Colunista do Observador
Quem preza o Ocidente e a democracia liberal deveria desejar uma
vitória americana, independentemente do que pense de Donald Trump.
Observador, 10 Abril 2026, 00:25
https://observador.pt/opiniao/o-que-esta-em-causa-e-mais-importante-do-que-trump/
A ditadura iraniana esteve sujeita,
durante mais de um mês, a uma campanha aérea que eliminou quase todos os seus
líderes e uma grande parte dos seus recursos militares. Ficou sem defesa aérea,
e os mísseis e drones com que atacou foram, de modo geral, anulados pela defesa
dos países vizinhos. Sofreu mesmo a humilhação de nem ter conseguido impedir os
EUA de resgatarem dois pilotos bem dentro do seu território. Mas a ditadura
mantém-se, e criou insegurança suficiente no golfo Pérsico para interromper a
circulação marítima. Agora, aproveita a pausa da guerra para simular vitória.
Era de esperar. O que talvez seja de admirar mais é a precipitação com que uma
parte das elites políticas ocidentais deu razão aos mullahs nessa reclamação
espúria. Porquê?
Porque desde o início que, para essas
elites, o que esteve em causa nesta guerra não foi a teocracia sanguinária e
corrupta de Teerão, mas a presidência de Donald Trump. Por isso, embora não
tivessem torcido pelos mullahs, torceram para que as coisas corressem mal e
Trump, com os preços a subirem, tivesse de desistir. No New York Times,
escrevia-se ontem que este tinha sido o “Suez” de Trump. Era uma alusão à
operação militar que, em 1956, confirmou o eclipse do poder da Inglaterra e da
França no Médio Oriente. Seria desejável isso acontecer aos EUA, só para Trump
perder as legislativas de Novembro?
Valerá a pena repetir que não é Trump que
está em causa? Que é a ditadura clerical do Irão, um regime apocalíptico que
matou em Janeiro milhares de iranianos, que prometeu destruir Israel, que tem
atacado e subvertido a vizinhança, que é um aliado crucial de Putin, e que é o
foco do radicalismo islâmico que inspira o terrorismo entre os muçulmanos? O
Ocidente tentou lidar com a ditadura iraniana através de sanções. Inutilmente.
Resta-lhe a força militar. Se agora se concluísse que também essa não é suficiente,
por relutância dos EUA em suportar os custos da guerra, o problema não é só de
Trump nem só para Trump. Não é só de Trump, porque se os EUA não podem ganhar
esta guerra sob Trump, nunca a ganharão sob nenhum outro presidente, a quem,
além de faltar os meios, faltaria também a vontade. O problema não é só para
Trump, porque é a Europa quem já está ao alcance dos mísseis iranianos, uma
Europa quase sem armas e com grandes populações muçulmanas, a quem os
jihadistas não deixariam de tentar mobilizar com um insucesso americano. Talvez
mais gente saiba isto do que parece. Talvez por isso não tenhamos tido as
marchas contra a guerra de 2003.
Se nada correr bem, terá sido culpa de
Trump por ter tentado desarmar agora os tiranos de Teerão? A guerra é uma opção
terrível, mas a inacção teria sido apenas um caminho mais silencioso para a
derrota. Os que dizem que só se deveria atacar o regime iraniano quando
dispusesse comprovadamente de armas nucleares nem percebem que nesse momento já
não seria possível atacá-lo sem arriscar uma guerra nuclear. O sucesso também
não estaria garantido se o presidente dos EUA fosse menos bombástico. Nenhuma
conversa mais gentil teria persuadido os governos europeus, paralisados pelo
medo da imigração muçulmana e dos custos do rearmamento, a ajudar.
Repito: o nevoeiro da guerra ainda não se
levantou. A ditadura iraniana certamente que não está mais forte. Trump pode
ter alcançado, ou vir a alcançar, os seus objectivos (acima de todos, degradar
a capacidade do Irão de projectar poder). Quem preza o Ocidente e a democracia
liberal deveria desejar isso, independentemente do que pense de Donald Trump. O
que está em jogo é muito mais importante do que o número de congressistas e
senadores que o partido de Trump pode eleger em Novembro.

Sem comentários:
Enviar um comentário