Não conheço, pessoalmente, este
jovem de Lagoaça, do concelho de Freixo de Espada à Cinta. Contudo revejo-me na
sua vinda a este destino em que chegámos na mesma geração. Trás-os-Montes e
Alto Douro é a última Província lusófona. Calhou ter por berço o chão que nos
embala, em tempos destas muitas guerras, cuja idade nunca foi, cientificamente,
fixada. A história de Portugal diz-nos que nunca saberemos quando, e como,
nasceu o espaço. E, não obstante os progressos planetários, a ciência já tem
dado alguns passos para chegarmos à Lua. Já por aqui andaram muitas raças,
muitos «bicharocos», gentes semelhantes, animais selvagens, com físicos mais
valentes, mais robustecidos e mais agigantados. Possivelmente menos sabedores,
de feições incríveis e de histórias nunca descobertas.
Estamos às porta dos 900 anos da «primeira
tarde Portuguesa». Em 1071 deu-se a Batalha do Pedroso, travada em 18 de
janeiro de 1071. Nesse combate morreu o conde Nuno Mendes, que provocou a
extinção da linhagem condal galega que administrava o então Condado
Portucalense. Essa linhagem tinha começado em 868, quando Vímara Peres recebeu,
como prémio da expulsão dos muçulmanos, o Condado Portus Cale. Houve
nove condes entre Vímara Peres e Nuno Mendes. O condado Portucalense renasceria
em 1096, como dote matrimonial, aquando do casamento de D. Teresa com o borgonhês
Conde D. Henrique, de cuja união nasceria o rei fundador da portugalidade: D.
Afonso Henriques.
Voltando ao livro de Elmiro
Barbeiro e os «Pedaços da História», confesso, na qualidade de decano
dos jornalistas Portugueses vivos, que devo elogiar o autor deste documento
bibliográfico, meu companheiro de quase tudo aquilo que leio «em busca das
origens». Começo por lhe agradecer a dedicatória, ao me tratar por «brilhante
escritor transmontano com elevada estima e consideração». Agradeço-lhe tão
sonantes adjetivos, que não mereço, mas que me permitem felicitá-lo, por sua
coragem, persistência e lição de vida. A minha resistência, tal como a sua,
apenas divergem nos 11 anos de vida. Transmontano, escola primária, seminário,
saída após 10 anos, serviço militar obrigatório, em Angola, oficial miliciano
ranger, licenciatura aos 42 anos, mestrado e doutoramento, com teses
publicadas, docente do ensino superior, entre 1998-2008.
Pelo meio de tão arriscadas
ocupações, ambos tivemos de ir à guerra (e eu com mais quatro irmãos); o Elmiro
Barbeiro como sargento miliciano, na Guiné; eu em Mafra, Lamego, Abrantes,
Dembos, de onde alguns heróis fugiram e alguns ficaram.
Paralelamente, as nossas vidas
prestaram-se ao fadário que a sociedade mostra e que o oportunismo social
esconde. Aparecemos numa geração diabolizada, faminta de tudo e cruel para quem
remasse contra a maré.
Este seu quarto livro, em prosa e
verso, denuncia os seus 78 anos de vida real. Não se escondeu do pior, não
reclamou o melhor, mas conformou-se com aquilo que o destino lhe impôs. Já li
alguns dos seus poemas, revoltantes aqui e ali. E, não podendo dizer tudo,
enuncia, nestas 318 páginas, os seus sucessos, os amargo de boca e as
injustiças que sentiu, na sua vida ativa.
Desde o prefácio, ao prólogo,
passando pelo epílogo, «procurou, por todos os meios, levar uma informação
fidedigna que lhe indicasse o caminho certo na procura dos seus descendentes. É
sério, humano e liberal. E dedica este exemplar livro aos seus antepassados,
emigrantes, e a quantos, de forma forçada, se viram na necessidade de procurar
lá fora meios de subsistência para si e para os seus.
Armando Palavras e Belmiro Barbeiro
são dois transmontanos que vivem no centro do país, mas que convivem quando
visitam as origens, na mais distante Província de Trás-os-Montes. Um e outro e
muitos mais, com idêntica itinerância, se reúnem por bons motivos. A cultura, a
sociabilidade e o fraquinho pelo berço são fatores de aproximação. Estes dois
quase conterrâneos ombreiam pela positiva. Revejo-me neles e fazem falta na
Academia de Letras de Trás-os-Montes. Reúnem todos os requisitos. E eu, na
qualidade de quarto outorgante da fundação da Academia, em 2010, em Bragança,
na Biblioteca Municipal, tenho o maior gosto em propô-los como associados. Fica
o desafio.
Pedaços da História – Em busca das
origens é uma
edição do Autor, executado na Tipografia Rápida de Setúbal, em Abril último.


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