“Hoje,
temos aldeias tão bonitas, as casas novas erguem-se ao lado das casas em
ruínas. Temos boas estradas, ruas pavimentadas, saneamento, eletricidade, água
canalizada, casas de banho, aquecimento, eletrodomésticos, centro cultural,
casa do povo, sede da junta de freguesia, médico, equipamentos desportivos,
lares de terceira idade… As festas animam-se com vários conjuntos. A reforma
chega. Cada família tem um automóvel. Não há pobres. Os tratores acordam a
aldeia. Potentes. Os campos estão cultivados. Os subsídios agrícolas compensam.
Todos os jovens vão estudar. Ensino obrigatório. Temos tudo. Só não temos
gente.” (Página 89)
No
contacto que tenho mantido com diversos escritores do nordeste transmontano li,
de Fernando Calado, por gentileza do lagoaceiro (El)Miro Barbeiro, a quem estou
muito grato, as seguintes obras: “O pequeno mundo da nossa taberna”, “O canto
do cisne”, “Quando as mães saíram à rua”, “E já não havia rosas”, “Há homens
atrás dos montes” e “Pão Centeio”.
“Pão
centeio”, Obra publicada em maio de 2017, aborda o mundo rural das aldeias do
concelho de Bragança e o autor dedica-a a todas as crianças, mulheres e homens
do nordeste transmontano que comeram esse pão. Sendo que pão centeio não é mais
do que o pão cozido no forno de lenha, negro como a noite ou pão de trigo alvo
como o dia, alimento essencial na vida das populações e que matou a fome a
tanta gente, bastando-lhes uma côdea para se sentirem felizes.
A
narrativa decorre, maioritariamente, na taberna onde os personagens principais,
um capitão, um sargento e um engenheiro evocam tradições, dificuldades
económicas, relações solidárias e a dureza da vida nas aldeias. Tempo, ainda,
para serem referidos episódios relacionados com a guerra colonial, a Polícia do
Estado Novo e a resistência ao regime, a pobreza extrema, a Páscoa, a Quaresma,
o Carnaval, o Natal, a matança do porco, a emigração para fugir à guerra
colonial e/ou à fome, entre outras.
Notável
em “Pão Centeio”, não resistindo a referi-lo, o episódio da descrição do
testamento do Capitão que, na ausência de bens materiais, deixa todo um enorme
território nordestino, verdadeiro património digno de ser contemplado,
apreciado, desfrutado e amado, pedindo aos nordestinos que não desistam desse
enorme património com futuro e não deixem morrer as aldeias, apelando à
resistência e à valorização da região. Que, ao longo da vida, saibam sorrir e
sonhar porque se há sonhos que trazem desgraça, é apenas neles que nos podemos
libertar e ganhar asas para ultrapassar o impossível.
Neste
magnífico romance, Fernando Calado preserva a memória de uma comunidade e, mais
uma vez, vem alertar para os riscos do desaparecimento das aldeias, das suas
tradições e dos valores humanos que as sustentaram face ao despovoamento das
mesmas, ao envelhecimento das populações, à diminuição dos nascimentos e a
partida para a diáspora dos mais jovens. Para o escritor de Milhão, o pão, o
forno de lenha, o trabalho agrícola e os costumes comunitários representam um
património material e imaterial que importa transmitir às gerações futuras.
Em
suma: “Pão Centeio”, que vivamente recomendo, é uma obra que ultrapassa a
evocação de um passado rural. Fernando Calado utiliza a realidade transmontana
para refletir sobre problemas contemporâneos, nomeadamente o despovoamento, o
envelhecimento da população e a perda das tradições. A mensagem fundamental da
obra reside, portanto, na necessidade de preservar a memória coletiva e
valorizar o interior do país. Ao recordar o mundo rural e denunciar o seu
abandono, o autor procura despertar a consciência do leitor para a importância
de proteger as comunidades, os seus costumes e o património humano que
representam e eu, confesso, estou, cada vez mais, agradado com a capacidade
literária e comunicativa do Autor.


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