sábado, 26 de abril de 2025

Pedro Nuno Santos: «Chama-lho antes que to chamem»

Nuno Tiago Pinto, ao tempo, diretor da revista Sábado, nº 1020, de 16 a 22 de Novembro de 2023 (a tal edição que ressuscitou muitos e graves embaraços, sobre o «Mistério da Casa de Pedro Nuno Santos onde vivia em Lisboa»), no editorial sobre a doença do Estado, incendiou o país. Dessa descoberta soube-se muita coisa enrodilhada que viria a provocar a queda do governo presidido por António Costa. Esse número da revista aborda esta matéria em várias páginas, desde o editorial, ao artigo da redatora Ana Taborda; «ao piropo ao Amigo João na comunicação»; à «Lagartixa e o Jacaré» de Pacheco Pereira, que fala de «uma crise muito grave», que a democracia portuguesa conheceu nas várias crises políticas, entre a página 30 e a 42, que termina com uma bandeira nacional, página 44, assinada por Eduardo Dâmaso, que adiciona o «caderno de significados», ilustrada com «a doença do tráfico de influências», já com António Costa e um amigo que o traiu. Já, em 2014, depois de uma vitória socialista nas europeias de 2014, António José Seguro e António Costa desafiaram-se na liderança do PS para disputarem as legislativas no país. Nessa altura, a disputa interna deu a vitória a António Costa. Mas este perdeu as legislativas de 2015. E esse terramoto político fecundou a geringonça que, dali em diante, promiscuiu a política portuguesa. A paternidade da geringonça ficou a dever-se a Pedro Nuno Santos (PNS). A esquerda ficou refém da desordenação política. O PS reinou até à queda do Governo de António Costa, que o promoveu ao alto cargo europeu. E bem. Mas deixou o país neste vale de lágrimas, em que se encontra à mercê de ideólogos, sem rei nem roque. Ainda bem que a definição da imprensa, e do grau, que ela representa na sociedade Portuguesa se vai chamando «o quarto poder».

Essa edição da Sábado, que tenho no meu arquivo e me aconselha a promover a verdade e a justiça, diz-me que o «pai» da geringonça ainda não explicou aos portugueses aquilo que a revista publicou e que ele pretendia ver arquivado.

Aquilo que ele fez, bradou aos céus. Introduziu na sociedade Portuguesa, a antítese ideológica daquilo que, até essa altura, nunca tinha sido experimentado em Portugal. Tal pirotecnia serviu de palco a PNS, para ensaiar um roteiro de incoerências, de simulações e de banalidades que a Sábado poderia ter utilizado, obrigatória e gratuitamente, se Pedro Nuno Santos tivesse invocado o direito de resposta. Não o tendo feito, essas incoerências e banalidades entraram no domínio publico e qualquer cidadão poderá perguntar ao visado se as acusações, tornadas públicas pela revista, são reais ou simuladas. Como perguntar não ofende, passados tantos anos a sociedade tem o direito de considerar verdadeiras as acusações.

Pela parte que me toca, sou levado a pensar que PNS julgava que o processo estaria a aguardar arquivamento. A Sábado, que tanto o incomodou, desmentiu-o com toda a firmeza, até que a justiça se pronuncie.

A mesma fonte, na página 47, afirma que PNS teve que ter dinheiro para pagar essa dívida e ainda mais 290 mil euros de sinal para uma casa, no total de €740 mil euros. No mesmo contexto pergunta-se e escreve-se: «de onde veio este dinheiro e porque é que estas duas entradas e saídas foram omitidas ao Tribunal Constitucional»?

Como este político agitou tanto o país, que nos últimos vinte anos fundou mais meia dúzia de partidos, é pergunta que deve fazer-se para ver se o país ganha paz e sossego. Já se têm saudades dos quatro em quatro anos de mandato.

O jornalismo como quarto poder

A comunicação social cada vez tem mais força na sua arte de investigar a corrupção de todos os setores da sociedade. Há quem lhe chame o «quarto do poder». Mas seus profissionais querem regras que ajudem a socialização dos poderes. Faço um apelo àqueles que nos trazem a casa as imagens e as legendas da guerra, dos acidentes, dos concelhos, da verdade e da justiça. Ganham pouco mas fazem muito. Só precisam de meios e de liberdade. Digo isto a partir da baixa política, que Portugal conhece desde que foi importada do estrangeiro.

E escrevo esta narrativa depois ler, de fio a pavio, o número 1020 da revista semanal Sábado., que veio a público em 16/22 de novembro de 2023.

Nuno Tiago Pinto, no editorial, deixou perceber a narrativa que nessa edição se registou para memória futura. Ei-lo:

«Pedro Nuno Santos representa a continuidade de tudo o que está em causa na crise que levou à queda do Governo: a informalidade, os estratagemas, a impulsividade, a gestão irresponsável dos recursos do Estado, a desvalorização dos comportamentos ou a ocupação pelo Partido Socialista de cargos no aparelho do Estado. Aquilo que o agora candidato a sucessor de António Costa minimizou como erros de percurso», na apresentação da candidatura, pode resumir-se de forma simples: PNS foi o ministro que recusou a saída de Alexandra Reis da TAP...Foi o ministro que assinou um despacho a pedir esclarecimentos sobre a atribuição de 500€...»

No mesmo contexto Pacheco Pereira escreveu, na sua rubrica dessa edição, que havia várias razões para «considerar a crise de 2023 muito mais grave porque está para além de ser uma crise inserida num contexto internacional de colapso financeiro da banca e das dívidas nacionais».

