em rigor, havia duas festas distintas: a Páscoa, que só durava um dia, e a Festa dos Pães Ázimos, que durava os sete dias seguintes.
[7]O relato de João, em certos detalhes, não coincide com os relatos sinópticos. Para Mateus, o traidor é o que mete a mão no prato. De acordo com Lucas é o que tem a mão sobre a mesa
[8] RÉAU, Louis, op.cit., Tomo 1, vol. 2, p. 409.
[9] No Livro do Descanso (42-45), Maria já próxima da morte, dirigindo-se a João o primeiro apóstolo a chegar, lembrou-lhe que Jesus o amara mais do que aos outros. Mais recentemente James D. Tabor, em A Dinastia de Jesus (A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006, p. 301), refere outras tradições sobre Tiago, o Justo, conhecido na comunidade primitiva cristã como o irmão do Senhor, sustentadas pelo Evangelho de Tomé e pelo Evangelho dos Hebreus.

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