Júlia Serra
Apesar de haver muitas “serrações” o autor, Flávio Vara, faz imperar a sua explicação, versejando: “quando inda não existia/ rádio nem televisão/ já nos pobos transmontanos/ outras maneiras havia/ para passar o serão.” (p.11) e continua o poeta a explicar que pelo Carnaval, “numa noite combinada” a rapaziada sobe ao local mais alto da povoação e em altas vozes ecoadas pelo altifalante fazem um relato do que acontecera no ano transato, divulgando nomes dos protagonistas e usando termos caricatos e picantes. Estas pesporrentes cantarias eram atenciosamente ouvidas por detrás das janelas e, certamente, causavam alguma pusilanimidade no meio ou, pelo contrário, atiçavam os mais afoitos. A “velha” dessa expressão/ certamente prefigura/ maléfica entidade/que se deve esconjurar/ e serrar sem piedade.” (p.13). O certo é que muitos ficavam beliscados, mas o autor não se inibia de apontar o seu estilete bem afiado a todos que achavam que deveriam ser “serrados”. Pelo serrote perpassam muitos que, lembrando o Mestre Gil, poderiam ser agrupados em tipos: os políticos, os padres, os transmontanos que abandonavam a terra e iam para Lisboa, as mães de Bragança, e até o incauto bispo que em vez de utilizar a expressão status quaestionis escreveu status quaestiones, trocando o genitivo pelo acusativo plural – todos foram aguilhoados, com mais ou menos subtileza. Estas críticas em verso formam jogos de palavras e de imagens que, embora predomine o sarcasmo e a ironia, o que sobressai é o humor destas “parlendas”. Acautelem-se, no entanto, porque ninguém escapa ao “serrote”! Creio que fiquei a conhecer muito melhor a região, determinadas figuras, para além de certos costumes e “mascambilhas” do “reino Maravilhoso” de Torga. “No Reino Maravilhoso/ há coisas bem diferentes, /há maravilha nos montes /há mascambilha nas gentes/ Dos dois lados do outeiro/ soalheiro e avessedo/ Torga só viu o primeiro/do segundo teve medo.” (p.16). Deixe-me acrescentar, talvez um certo pudor, porque Torga é um poeta invencível e, por isso, atemporal. Flávio Vara não é um transmontano fácil, porque desnuda a região e as suas gentes – também Torga se queixava disso, quando os temas/contos versavam a região – pessoas que gostam de viver enfronhadas e não devassadas, mas há um gesto irrepreensível captado na sua escrita: o apreço e carinho pela sua aldeia natal. A visão geral de Trás-os-Montes deve ser olhada por detrás e não frontalmente, porque, uma vez mais brincando com as palavras, descobriu que “Por Detrás Dos Montes” se poderá impor a verdadeira região: “poderá até tornar-se/em terra da promissão;/só é preciso que tenha/ gente de larga visão” (p.87). Até a Tia Rita também foi versejada, por causa do irmão escritor... Bem, após o apelo “serrar a velha faz falta/ e mais ainda em Lisboa;/ vamos avisar a malta/ que é urgente ir lá serrá-la, / por mais que doa a quem doa /(p.90), fica a promessa: “Para bem serrar a velha/eu devia serrar mais,/mas apenas num Entrudo/ não se pode serrar tudo;/ prometo serrar o resto/ em futuros Carnavais”(p.91). Flávio Vara quer que “Serrar a Velha” faça parte da cultura nordestina e seja reconhecida pela Unesco, tal como fez aos Caretos. Tal pícaro dos romances de cavalaria ou do romance sentimental, assim se apresenta este poeta que nos faz rir e entrar no sórdido da realidade social, numa era em que tudo se faz para ser visivelmente “grande”.
Júlia Serra
JORGE LAGE
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