sexta-feira, 11 de novembro de 2011

São Martinho de Tours no Culto dos Santos[1]



Cortejo de Santas Virgens (séc. VI), Santo Apolinário Novo - Ravena
 
O culto dos santos nasceu junto dos túmulos dos mártires. No dia do aniversário daqueles que haviam dado testemunho de Jesus Cristo ressuscitado. Era aí que os fiéis se reuniam para celebrar o sacrifício eucarístico e invocar a protecção do mártir. O culto dos santos teve assim, inicio na antiguidade cristã. Em Roma depressa foi adoptado o modelo que existia, ao nível da sociedade civil, das relações entre os fiéis e os mártires. Uma relação de clientes e patrono [patronus][2].
Com efeito, este costume ou prática, refuta um tanto a ideia propagada pelos reformadores protestantes e pelos historiadores das religiões. De facto, os santos do Cristianismo não são os sucessores de divindades do paganismo remoto[3]. Sendo, porém, verdade que na religião cristã, dogmaticamente monoteísta, aos poucos se introduziu uma certa dose de politeísmo[4]. Bem evidente, por exemplo, na Igreja Lusitana[5].
Os túmulos dos mártires, enquanto locais de reunião, passaram, mais tarde, a ser substituídos pelos túmulos dos ascetas e dos bispos. É disso exemplo a veneração prestada a Félix, um padre-santo de Nole, morto em 250. O mesmo sucedendo com o túmulo de São Martinho de Tours (316-397). Ambos bastante venerados, cujo culto foi muito difundido.
O testemunho do primeiro mártir cristão, Santo Estêvão, ficou relatado em Actos dos Apóstolos (VI, 1-15; VII, 1-60). Uma das primeiras narrativas hagiográficas, a Epistola que a Igreja de Esmirna enviou às outras Igrejas em 156 para dar a conhecer a paixão do seu bispo Policarpo, aquele que havia conhecido na juventude o apóstolo João, constitui uma primeira forma de canonização, por ter dado origem ao culto imediato desse santo. O mesmo sucederia com a Epistola enviada pelos cristãos de Lião e Viena em 177 aos seus irmãos da Ásia para os informar do martírio de Potínio, o velho bispo de Lião, da jovem Blandina e seus companheiros[6].

Cortejo de Santos Mártires (séc. VI), Santo Apolinário Novo - Ravena

Com estas epistolas, as igrejas locais conservavam assim, a memória dos seus arautos da fé, tornando-se habitual, deste modo, estabelecer uma lista local desses arautos, frequentemente comunicada às restantes igrejas. São estas listas que estão na base de um certo tipo de compilações, normalmente acompanhadas de dipticos episcopais, às quais, a partir de Beda, o venerável (673-735), se dá o nome de martiriológios[7].
Da mesma forma que estes martiriológios, copiados e completados abundantemente na época medieval, os calendários locais, escritos por norma imediatamente a seguir à morte dos mártires e dos santos, são os testemunhos de confiança mais evidente e mais conhecidos do culto dos santos. À imagem do que sucedeu com os menológios das igrejas do Oriente.
É pois a partir do século IV, no Oriente, que a propagação do culto dos santos cristãos se começa a difundir. A epopeia do deserto irá, em pouco tempo, legar obras das mais importantes que fundarão os grandes temas da hagiografia e da espiritualidade do deserto. A mais importante é a Vida de Santo Antão, do grego Atanásio, bispo de Alexandria (c.360). São Jerónimo, contesta por volta de 374-79, o primado de Antão, redigindo no deserto de Cálcis, na Síria, a Vida de Paulo de Tebas. Estes temas são recuperados, multiplicados e embelezados por João Cassiano nas Conversas com os Padres do Egipto, em princípios do século V. Estes episódios muito divulgados inauguraram, no Ocidente, o género literário que são as vidas de santos, como por exemplo a vita de Martini, escrita por Suplicio Severo em 397. Irão multiplicar-se espantosamente a partir de então e durante toda a Idade Média. E irão contribuir para a difusão do eremitismo ocidental e do numeroso séquito de santos medievais que, no início, se isolaram nas ilhas do norte. O itinerário de Columbano, o mais célebre monge irlandês é exemplar. Assim como a história e a lenda de Ronan, outro santo irlandês. Mais tarde este isolamento passa para a floresta. Surgem então hagiografias como a Vida de são Bernardo de Tiron, escrito por Geofroy (século XII)[8].
Em geral, os seus redactores eram anónimos e procuravam satisfazer a sede popular de maravilhoso, embelezando as vidas dos santos, transformando-as em lendas autênticas, chegando mesmo a forjar vidas imaginárias. É com a Lenda Dourada[9], segundo Hippolyte Delehaye, que entre 1261-1266 se “resume rigorosamente a obra hagiográfica da Idade Média”.