Por outro lado, a procuradora-geral da República, Lucília Gago, e o diretor do DCIAP, Francisco Narciso, acompanharam de perto a investigação aos negócios do lítio, do hidrogénio e do centro de dados de Sines, que puseram sob suspeita membros do Governo e até o primeiro ministro António Costa. Esta previsão escreveu-a António José Vilela, nas páginas 14 e 15 da fonte que venho citando.

Esta sequência de interpretações factuais abordadas pela revista Sábado foi ressuscitada nesta quadra pascal em que o Ministério Público trouxe à tona o caso que irritou Pedro Nuno Santos e seus defensores.

Todo o calvário que a política portuguesa suportou, ao longo de cerca de dois anos, resultou da queda do Governo de António Costa.

Até aqui foram causas nacionais, nascidas de uma crise política congeminada por Pedro Nuno Santos e batizada de geringonça. Vasco Pulido Valente foi o padrinho dessa crónica no jornal Público. A geringonça catapultou as mentalidades, virando à esquerda a sociedade fragilizada em que mergulhou o país.

No actual contexto político, vale a pena recordar o caso.

«Olha para o que eu digo, não para o que faço»...

Nas páginas 46 a 49 da edição da Sábado que venho citando, assinadas pelo jornalista Marco Alves, pode ler-se, ipsis verbis:

«Património: socialista não declarou várias operações e movimentos. O Mistério da Casa de Pedro Nuno.

Quando estava no Governo, o hoje candidato a líder do PS não declarou como pagou um empréstimo bancário de um apartamento. À SÁBADO começou por dizer que foi o pai que o ajudou a pagar uma dívida de €450 mil ao banco. Depois emendou para outra versão.

Quando a 12 de dezembro de 2018, Pedro Nuno Santos apresentou no Tribunal Constitucional (TC) uma atualização da sua declaração de rendimentos e património indicou na página 15 um crédito à habitação no valor de €450 mil. Na altura, era secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. Pouco depois, a 18 de fevereiro de 2019, foi promovido a ministro das Infraestruturas e teve de apresentar uma nova declaração, o que fez a 17 de abril desse ano. Aqui, havia outra mudança: desapareceu a dívida ao banco.

Recorde-se que, segundo a Lei n2 52/2019 ("Regime de exercício de funções por titulares de cargos políticos e altos cargos públicos"), os políticos têm de apresentar uma declaração quando terminam funções, e outra quando iniciam, mas não só. Em qualquer altura durante o exercício de funções, têm de declarar ao TC qualquer alteração patrimonial que tenha ocorrido, desde que seja superior a 50 salários mínimos nacionais. Em 2019, eram €600, o que equivale a alterações patrimoniais superiores a €30.000.

O desaparecimento da dívida de €450 mil obrigaria Pedro Nuno Santos a apresentar uma declaração de atualização, o que não consta no seu dossiê do TC, que a SÁBADO consultou. Ou seja, teria de informar o tribunal que recebeu na sua conta à ordem um determinado valor, que serviu para liquidar um crédito de €450 mil. Se o dinheiro tinha proveniência de alguma conta da mulher (com quem vive em regime de união de facto e que era cotitular do crédito habitação), ou se foi ela a receber o dinheiro de terceiros, Pedro Nuno Santos teria também de informar o tribunal, segundo manda a referida lei. Nada disso consta.

A juntar a isto, há outro dado: o crédito serviu para comprar uma casa em Lisboa (onde vive hoje). Segundo a escritura, de 24 de setembro de 2018, que a SÁBADO consultou, o imóvel custou €740 mil. Como pediu o tal crédito de €450 mil, significa que alguém avançou com mais €290 mil para a aquisição do imóvel. Em resumo, entre setembro de 2018 e dezembro de 2019 (15 meses) Pedro Nuno Santos teve de ter dinheiro para pagar €450 mil de uma dívida e ainda €290 mil de sinal para uma casa, total: €740.000. Do conjunto de questões que fizemos por email ao agora candidato a secretário-geral do PS, destacamos duas: de onde veio este dinheiro e porque é que estas entradas e saídas foram omitidas ao Tribunal Constitucional?

As respostas de Pedro Nuno Santos à SÁBADO ocorreram em dois momentos. Numa chamada telefónica na sexta-feira, dia 10, feita por sua iniciativa, para prestar um enquadramento inicial, prometendo que especificaria depois por escrito, o que fez num email enviado já na madrugada de segunda-feira.

O caso dos 290.000

No telefonema de sexta-feira, Pedro Nuno Santos disse-nos que "não sabia" que tinha de atualizar declarações a meio dos mandatos. A SÁBADO notou a estranheza do argumento em face do que aconteceu um ano antes deste caso, quando o próprio Pedro Nuno Santos fez uma declaração ao TC (13/11/2017) apenas para informar que comprara um Porsche (ver caixa), um episódio que ficou célebre, mas o deputado manteve que "não sabia". No email, ignorou esta questão. Escreveu apenas que "as declarações ao TC refletem a situação patrimonial do declarante no momento em que são entregues, devendo, naturalmente, ser lidas dessa forma".

O deputado dá a entender indiretamente (como o tinha feito de forma direta ao telefone) que terão de ser os jornalistas, os magistrados do Ministério Público junto do Tribunal Constitucional, ou qualquer outro interessado, que têm de comparar declarações entregues com a diferença de anos entre elas e, se tiverem dúvidas, que as coloquem. Se assim fosse, um ministro poderia, por exemplo, a meio do mandato, receber avultados fundos de terceiros, e depois mobilizá-los de modo a não aparecerem na declaração (...) ».

A ilustrar este artigo estão os fac-similes das referidas páginas 46 a 49 da revista Sábado, assinadas por Marco Alves.

 

Fernando Paixão

 

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