JORGE GOLIAS
Há dias recebi uma visita de um camarada e amigo com o qual
convivi na minha comissão de dois anos nos Açores. O António Pereira da Silva,
do meu curso de entrada na AM em 1961. Caçador inveterado e pescador
consagrado. Há gente assim, que caça e que pesca mais do que a maioria. Em Vila
Real não perdia uma caçada ao javali nas montadas que por lá se faziam e também
não perdia uma caçada ao coelho na ilha de S. Miguel, onde durante muitos anos
se deslocava de propósito para matar umas largas dezenas de coelhos. Lá
aplicavam-lhe um congelamento rápido e assim chegavam ao Continente. Era uma
espécie de turismo que a administração local fomentava para equilibrar a grande
densidade populacional dos coelhos.
Na solidão e no descontentamento do tempo e da sociedade açoriana,
fomo-nos encontrando, sobretudo, para amesendar. Mas, de quando em vez, íamos à
pesca da truta para a ribeira da Salga, ali mais para o Nordeste da ilha. Este
tipo de pesca exige que os pescadores andem afastados uns dos outros porque
lugar onde se deite a amostra para apanhar a truta, tão cedo não volta a picar
o peixe. Portanto, a pesca faz-se em andamento. Era a parte chata, só podíamos
interagir e conversar quando parávamos. O Pereira da Silva é um dos meus amigos
mais bem-humorados, pois está sempre a falar em tom de gozo, com tudo e com
todos. Como eu também sigo de perto esta postura acabámos por passar bons
momentos. No final, íamos para o apartamento dele, diria quase luxuoso (assim
era com os camaradas do Comando-Chefe), na torre Solmar, um 7º andar com uma
bela vista de mar e ele, com muita prática, passava as trutas por farinha e ali
fazíamos uma excelente refeição.
Ao tempo eu morava no Campo de S. Gonçalo, na vivenda da Engª
com o Silveira Pereira, um major da DSFOE. Naquela altura pouca gente local
sabia desta ribeira e das trutas, pois nunca nos cruzámos com outros
pescadores. Ele trazia sempre algumas dezenas de trutas, que eram de espécie
pequena, e eu não mais do que uma dúzia. E foi a segunda vez que fui à pesca da
truta. A primeira foi no alto Trás-os-Montes, em terrenos de altitude por onde
corre o rio Mente, por entre fragas em rápidos num local paradisíaco. Rio que
desagua no Rabaçal a 400m de altitude. A truta não vive perto de gente, porque
não confia!
Depois desta passagem longa pelos Açores (1989-1991) todos os
anos, pelo Natal, toca o telefone e eu oiço esta voz: -então, vamos à Salga?
Era o sinal do Pereira da Silva.
Na altura era comandante-chefe o General Monteiro Pereira,
oriundo de cavalaria. Um dia o Comando-chefe quis oferecer um jantar a um grupo
numeroso de diplomatas da Nato. Como o Forte da Amura, onde estava o
Quartel-General, tinha um belo salão, onde tomávamos as refeições, o General
contactou o QG para saber se podia dar lá uma refeição de polvo à moda dos
Açores. Quem esteve lá sabe como é, porque é prato típico. Eu era subchefe de EM,
um cargo inventado para me darem que fazer. E, que fazer, foi coisa que nunca
me faltou ali, nas Ilhas Desconhecidas, uma boa lembrança de Raúl Brandão.
Emprestar o salão foi decisão do General comandante da ZMA, Albuquerque
Nogueira que, quando foi promovido quem lhe pôs as estrelas de general fui eu e
até tenho esse inusitado registo fotográfico: um tenente-coronel a pôr as
estrelas a um general. Bem dizia o coronel Valério que nos Açores era tudo
diferente. E isto aconteceu assim porque na altura o CEM, o coronel Álvaro Bastos
Miranda, estava evacuado e eu fiquei interino. Quando veio a mensagem da
promoção, sem lhe dizer nada perguntei à esposa se tinha as estrelas lá em
casa. Tinha, mandei-as buscar e quando ele chegou ao quartel, juntei a
oficialagem, e fiz a cerimónia. Sem cerimónia!
