Por JÚLIA SERRA
Armando Palavras surpreende-nos com um novo livro A Arte da Talha em Terras de Penaguião- Século XVIII, referindo a
origem, a história e a evolução de mais uma região de Portugal relativamente ao
Padroado. Neste caso concreto, adianta na Introdução: “Só em finais de
Setecentos o concelho se passou a chamar Santa Marta de Penaguião” (p.7). De
realçar que o título não se restringe apenas a um lugar, mas a vários, como expressa
a preposição “em” (terras). Além disso, o autor tenta precisar os limites e
fronteiras das freguesias e dos concelhos no eixo temporal, apoiando-se em
obras de conceituados estudiosos. Todo este processo de povoamento teve
repercussão na ação régia, conforme atestam as cartas de foral e a seguinte
passagem:” Este tipo de aforamentos ou emprazamentos, normalmente atribuídos ao
clero e à nobreza pelo rei, eram depois doados em herdades maiores ou menores a
vilãos” (Introdução, p.9). A organização administrativa local foi também
pormenorizadamente trabalhada e mapeada para uma melhor contextualização do
espaço e dos limites: “O concelho assume definitivamente a nomenclatura de
Santa Marta de Penaguião, pelo alvará de 2 de Novembro de 1775”. Neste valioso
exemplar, o autor delimita o seu trabalho (na área da construção dos edifícios)
apenas o que está diretamente ligado à retabulística, pela impossibilidade de
uma análise mais minuciosa, conforme se lê na contracapa:
Dessa actividade construtora, interessa para este
trabalho, apenas a que directamente está ligada à retabulística; à talha
dourada.
Não foi possível fazer uma análise minuciosa no
que respeita à iconografia, tipologias e modelos compositivos, periodização,
materiais e técnicas. Por essa razão, o presente trabalho incide apenas na
produção – mestres e oficinas.
| IGREJA de SANHOANE |
Fazendo jus à magnitude da obra de Armando Palavras, alguns traços da sua carreira serão destacados: licenciado em Belas Artes (Pintura) e doutorado em História de Arte, é um autor com um vastíssimo currículo e obra publicada – livros, documentos dispersos, resultado de investigações, ensaios e demais literatura. Dotado de um espírito analítico perspicaz e de uma amorável tendência para projetar a arte e o padroado do séc. XVIII, dedicou-se a uma faina estrénua do estudo das igrejas e monumentos afins da arte religiosa. Realça-se o valor atribuído à arte e à fluidez da sua escrita resultante de uma análise percuciente e consabidamente artística.
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Retomando a geografia do lugar e dando continuidade ao texto, o autor
analisa doze igrejas em Santa Marta de Penaguião, quatro igrejas em Peso da
Régua e seis capelas situadas em: Medrões (duas), Santa Marta de Penaguião
(uma), Sanhoane (uma), Peso da Régua (uma) e Vila Real (uma). Para além do
texto, as imagens das igrejas, particularmente o interior, com enfoque nos
altares e no teto, produzem no leitor um êxtase encantatório que transcende o
vulgo olhar – fica-se com a sensação de que há um magnetismo cromático que se
entranha no observador. Apesar da extensa documentação consultada e apensa à
obra, por vezes, havia dúvidas quer da pertença definitiva da Igreja, quer dos
próprios construtores e executores – tal a profundidade investigativa do autor.
No caso da Igreja de São Salvador – Medrões, o texto indica que Francisco
Lameira (2020) atribuiu a António José Pereira os riscos, concebidos em 1798,
para o retábulo da capela-mor e para dois colaterais, considerando as obras
executadas pelo mesmo, na Igreja da Misericórdia de Penafiel. Ainda nesta
descoberta dos verdadeiros artífices, Armando Palavras (2011), apoiado em
documentos e no saber artístico-científico, defende que o entalhe dos dois
retábulos colaterais de Medrões é assumido, a 18 de Fevereiro de 1799, pelo
mestre Francisco António Pereira, entalhador e “Emxamblador” do lugar de Sobre
a Fonte da freguesia. Depois desta precisão aposta pelo autor, outros
pormenores confirmam a minúcia da obra e as exigências asseguradas nos
contratos antigos, para cumprimentos das obrigações constantes e assinadas:
“Obrigava-se o mestre a fazer dois altares colaterais e tribuna, “athe o fim de
Setembro”, pelo preço de 124 mil reis, em madeira de castanho” (p.29). Os
prazos do pagamento eram rigorosamente estipulados e cumpridos: no caso desta
igreja, o mestre recebia, no início 48 mil reis e, no fim de Maio 38 mil reis.