Sao Martinho - El Greco (1597-1599)

São Martinho de Tours

Foi o apóstolo das Gálias e bispo de Tours. A sua vida, à qual se acrescentaram factos legendários, foi escrita por Sulpicio Severo em Vita São Martini e por Gregório de Tours nos seus quatro volumes De Virtutibus São Martini. Todavia, seria através da Lenda Dourada que se difundiria por toda a Cristandade. Nasceu na Panonia (Hungria), ignorando-se a festa do seu nascimento. Para certos autores localiza-se a 317, para outros em 326. Fazia parte do exército romano quando, segundo a tradição, cortou parte da sua capa para cobrir um mendigo. Dando-lhe ainda uma moeda de prata. Segundo a lenda, Cristo ter-lhe-ia aparecido depois do episódio da manta e ele abandona o exército, fez-se baptizar e foi incorporado na igreja pelo bispo Hilário de Poitiers. Em 370 é eleito bispo de Tours e, a partir de então, a sua história confunde-se com a do seu episcopado. Viveu como um monge e fundou numerosas paróquias rurais, falecendo em 397 em Candes.

São Martinho - Bartolomeo Vivarini
(1491)



A dimensão do culto de São Martinho define-a o poeta Fortunat: “ em todos os sítios onde se conhece Cristo venera-se São Martinho”[10]. Esta popularidade fez do santo, patrono de várias corporações. E enriqueceu-lhe a iconografia. É muitas vezes representado como legionário romano, em pé ou montado num cavalo branco. Os episódios representados são numerosos[11]. O mais conhecido é o que se prende com a celebrada lenda da manta, que teve como pano de fundo a cidade de Amiens.
O Verão de São Martinho
Num dia de Inverno rigoroso, ao entrar pelo portal daquela urbe, montado a cavalo, deparou com um mendigo quase sem roupa. Vendo que ninguém ajudava o pobre homem, cortou a sua própria manta (ou capa) militar ao meio e ofereceu metade ao mendigo que assim se protegeu do frio. Logo de seguida, apareceu no horizonte um céu radioso, cheio de sol. Deixou de estar frio e as temperaturas subiram como se fosse Verão. Por isso se passou a chamar a esta época “Verão de São Martinho”.
Segundo a lenda, o mendigo era o próprio Cristo.

Armando Palavras


[1] Texto retirado de PALAVRAS, Armando,  Os tectos durienses: a iconografia religiosa setecentista nas pinturas dos templos da região demarcada (Tese de Doutoramento em História, Área científica: História da Arte - Universidade Lusíada de Lisboa, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais- 2011, Com orientação do Professor Doutor Luís Manuel Aguiar de Morais Teixeira e Professora Doutora Isabel Mendonça). Volumes de iconografia, não publicados neste blogue.
[2] No inicio da era republicana, o cliente, um homem livre mas pobre, colocava-se a serviço de um patrono poderoso, de quem recebia protecção em troca dos serviços prestados. Esta relação civil espiritualizou-se à medida que o Cristianismo se difundiu, tornando-se a relação-tipo entre o fiel e o mártir e, posteriormente, o bispo.
[3] HORVAT, Frank; PASTOUREAU, Michel, Figures Romanes, Éditions du Seuil, 2001 p. 143.  
[4]Cf. VAUCHEZ, André, A Espiritualidade da Idade Média Ocidental, Séculos VIII-XIII, Editorial Estampa, Lisboa, 1995, Pp. 28-29.
[5] Cf. GOMES, Pinharanda, Patrologia Lusitana, pp. 112-113. A propósito das fontes hagiográficas, sobretudo sobre a hagiografia hispânica, cf. HUFSTOT, Maria da Luz de G. Velloso da Costa, As Origens do Cristianismo na Lusitânia, Universidade Lusíada Editora, Lisboa, 2008, pp.25-33.
[6] No século III, as perseguições que se abateram sobre as comunidades cristãs vão originar uma nova onda de lenda hagiográfica. A tal propósito Cf. GOMES, Pinharanda, op. cit. p. 106.
[7] O primeiro martiriológio conhecido é siríaco e data de 411. Porém, o mais antigo em latim é o Martiriológio Hieronimita, indevidamente atribuído a São Jerónimo. Foi composto na Itália do norte, em meados do século V.
[8] GOFF, Jacques Le, O Imaginário Medieval, Editorial estampa, Lisboa, 1994, pp. 83-91.
[9] A propósito dos santos e da Lenda Dourada, cf. MÂLE, Emile, L’Art Religieux du XIII siécle en France, Armand Colin, Paris, 1986, pp. 265-309.
[10] RÉAU, Louis, op. cit. Tomo 2 / vol 4,p.350.
[11] A tal propósito, cf. RÉAU, Louis, op. cit. Tomo 2 / vol 4,pp. 354-367.

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