sábado, 16 de maio de 2026

A Arte da Talha em Terras de Penaguião, de Armando Palavras - Século XVIII

 

Por JÚLIA  SERRA

 

Armando Palavras surpreende-nos com um novo livro A Arte da Talha em Terras de Penaguião- Século XVIII, referindo a origem, a história e a evolução de mais uma região de Portugal relativamente ao Padroado. Neste caso concreto, adianta na Introdução: “Só em finais de Setecentos o concelho se passou a chamar Santa Marta de Penaguião” (p.7). De realçar que o título não se restringe apenas a um lugar, mas a vários, como expressa a preposição “em” (terras). Além disso, o autor tenta precisar os limites e fronteiras das freguesias e dos concelhos no eixo temporal, apoiando-se em obras de conceituados estudiosos. Todo este processo de povoamento teve repercussão na ação régia, conforme atestam as cartas de foral e a seguinte passagem:” Este tipo de aforamentos ou emprazamentos, normalmente atribuídos ao clero e à nobreza pelo rei, eram depois doados em herdades maiores ou menores a vilãos” (Introdução, p.9). A organização administrativa local foi também pormenorizadamente trabalhada e mapeada para uma melhor contextualização do espaço e dos limites: “O concelho assume definitivamente a nomenclatura de Santa Marta de Penaguião, pelo alvará de 2 de Novembro de 1775”. Neste valioso exemplar, o autor delimita o seu trabalho (na área da construção dos edifícios) apenas o que está diretamente ligado à retabulística, pela impossibilidade de uma análise mais minuciosa, conforme se lê na contracapa:

 

                   Dessa actividade construtora, interessa para este trabalho, apenas a que directamente está ligada à retabulística; à talha dourada.

                   Não foi possível fazer uma análise minuciosa no que respeita à iconografia, tipologias e modelos compositivos, periodização, materiais e técnicas. Por essa razão, o presente trabalho incide apenas na produção – mestres e oficinas.



IGREJA de SANHOANE

Fazendo jus à magnitude da obra de Armando Palavras, alguns traços da sua carreira serão destacados: licenciado em Belas Artes (Pintura) e doutorado em História de Arte, é um autor com um vastíssimo currículo e obra publicada – livros, documentos dispersos, resultado de investigações, ensaios e demais literatura. Dotado de um espírito analítico perspicaz e de uma amorável tendência para projetar a arte e o padroado do séc. XVIII, dedicou-se a uma faina estrénua do estudo das igrejas e monumentos afins da arte religiosa. Realça-se o valor atribuído à arte e à fluidez da sua escrita resultante de uma análise percuciente e consabidamente artística.


A Arte da talha em Penaguião

A Arte da Talha em Terras de Penaguião

Retomando a geografia do lugar e dando continuidade ao texto, o autor analisa doze igrejas em Santa Marta de Penaguião, quatro igrejas em Peso da Régua e seis capelas situadas em: Medrões (duas), Santa Marta de Penaguião (uma), Sanhoane (uma), Peso da Régua (uma) e Vila Real (uma). Para além do texto, as imagens das igrejas, particularmente o interior, com enfoque nos altares e no teto, produzem no leitor um êxtase encantatório que transcende o vulgo olhar – fica-se com a sensação de que há um magnetismo cromático que se entranha no observador. Apesar da extensa documentação consultada e apensa à obra, por vezes, havia dúvidas quer da pertença definitiva da Igreja, quer dos próprios construtores e executores – tal a profundidade investigativa do autor. No caso da Igreja de São Salvador – Medrões, o texto indica que Francisco Lameira (2020) atribuiu a António José Pereira os riscos, concebidos em 1798, para o retábulo da capela-mor e para dois colaterais, considerando as obras executadas pelo mesmo, na Igreja da Misericórdia de Penafiel. Ainda nesta descoberta dos verdadeiros artífices, Armando Palavras (2011), apoiado em documentos e no saber artístico-científico, defende que o entalhe dos dois retábulos colaterais de Medrões é assumido, a 18 de Fevereiro de 1799, pelo mestre Francisco António Pereira, entalhador e “Emxamblador” do lugar de Sobre a Fonte da freguesia. Depois desta precisão aposta pelo autor, outros pormenores confirmam a minúcia da obra e as exigências asseguradas nos contratos antigos, para cumprimentos das obrigações constantes e assinadas: “Obrigava-se o mestre a fazer dois altares colaterais e tribuna, “athe o fim de Setembro”, pelo preço de 124 mil reis, em madeira de castanho” (p.29). Os prazos do pagamento eram rigorosamente estipulados e cumpridos: no caso desta igreja, o mestre recebia, no início 48 mil reis e, no fim de Maio 38 mil reis. O resto (38 mil reis), quando concluída, com os altares assentes, “depois de serem Revistos.” Os pormenores destacados fornecem ao leitor uma visão dos procedimentos na construção das obras religiosas, no século XVIII.

