Em 8 de Março de 1934 nasceu, em Montalegre, Maria Eugénia Neto que aos
seis anos foi viver para Lisboa, onde estudou e se fez «mulher de armas».
Estávamos em pleno Estado Novo e aí conheceu o futuro Presidente da República
Popular de Angola, Agostinho Neto, que também ali se formou em medicina, e
especialmente em política. Os tempos eram outros e as duas guerras mundiais
permitiam adivinhar que o século XX teria de contar com o pior em busca do
melhor.
Entre 1914/1918 e entre 1939/1945, as guerras tinham alastrado a toda a
Europa, com reflexos em todos os continentes. O mundo inteiro foi abalado e,
ainda hoje, todos os viventes, temos razões para advertir os seis continentes a
entender-se pacificamente no planeta Terra.
Relativamente ao gradual processo de descolonização e às guerras mundiais
que o antecederam e aceleraram, agravado com migrações e despovoamentos, tanto
em meios humanos como materiais, Portugal, como todos os países, foi dos mais
martirizados, a todos os níveis. A descolonização portuguesa foi das vítimas
maiores, não só pela participação ativa na primeira grande guerra, onde perdeu
largos milhares de homens impreparados, mas também o insignificante material
bélico. Vinte anos depois, nem homens nem material. E na perda da Índia, logo
seguida de todos os bens e pessoas para a Portugalidade irreparável.
Nesses primeiros anos do século XX ocorreram, apesar de tudo, coisas
curiosas. Dois casos bastam para consolo moral, e ocorreram em Trás-os-Montes:
Agostinho Neto e Amílcar Cabral, respetivamente nascidos em Angola e em
Cabo Verde/Guiné Bissau. Um e outro lideraram os respectivos processos
revolucionários africanos. Ambos vieram estudar na então metrópole e aqui
casaram com mulheres transmontanas, respectivamente: Maria Eugénia Silva,
natural de Montalegre; e Maria Helena Ataíde Vilhena Rodrigues, de Casa Novas,
Chaves; com quem tiveram filhos.
A flaviense faleceu em Chaves e está sepultada em Braga, onde ainda vive
a sua filha Luísa. Eugénia Silva Neto vive em Lisboa
mas ainda é a “primeira dama de Angola”.
Embora ambos os líderes africanos tenham estado em
Trás-os-Montes, os quatro conheceram-se em Lisboa e tiveram idêntico papel no
destino, na formação e nos processos revolucionários, tanto em Angola como na
Guiné. Quer Agostinho Neto, quer Amílcar Cabral, foram cúmplices políticos, com
as esposas: Eugénia Neto e Maria Helena.
Das ideologias que conseguiram assimilar, nesse meio
século do Estado Novo, é exemplo a Índia, na parte que foi nossa, e que gerou a
perda irreparável dos territórios de administração Portuguesa.
No meio
século que já passou desde o 25 de Abril de 1974, quase se esqueceram as
injustiças, os atropelos contra os lesados e os ajustes de contas, com tantas e
tantos ingratos, traidores, oportunistas e amigos do alheio.
Em 1940 a jovem barrosã
saiu de Montalegre para Lisboa, onde se formou, casou e teve três filhos do
médico angolano Agostinho Neto. Deu a volta ao horizonte dos seus caminhos,
quer como primeira dama de Angola, quer como vítima das convicções políticas do
líder angolano que teve um fim misterioso numa mesa de operações em Moscovo, em
10 de setembro de 1979, aos 56 anos de vida obscura. Ficou na História de
Angola como primeiro Presidente. E a mulher que escolheu para mãe dos seus três
filhos sempre o seguiu, fosse onde fosse. Quando, em 2019, o saudoso António
Chaves e eu próprio, concretizámos o sonho de convidar esta distinta Barrosã, a
visitar a terra onde nasceu e viveu durante 6 anos, a imprensa local e nacional
noticiaram essa visita de três dias históricos. A filha mais velha, Irene
Alexandra, foi ministra angolana e acompanhou a mãe nesses três dias em que
visitaram o concelho de Montalegre. A autarquia recebeu-as no salão nobre e os
Bombeiros Voluntários solenizaram o ato.
Houve discursos e promessas de «geminação» entre as terras
de nascimento de Agostinho Neto (em Angola) e de Maria Eugénia (em Montalegre).
Já passaram sete anos e nada mais se soube.
A Drª Maria Eugénia Neto ainda está viva. O Dr. António Chaves e eu
próprio, quando fomos co-responsáveis da direção da Academia de Letras de
Trás-os-Montes, propusemos Maria Eugénia Neto para sócia de Honra. A atual
direção dessa Academia esteve presente no referido ato e nele continua.
Quer se queira quer não queira, Eugénia Neto passou a ser uma
personalidade cimeira da Lusofonia. Ao nível da cultura, todas as sociedades do
globo têm os seus escalonamentos mundiais. Todos aqueles que já tentaram chegar
à lua, têm o seu assento escalonado. Todos os povos brilham com os seus
«heróis». Montalegre passou a ter, de facto e de direito, desde 1934, uma
Cinderela popular.
Barroso da Fonte

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