quarta-feira, 25 de junho de 2025

Sobre Júlio Augusto Massa. de António Aresta

 

Júlia Serra


Sobre Júlio Augusto Massa. de António Ares

Com testemunhos de Pe. Américo Casado e Eduardo Francisco Tavares

 

               António Aresta, profundo conhecedor da realidade de Macau, professor e investigador, na obra Júlio Augusto Massa fornece-nos o retrato perfeito do “Missionário pensador”, chegado a Macau em 1935, com treze anos de idade, para frequentar o Seminário de S. José. Nessa altura, era bispo D. José da Costa Nunes que tinha encetado uma reforma do ciclo de estudos, visando a formação dos seminaristas, assente no reforço da área científica e epistemológica e, no currículo dos seminaristas chineses, a inclusão do estudo do português, como língua estrangeira.

Júlio Massa é ordenado padre em 1946, numa cerimónia presidida pelo Bispo D. João de Deus Ramalho SJ. Nesse mesmo ano, desempenha a função de professor interino no liceu de Macau e leciona também no Seminário de S. José, sendo professor de variadas disciplinas. Para além da docência e de imenso trabalho que desenvolvia na área social, foi também um dos fundadores do Jornal «O Clarim» que congregava à sua volta jovens descontentes em busca de sonhos e, de certa maneira, determinavam a linha do Jornal. Tendo sempre presente os valores cristãos e católicos e a valorização da língua portuguesa, «O Clarim» veiculava novas ideias artísticas, promovia o desporto, a política, apresentando-se como um jornal aberto. O Padre Júlio Massa era um dos colaboradores, assinando com pseudónimos (parte dos artigos, com grande valor estético e cultural, perderam-se porque não estavam assinados); em 1957, escreveu e assinou um importante ensaio AS Doutrinas Marxistas e a Crise Política de Hoje. Assim, o Jornal assumiu uma linha política rebelando-se contra os regimes políticos totalitários comunistas. Júlio Massa interveio: [Agora os comunistas portugueses são extemporaneamente comediantes, conscienciosamente farçantes. Pegaram no patriotismo. Ilaquearam-no em quatro ideias de Lenine e fizeram dele um bonifrate irrisório] (p.16).

O Padre Massa era, então, um transgressor – nunca descurando a função de missionário – e grande pensador que pretendia ir além, incluindo-se numa sociedade atual com vertentes ideológicas díspares que lhe implicavam lutas interiores, perante determinadas ideias a assumir nas publicações. Apesar de polémico, traçou uma linha programática de «O Clarim» que norteou a publicação até à atualidade.

 Depois de exonerado a seu pedido, em 1949, do Cargo de Assistente Eclesiástico da Mocidade Portuguesa de Macau, em 1950, foi para Roma e, depois, para Madrid, onde aprofundou os seus conhecimentos em várias áreas até ascender ao doutoramento em filosofia na Pontifícia Universidade de Salamanca. Regressou a Macau para os Serviços Diocesanos de Assistência Social, entre 1956-1962, onde desenvolveu um trabalho notório, a nível cultural e sociológico, respeitando sempre os dogmas religiosos e os princípios da diáspora. Na qualidade de Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau, empenhou-se na criação do Centro de Reabilitação de Cegos de Macau e na construção do Edifício Rainha D. Leonor, entre outros projetos. O seu espírito altruísta e de dedicação ao próximo fez dele um descobridor de casos sociais desviantes e excluídos, animando-o a combater a exclusão e a recuperar seres humanos. Esta sensibilidade florescente em relação ao Outro é visível nos seus versos: “ Era em Macau, onde passei a minha vida,/ Desde os meus verdes anos até aos setenta, (…) Eu já o conhecera no velho hospital/ Onde agora queria debelar seu mal!.../ E eu, como provedor, para lá o levei./ Entrou como um farrapo e saiu de lá Curado!.../ Uns seis meses depois vem dizer-me ‘obrigado!’/E ao  vê-lo outro homem, alegre eu chorei!(Poema , o Drogado, p.21).

A sua eloquência era reconhecida: ascendeu a vários cargos, abordou temas incómodos, como o marxismo e Deus, deixou mensagens lapidares, como: [o oriental pode afirmar com o mesmo direito que o ocidental que o cristianismo é para ele, é dele, precisamente porque é para “todos” e é de “todos.”] (p.24). Para lá deste espírito pensador, remanesciam alguns laivos de alegria na sua vida e na escrita poética, conforme atestaram alguns testemunhos. Confirmam ex-alunos que o professor Massa os marcou para a vida e que tinha sido uma bússola nas suas carreiras. A doença grave (um AVC) empurrou-o para o recolhimento em Lisboa, onde residiu até ao fim. Esta fase de sofrimento floriu nele um novo olhar para o Outro e foi o tempo de afirmação de um poeta exímio, com uma nova visão da realidade e da dor, atenuadas pelo prazer da escrita. É através do soneto que concentra as suas ideias- chave: os desafios da sociedade pós-moderna, colocando o ser absorvido pelo materialismo, vítima de desigualdades e, já despido de humanismo, caminha para o seu aniquilamento. Esta re-visitação pela fé, pela ideia, pela razão – proveniente dos seus princípios filosóficos – aproximam Massa de Antero de Quental “o Santo Antero” que, no final da vida, escreveu “Na mão de Deus, na sua mão direita/ Descansou afinal meu coração/.”; a dor lembra-lhe Camilo Pessanha, pela sua interioridade.

Além de tudo, foi um precursor sobre o papel de Deus, do Homem e do Universo e anunciava reflexões profundas sobre estas temáticas, no sentido de combater as distopias sociais premonitórias que provinham da valorização de determinados aspetos e da alienação do essencial, como a arte, o belo e a verdade.  

               No soneto Requiem por uma Cidade despede-se da cidade onde depositou a sua vida. Um poema comovedor, com características autobiográficas, sugerindo a poética anteriana.

Dezembro frio, próximo e distante, /Levado em sonho, eu vi-me de repente/Nos longes em mistério do Oriente, / Como se eu fosse um velho mareante. / De Macau, o farol tão vigilante/risca o espaço pálido e dormente/(…) E contemplo extasiado essa cidade/Onde passei a minha mocidade/E cujo encanto ainda me cativa,/.

Muito mais haveria a acrescentar a esta prolífera produção literária do Professor Missionário Júlio Massa…

Uma missão marcante no Oriente, pouco enaltecida e dada, aqui, a conhecer graças à perspicácia da investigação de António Aresta que, aliás, sugere: “Quando for preparada a segunda edição de O Delta Literário de Macau o professor José Carlos Seabra Pereira terá certamente a oportunidade para fazer a integração de Júlio Massa no alargado elenco de autores que poeticamente pensaram sobre o Território.”(p.39).

                                                                                                                                     Júlia Serra                                 

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