Para recolher dados concretos e congruentes, o leitor apercebe-se da consulta de várias fontes, por parte do autor, e o mais admirável é a perceção da humildade do investigador quando não recolhe dados que lhe permitam assegurar com certeza – caso da Igreja de São João –Lobrigos. Por causa do estado decadente da Igreja, havia quem alvitrasse que a degradação do retábulo da capela-mor não compensava a reparação e seria melhor construir um edifício novo. O Pároco da freguesia propunha “um retábulo novo, vendendo esse (banco) à Senhora dos Remédios” (p.52). Infere o autor que, certamente, o retábulo foi vendido a outra Igreja e conclui: “Acontece que o único documento que possuímos desta igreja é do ano de 1792. E este refere-se à edificação de uma nova igreja. Teriam reaproveitado o retábulo da velha igreja?” (p.53). Esta interrogação revela que, na ausência de dados fiáveis, o professor Armando não arriscava uma afirmação; o mesmo se verifica na Igreja de Nossa Senhora das Candeias – Canelas, alegando que, após uma contratação: “Esta obra não deve ter sido executada, pois uma nova escritura é ajustada, pouco tempo depois, em 1768, com o mestre Manuel de Sousa Rebelo, morador em Mondim de Basto, para fazer os retábulos, por ordem de Sua Majestade (p.136).

Para além de pormenores artísticos, o valor das Escrituras é incalculável e deveriam servir como exemplares, no presente, para os construtores. Na escritura lavrada constavam: as obrigações, a arrematação da obra, os elementos constituintes e matérias, o período de tempo de construção e da conclusão e “Depois de assente, caso houvesse alguma avaria, o mestre obrigava-se a consertá-la no prazo de um ano” (p.116).

 As descrições referentes às capelas são semelhantes e revelam a riqueza e explicações sobre o santo entronizado – exemplo da capela de São Pio Mártir – Sanhoane.  Neste local havia duas capelas: a de Santa Ana, cujo lintel plano da entrada tem assinalada a data de 1727, e a de Nossa Senhora do Rosário, “capela particular da Quinta do Pinheiro dos Queirós e Lencastres, numa cartela central do seu frontão contracurvado e dinâmico, está inscrita a data de 1771” (p.165). Curiosamente, a capela particular em estudo de São Pio Mártir é pertença da Casa dos Correias Pimenteis, e não exibe qualquer data. Em documentos descobertos pelo autor, o mesmo conclui que “A proporção da imagem, a banquita de seis castiçais, bem como os atlantes frisos seriam como os da capela de Sanhoane, sita na casa do Pinheiro” (p.165). Na posse destes elementos, de 1790, o investigador depreende que a capela de Sanhoane era da Quinta do Pinheiro, ou seja, a de Nossa Senhora do Rosário. Esta dedução, retirada das fontes, permitiu ao autor reconhecer a falta de dados sobre os construtores, alvenaria, talha e pintura, para se debruçar na análise sobre a capela de São Pio Mártir.

As citações selecionadas permitem ao leitor uma avaliação do empoderamento lexical do Autor sobre a arte religiosa e, cumulativamente, uma avaliação epistémica e até do conhecimento prístino que o caracteriza. Só um verdadeiro artista, com o acúmulo de um sentimento telúrico, consegue alcandorar-se num plano tão elevado na análise do Padroado no Século XVIII.         

Júlia Serra

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