O resto (38 mil reis), quando concluída, com os altares assentes, “depois de
serem Revistos.” Os pormenores destacados fornecem ao leitor uma visão dos
procedimentos na construção das obras religiosas, no século XVIII.
Para recolher dados concretos e congruentes, o leitor apercebe-se da
consulta de várias fontes, por parte do autor, e o mais admirável é a perceção da
humildade do investigador quando não recolhe dados que lhe permitam assegurar
com certeza – caso da Igreja de São João –Lobrigos. Por causa do estado
decadente da Igreja, havia quem alvitrasse que a degradação do retábulo da capela-mor
não compensava a reparação e seria melhor construir um edifício novo. O Pároco
da freguesia propunha “um retábulo novo, vendendo esse (banco) à Senhora dos Remédios”
(p.52). Infere o autor que, certamente, o retábulo foi vendido a outra Igreja e
conclui: “Acontece que o único documento que possuímos desta igreja é do ano de
1792. E este refere-se à edificação de uma nova igreja. Teriam reaproveitado o
retábulo da velha igreja?” (p.53). Esta interrogação revela que, na ausência de
dados fiáveis, o professor Armando não arriscava uma afirmação; o mesmo se
verifica na Igreja de Nossa Senhora das Candeias – Canelas, alegando que, após
uma contratação: “Esta obra não deve ter sido executada, pois uma nova
escritura é ajustada, pouco tempo depois, em 1768, com o mestre Manuel de Sousa
Rebelo, morador em Mondim de Basto, para fazer os retábulos, por ordem de Sua
Majestade (p.136).
Para além de pormenores artísticos, o valor das Escrituras é
incalculável e deveriam servir como exemplares, no presente, para os
construtores. Na escritura lavrada constavam: as obrigações, a arrematação da
obra, os elementos constituintes e matérias, o período de tempo de construção e
da conclusão e “Depois de assente, caso houvesse alguma avaria, o mestre
obrigava-se a consertá-la no prazo de um ano” (p.116).
As descrições referentes às
capelas são semelhantes e revelam a riqueza e explicações sobre o santo
entronizado – exemplo da capela de São Pio Mártir – Sanhoane. Neste local havia duas capelas: a de Santa
Ana, cujo lintel plano da entrada tem assinalada a data de 1727, e a de Nossa
Senhora do Rosário, “capela particular da Quinta do Pinheiro dos Queirós e
Lencastres, numa cartela central do seu frontão contracurvado e dinâmico, está
inscrita a data de 1771” (p.165). Curiosamente, a capela particular em estudo
de São Pio Mártir é pertença da Casa dos Correias Pimenteis, e não exibe
qualquer data. Em documentos descobertos pelo autor, o mesmo conclui que “A
proporção da imagem, a banquita de seis castiçais, bem como os atlantes frisos
seriam como os da capela de Sanhoane, sita na casa do Pinheiro” (p.165). Na
posse destes elementos, de 1790, o investigador depreende que a capela de
Sanhoane era da Quinta do Pinheiro, ou seja, a de Nossa Senhora do Rosário.
Esta dedução, retirada das fontes, permitiu ao autor reconhecer a falta de dados
sobre os construtores, alvenaria, talha e pintura, para se debruçar na análise
sobre a capela de São Pio Mártir.
As citações selecionadas permitem ao leitor uma avaliação do empoderamento lexical do Autor sobre a arte religiosa e, cumulativamente, uma avaliação epistémica e até do conhecimento prístino que o caracteriza. Só um verdadeiro artista, com o acúmulo de um sentimento telúrico, consegue alcandorar-se num plano tão elevado na análise do Padroado no Século XVIII.
Júlia Serra


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