Voltamos ao jantar dos diplomatas da Nato, um cargo porreiro,
de turistas de luxo, que se faziam acompanhar das respectivas mulheres. Como
subCEM eu era o responsável pelos sargentos, pela Banda da ZMA e pela
Logística, logo pelo jantar. O cozinheiro era um civil da Madeira e, por isso,
conhecido pelo Sr. Madeira. Chamei-o, disse-lhe qual iria ser a ementa e dei as
instruções para as compras. Ele disse que sabia fazer o prato, mas que ali no
QG nunca se fez porque por ser caro não fazia parte da ementa da ordem. Mas que
ia correr tudo bem. Pois, eu optei por comer no salão numa mesa mais discreta,
para garantir o bom cumprimento da missão. A ementa do meu jantar era outra,
que não o polvo, caro. A certa altura vejo com surpresa chegar o General à
minha mesa, muito nervoso, a dizer que o polvo estava rijo, e a perguntar quem
era o cozinheiro porque lhe ia dar uma porrada. Um general, de cavalaria
oriundo, no seu esplendor! Disse-lhe que era um civil, com pouca prática deste
prato e que a porrada devia dar-ma a mim que era o responsável primeiro.
Retirou-se furioso. No final, voltou, sorridente, feliz, e disse-me que,
afinal, os diplomatas da Nato acharam o prato delicioso, very tipycal.
Passados uns dias foi recebida no QG uma nota do Comando-Chefe a dar-me um
louvor pelo excelente serviço prestado. Como é ténue a fronteira da virtude e
do pecado!
Falei no Valério, de cavalaria, da velha guarda, que quando
eu cheguei aos Açores e me apresentei, ele me recebeu no QG dizendo que nos
Açores era tudo diferente. Eu ri-me, e disse-lhe que gostava de desafios, mas
que sabia que ali era tudo igual ao contenante, para pior! Ele ficou
quilhado comigo e mais ainda quando lhe disse que ia tomar uma bica. Aí ameaçou
dizendo que o Brigadeiro estava a chegar e não ia gostar de saber que eu não
estava à espera. Claro que fui à bica e que convivi com quem estava no bar e
que tranquilamente fui andando e que quando cheguei ao comando já lá estava o Brigadeiro,
que me cumprimentou como se me conhecesse e me desejou boa estadia e me
despachou logo ali, sem mais delongas, na frente do coronel Valério, que
espumava de raiva. Pensei, pronto já arranjei um inimigo! Qual quê, foi um dos
melhores amigos açorianos e o único que me abriu as portas de casa.
Querem mais, ou já estou a chatear? Bom, então, assim sendo,
lá vai mais uma.
Anos mais tarde, já com o Brigadeiro Rodolfo Begonha como
cmdt da ZMA, num dos almoços naquele belo salão, mesa do comando posta, toalha
lavada e copos a brilhar, tudo nos conformes, com uma companhia feminina, a D.
Teresa, mulher do Brigadeiro, eis que a salada tinha alguma areia. Vamos lá,
não era assim muita, mas sentia-se um bocadinho. Não riam. A D. Teresa, em voz
baixa, mas que quem estava mais perto, como eu logo ali, bem ouvia, diz ao
marido: -Rodolfo, a salada tem terra! A conversa continuou entre nós, que como
é claro já sabíamos da salada acrescentada. E pouco depois, novamente a senhora
a dizer: -Rodolfo, a salada tem terra. Lembrei-me de que era eu o responsável,
outra cena idêntica à do polvo. Não sei se foi desta vez se de outra ainda o
que me lembro é do Brigadeiro responder duramente mais ou menos assim: - se
tivesses estado na guerra não estavas agora a reclamar da salada com terra. E,
pronto, desta vez não fui louvado, mas também não apanhei uma porrada.
CNX30ABR2026JG85


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