Júlia Serra
Sobre Júlio Augusto Massa. de António Ares
Com testemunhos de Pe. Américo Casado e Eduardo Francisco Tavares
António
Aresta, profundo conhecedor da realidade de Macau, professor e investigador, na
obra Júlio Augusto Massa fornece-nos o
retrato perfeito do “Missionário pensador”, chegado a Macau em 1935, com treze
anos de idade, para frequentar o Seminário de S. José. Nessa altura, era bispo
D. José da Costa Nunes que tinha encetado uma reforma do ciclo de estudos, visando
a formação dos seminaristas, assente no reforço da área científica e
epistemológica e, no currículo dos seminaristas chineses, a inclusão do estudo
do português, como língua estrangeira.
O Padre Massa era, então, um transgressor – nunca descurando a função
de missionário – e grande pensador que pretendia ir além, incluindo-se numa
sociedade atual com vertentes ideológicas díspares que lhe implicavam lutas
interiores, perante determinadas ideias a assumir nas publicações. Apesar de
polémico, traçou uma linha programática de «O Clarim» que norteou a publicação até
à atualidade.
Depois de exonerado a seu
pedido, em 1949, do Cargo de Assistente Eclesiástico da Mocidade Portuguesa de Macau,
em 1950, foi para Roma e, depois, para Madrid, onde aprofundou os seus
conhecimentos em várias áreas até ascender ao doutoramento em filosofia na Pontifícia
Universidade de Salamanca. Regressou a Macau para os Serviços Diocesanos de Assistência
Social, entre 1956-1962, onde desenvolveu um trabalho notório, a nível cultural
e sociológico, respeitando sempre os dogmas religiosos e os princípios da
diáspora. Na qualidade de Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau,
empenhou-se na criação do Centro de Reabilitação de Cegos de Macau e na
construção do Edifício Rainha D. Leonor, entre outros projetos. O seu espírito
altruísta e de dedicação ao próximo fez dele um descobridor de casos sociais
desviantes e excluídos, animando-o a combater a exclusão e a recuperar seres
humanos. Esta sensibilidade florescente em relação ao Outro é visível nos seus
versos: “ Era em Macau, onde passei a minha vida,/ Desde os meus verdes anos
até aos setenta, (…) Eu já o conhecera no velho hospital/ Onde agora queria
debelar seu mal!.../ E eu, como provedor, para lá o levei./ Entrou como um
farrapo e saiu de lá Curado!.../ Uns seis meses depois vem dizer-me
‘obrigado!’/E ao vê-lo outro homem,
alegre eu chorei!(Poema , o Drogado,
p.21).
A sua eloquência era reconhecida: ascendeu a vários cargos, abordou
temas incómodos, como o marxismo e Deus, deixou mensagens lapidares, como: [o
oriental pode afirmar com o mesmo direito que o ocidental que o cristianismo é
para ele, é dele, precisamente porque é para “todos” e é de “todos.”] (p.24).
Para lá deste espírito pensador, remanesciam alguns laivos de alegria na sua
vida e na escrita poética, conforme atestaram alguns testemunhos. Confirmam
ex-alunos que o professor Massa os marcou para a vida e que tinha sido uma
bússola nas suas carreiras. A doença grave (um AVC) empurrou-o para o
recolhimento em Lisboa, onde residiu até ao fim. Esta fase de sofrimento floriu
nele um novo olhar para o Outro e foi o tempo de afirmação de um poeta exímio,
com uma nova visão da realidade e da dor, atenuadas pelo prazer da escrita. É
através do soneto que concentra as suas ideias- chave: os desafios da sociedade
pós-moderna, colocando o ser absorvido pelo materialismo, vítima de
desigualdades e, já despido de humanismo, caminha para o seu aniquilamento. Esta
re-visitação pela fé, pela ideia, pela razão – proveniente dos seus princípios
filosóficos – aproximam Massa de Antero de Quental “o Santo Antero” que, no
final da vida, escreveu “Na mão de Deus, na sua mão direita/ Descansou afinal
meu coração/.”; a dor lembra-lhe Camilo Pessanha, pela sua interioridade.
Além de tudo, foi um precursor sobre o papel de Deus, do Homem e do
Universo e anunciava reflexões profundas sobre estas temáticas, no sentido de
combater as distopias sociais premonitórias que provinham da valorização de
determinados aspetos e da alienação do essencial, como a arte, o belo e a
verdade.
No
soneto Requiem por uma Cidade
despede-se da cidade onde depositou a sua vida. Um poema comovedor, com
características autobiográficas, sugerindo a poética anteriana.
Dezembro frio, próximo e distante, /Levado
em sonho, eu vi-me de repente/Nos longes em mistério do Oriente, / Como se eu
fosse um velho mareante. / De Macau, o farol tão vigilante/risca o espaço
pálido e dormente/(…) E contemplo extasiado essa cidade/Onde passei a minha
mocidade/E cujo encanto ainda me cativa,/.
Muito mais haveria a acrescentar a esta prolífera produção literária do
Professor Missionário Júlio Massa…
Uma missão marcante no Oriente, pouco enaltecida e dada, aqui, a conhecer graças à perspicácia da investigação de António Aresta que, aliás, sugere: “Quando for preparada a segunda edição de O Delta Literário de Macau o professor José Carlos Seabra Pereira terá certamente a oportunidade para fazer a integração de Júlio Massa no alargado elenco de autores que poeticamente pensaram sobre o Território.”(p.39).
Júlia Serra


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