quarta-feira, 28 de outubro de 2026

“PÃO CENTEIO” de FERNANDO CALADO


LEONEL  DIAS

“Hoje, temos aldeias tão bonitas, as casas novas erguem-se ao lado das casas em ruínas. Temos boas estradas, ruas pavimentadas, saneamento, eletricidade, água canalizada, casas de banho, aquecimento, eletrodomésticos, centro cultural, casa do povo, sede da junta de freguesia, médico, equipamentos desportivos, lares de terceira idade… As festas animam-se com vários conjuntos. A reforma chega. Cada família tem um automóvel. Não há pobres. Os tratores acordam a aldeia. Potentes. Os campos estão cultivados. Os subsídios agrícolas compensam. Todos os jovens vão estudar. Ensino obrigatório. Temos tudo. Só não temos gente.” (Página 89)

No contacto que tenho mantido com diversos escritores do nordeste transmontano li, de Fernando Calado, por gentileza do lagoaceiro (El)Miro Barbeiro, a quem estou muito grato, as seguintes obras: “O pequeno mundo da nossa taberna”, “O canto do cisne”, “Quando as mães saíram à rua”, “E já não havia rosas”, “Há homens atrás dos montes” e “Pão Centeio”.

“Pão centeio”, Obra publicada em maio de 2017, aborda o mundo rural das aldeias do concelho de Bragança e o autor dedica-a a todas as crianças, mulheres e homens do nordeste transmontano que comeram esse pão. Sendo que pão centeio não é mais do que o pão cozido no forno de lenha, negro como a noite ou pão de trigo alvo como o dia, alimento essencial na vida das populações e que matou a fome a tanta gente, bastando-lhes uma côdea para se sentirem felizes.

A narrativa decorre, maioritariamente, na taberna onde os personagens principais, um capitão, um sargento e um engenheiro evocam tradições, dificuldades económicas, relações solidárias e a dureza da vida nas aldeias. Tempo, ainda, para serem referidos episódios relacionados com a guerra colonial, a Polícia do Estado Novo e a resistência ao regime, a pobreza extrema, a Páscoa, a Quaresma, o Carnaval, o Natal, a matança do porco, a emigração para fugir à guerra colonial e/ou à fome, entre outras.

Notável em “Pão Centeio”, não resistindo a referi-lo, o episódio da descrição do testamento do Capitão que, na ausência de bens materiais, deixa todo um enorme território nordestino, verdadeiro património digno de ser contemplado, apreciado, desfrutado e amado, pedindo aos nordestinos que não desistam desse enorme património com futuro e não deixem morrer as aldeias, apelando à resistência e à valorização da região. Que, ao longo da vida, saibam sorrir e sonhar porque se há sonhos que trazem desgraça, é apenas neles que nos podemos libertar e ganhar asas para ultrapassar o impossível.

Neste magnífico romance, Fernando Calado preserva a memória de uma comunidade e, mais uma vez, vem alertar para os riscos do desaparecimento das aldeias, das suas tradições e dos valores humanos que as sustentaram face ao despovoamento das mesmas, ao envelhecimento das populações, à diminuição dos nascimentos e a partida para a diáspora dos mais jovens. Para o escritor de Milhão, o pão, o forno de lenha, o trabalho agrícola e os costumes comunitários representam um património material e imaterial que importa transmitir às gerações futuras.

Em suma: “Pão Centeio”, que vivamente recomendo, é uma obra que ultrapassa a evocação de um passado rural. Fernando Calado utiliza a realidade transmontana para refletir sobre problemas contemporâneos, nomeadamente o despovoamento, o envelhecimento da população e a perda das tradições. A mensagem fundamental da obra reside, portanto, na necessidade de preservar a memória coletiva e valorizar o interior do país. Ao recordar o mundo rural e denunciar o seu abandono, o autor procura despertar a consciência do leitor para a importância de proteger as comunidades, os seus costumes e o património humano que representam e eu, confesso, estou, cada vez mais, agradado com a capacidade literária e comunicativa do Autor.

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