domingo, 27 de julho de 2025

Serrar a Velha - Por Detrás Dos Montes

 

Júlia Serra

Serrar a Velha - Por Detrás Dos Montes - O título da obra remete-nos para certos rituais e simbologias, de acordo com as regiões, sendo uma expressão de uso e conhecimento popular. Geralmente, representa a Quaresma e anuncia a alegria da Páscoa. Há quem estabeleça datas mais precisas ou mudanças de estações do ano, marcando a passagem do Inverno para a Primavera. 

Apesar de haver muitas “serrações” o autor, Flávio Vara, faz imperar a sua explicação, versejando: “quando inda não existia/ rádio nem televisão/ já nos pobos transmontanos/ outras maneiras havia/ para passar o serão.” (p.11) e continua o poeta a explicar que pelo Carnaval, “numa noite combinada” a rapaziada sobe ao local mais alto da povoação e em altas vozes ecoadas pelo altifalante fazem um relato do que acontecera no ano transato, divulgando nomes dos protagonistas e usando termos caricatos e picantes. Estas pesporrentes cantarias eram atenciosamente ouvidas por detrás das janelas e, certamente, causavam alguma pusilanimidade no meio ou, pelo contrário, atiçavam os mais afoitos. A “velha” dessa expressão/ certamente prefigura/ maléfica entidade/que se deve esconjurar/ e serrar sem piedade.” (p.13). O certo é que muitos ficavam beliscados, mas o autor não se inibia de apontar o seu estilete bem afiado a todos que achavam que deveriam ser “serrados”. Pelo serrote perpassam muitos que, lembrando o Mestre Gil, poderiam ser agrupados em tipos: os políticos, os padres, os transmontanos que abandonavam a terra e iam para Lisboa, as mães de Bragança, e até o incauto bispo que em vez de utilizar a expressão status quaestionis escreveu status quaestiones, trocando o genitivo pelo acusativo plural – todos foram aguilhoados, com mais ou menos subtileza. Estas críticas em verso formam jogos de palavras e de imagens que, embora predomine o sarcasmo e a ironia, o que sobressai é o humor destas “parlendas”. Acautelem-se, no entanto, porque ninguém escapa ao “serrote”! Creio que fiquei a conhecer muito melhor a região, determinadas figuras, para além de certos costumes e “mascambilhas” do “reino Maravilhoso” de Torga. “No Reino Maravilhoso/ há coisas bem diferentes, /há maravilha nos montes /há mascambilha nas gentes/ Dos dois lados do outeiro/ soalheiro e avessedo/ Torga só viu o primeiro/do segundo teve medo.” (p.16). Deixe-me acrescentar, talvez um certo pudor, porque Torga é um poeta invencível e, por isso, atemporal. Flávio Vara não é um transmontano fácil, porque desnuda a região e as suas gentes – também Torga se queixava disso, quando os temas/contos versavam a região – pessoas que gostam de viver enfronhadas e não devassadas, mas há um gesto irrepreensível captado na sua escrita: o apreço e carinho pela sua aldeia natal. A visão geral de Trás-os-Montes deve ser olhada por detrás e não frontalmente, porque, uma vez mais brincando com as palavras, descobriu que “Por Detrás Dos Montes” se poderá impor a verdadeira região: “poderá até tornar-se/em terra da promissão;/só é preciso que tenha/ gente de larga visão” (p.87).  Até a Tia Rita também foi versejada, por causa do irmão escritor... Bem, após o apelo “serrar a velha faz falta/ e mais ainda em Lisboa;/ vamos avisar a malta/ que é urgente ir lá serrá-la, / por mais que doa a quem doa /(p.90), fica  a promessa: “Para bem serrar a velha/eu devia serrar mais,/mas apenas num Entrudo/ não se pode serrar tudo;/ prometo serrar o resto/ em futuros Carnavais”(p.91). Flávio Vara quer que “Serrar a Velha” faça parte da cultura nordestina e seja reconhecida pela Unesco, tal como fez aos Caretos. Tal pícaro dos romances de cavalaria ou do romance sentimental, assim se apresenta este poeta que nos faz rir e entrar no sórdido da realidade social, numa era em que tudo se faz para ser visivelmente “grande”.

 Júlia Serra  

 

JORGE  LAGE

Nota: Esta recensão, ao livro, «Serrar a Velha», do poeta bragançano (de Rio Frio), Flávio Vara, foi lavrado pela crítica literária, Professora Júlia Serra (de Sto. Tirso), pela qualidade crítica entendi divulgá-lo aos leitores deste jornal. Também o amigo Flávio Vara completa 91 (noventa e um) anos e será uma boa prenda de anos. Tanto mais que a sua poesia de crítica social é mesmo implacável, como o eram, o «repartir do burro» ou o «serrar da velha» das nossas aldeias, nos tempos anteriores ao 25 de Abril. Como me dizia o meu amigo, Tótó Gordo, de Lebução (Valpaços), a um pedido meu para botarem, novamente os versos do «bando» (grupo crítico que se reunia para denunciar ou elogiar – geralmente em verso - os comportamentos ou actos dos habitantes da aldeia durante o ano anterior): alguns ameaçam-nos com o tribunal e decidimos parar. Sendo assim, o 25 de Abril também nos trouxe obscurantismo. Porque estas iniciativas culturais e sociais eram de grande pedagogia dos costumes. Se não fosse o travão que os eleitores portugueses estão a colocar nas urnas ao movimento wokista, demagógico e obscurantista, não poderíamos dizer, sequer, que um homem é homem ou uma mulher é mulher. Mas, à frente, que atrás vem gente. O Flávio Vara passa por um período de saúde complicado e que o desafio a arribar, para nos continuar a mimar com os seus poemas. Agradeço à Professora Júlia Serra por esta página analítica desta obra e dou os parabéns ao Flávio Vara por nos enriquecer com mais esta sua obra e que nos mime com mais projectos poéticos. O livro de poesia «Serrar a Velha – por detrás dos montes» (ed. Poesia Impossível, 2022), cuja foto acima reproduz a contracapa e um poema ao homem trasmontano, pode ser pedido para: flavio.vara@gmail.com .

 In:  Notícias de Mirandela, 30 de Junho de 2025


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