domingo, 20 de julho de 2025

Sócrates, filosofia de bolso

As trapalhadas do “eng.” Sócrates permitem, e inspiram, inúmeras graçolas.

O que o “eng.” Sócrates significou e significa para o país não tem graça.


Alberto Gonçalves OBSERVADOR 19 Jul. 2025

 

Li que José Sócrates, o popular “engenheiro”, se emocionou no tribunal ao recordar os 450 mil euros que a mãe lhe dera para estudar em Paris. Compreendo perfeitamente: também me emociono sempre que recordo as vezes em que a minha mãe me deu 450 mil euros. Foram cerca de zero, mas a verdade é que nunca estudei em Paris, onde a vida deve ser caríssima para um universitário.

É fazer as contas, como recomendava o homem que lançou politicamente o “eng.” Sócrates e hoje lança condenações regulares contra Israel [Acredito que Guterres, como nós todos,  também foi aldrabado!!!]. 

Primeiro, vamos ignorar os milhões que o “eng.” Sócrates, que admitiu subsistir em relativa penúria, terá consumido das contas do amigo, fantástico amigo, Carlos Santos Silva. Depois, houve um empréstimo bancário de 120 mil euros para patrocinar a estadia parisiense, que segundo fontes alternativas foi de 150 mil. Por fim, os tais 450 mil euros maternos, com que o “eng.” Sócrates terá, ou não, pago o empréstimo anterior. No mínimo, os dois anos em França custaram-lhe, ou à pobre (força de expressão) mãezinha, quase 20 mil euros por mês – e isto com casa graciosamente fornecida pelo amigo Carlos Santos Silva ou, de acordo com o Ministério Público, por ele próprio. É imenso foie gras e bastante champanhe.

Ainda assim, nada de especial para quem gastava 18 mil num fim-de-semana em Formentera e, ao que consta e enquanto primeiro-ministro, 100 mil num par de férias em Veneza e Menorca. Em champanhe ou Riojas de reserva, a verba dá para uns três comas alcoólicos diários. E convém não esquecer os jantares das sextas-feiras num restaurante lisboeta, que juntava o “eng.” Sócrates a fiéis camaradas como os drs. Galamba e Vieira da Silva, além daquele Silva Pereira, cara e tiques chapados do “eng.”. O amigo Carlos Santos Silva, que não se sentava à mesa, recebia a conta com altruísmo, e a conta pesava. É por isso que há elites e há o povaréu, há ex-primeiros-ministros e ex-primeiros-ministros: na semana passada, jantei com Pedro Passos Coelho na capital por 41 euros. Cada um pagou o seu. Não sei se se nota que permaneço emocionado.

A emoção que sinto, e que se confunde levianamente com inveja, prende-se com a minha carência de amigos generosos, que conforme é obrigação deles financiam habitação decente, refeições de marisco, “vacaciones” e o que calha. Porém, vou às lágrimas sobretudo com os recursos da progenitora do “eng.” Sócrates. 

Não são apenas extraordinárias as origens da fortuna da senhora: mais extraordinária é a habilidade com que essas origens se alteram no discurso do filho, o filho pródigo e grato e amnésico e emocionado. Ora a senhora herdara milhões do pai (fortuna que, na sua desorientação, os procuradores não conseguiram encontrar), ora a senhora dispunha de prestigiados imóveis (que por coincidência suprema foram negociados com o amigo Carlos Santos Silva), ora a senhora possuía móveis prestimosos (sob a forma de um ou dois cofres). Gente avisada diversifica os investimentos: a mãe do “eng.” Socrates diversificava as poupanças. E diversificava-as tanto que a determinada altura perdeu-lhes o rasto, já que em telefonema de 2014 escutou-se a dona Adelaide Monteiro confessar-se “depenadinha” e “à rasca”. Dado o amparo que dedicou ao primogénito, não admira.

Chega, não chega? As trapalhadas do “eng.” Sócrates permitem, e inspiram, inúmeras graçolas. O que o “eng.” Sócrates significou e significa para o país não tem graça. Durante uma eternidade, ele mandou em nós, não por decreto divino ou golpe de Estado, e sim por livre escolha dos eleitores, que o quiseram a liderar o governo. E quiseram-no em duas ocasiões, uma com o maior triunfo da história do PS e a outra em 2009, quando o “caso” Freeport alimentava há meses razoáveis desconfianças acerca da rectidão do “animal feroz”.

É lícito, e aconselhável, lembrar que o “eng.” Sócrates era peça talvez central de uma rede em que se penduravam políticos, advogados, banqueiros, construtores, empresários e compinchas em geral. Seria igualmente interessante não esquecer que, no governo, no parlamento e no partido, centenas e centenas de indivíduos e indivíduas lhe serviram a mitomania, e o resto, bem para lá das suspeitas e das evidências. Essas alminhas, que tarde e a péssimas horas tentaram esboçar pureza, não tiveram de ser cúmplices nos imbróglios que a Justiça investiga para serem cúmplices do desastre ético, psiquiátrico e económico então em curso. Nem uma alminha se demitiu a protestar o desastre.

Mas o que impressiona é de facto o povo, a considerável percentagem do povo que, por um inconcebível período, acreditou no “eng. Sócrates” à revelia do elementar bom senso, e que, além de acreditar, ofereceu-lhe promessas de fidelidade, hinos, devoção. E o voto.

[Eu também caí nessa!! Mea culpa! Mas depois estive na manifestação dos pais e avós da geração milennial, que correu com ele e o obrigou a ser ele a chamar a troika!!! E convém que ninguém esqueça que FOI ELE QUE A CHAMOU, já que fora ele que nos lançara na bancarrota que depois tivemos de pagar!! É que andaram para aí umas vozes a dizer que foi o Passos Coelho que chamou a troika! Não foi!! Quem nos arranja as bancarrotas é que tem de chamar quem as cure, sabendo que isso nos vai doer. Como doeu!!!]

Ao longo de seis anos, com uns pozinhos adicionais após a queda, dois milhões de cidadãos seguiram cegamente os caminhos tortuosos que se desenhavam na cabeça da criatura, uma criatura de quem qualquer pessoa equilibrada não aceitaria de borla o proverbial carro usado.

Em suma, impressiona e assusta a facilidade com que o eng. Sócrates aldrabou os portugueses.

Melhor (ou pior): é terrível a facilidade com que os portugueses se deixaram aldrabar, aliás uma tradição antiga e que não morreu. Muitos dos que se envergonharam de aclamar um trapaceiro aclamaram sem hesitações os trapaceiros seguintes. E repetirão a proeza com os próximos. O “eng.” Sócrates foi uma aberração? Não acho, e a realidade concorda comigo.

 

FONTE: https://observador.pt/opiniao/socrates-filosofia-de-bolso/


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