sexta-feira, 7 de março de 2025

Completou 100 anos de vida e traduziu o: Aparato Histórico da Santidade de Afonso Henriques


Américo Augusto Ferreira celebrou hoje, dia 4 de Março, um século de vida. Professor, jornalista e investigador, nasceu em 1925, em Covelo, no concelho de Gondomar. Obteve duas licenciaturas: em Teologia pela universidade de Salamanca e em Filologia pela Universidade de Coimbra. O latim foi o terreno que, profissionalmente, cultivou e ainda labora, graças à sua desenvoltura física, psíquica, intelectual, moral e cívica. Sempre exerceu o ensino e, por onde passou, semeou lotes de documentação coeva, rigorosa e atempada. Como língua novilatina, a cultura portuguesa andou e ainda e andará, pelos tempos fora. A importância destes dois falares implica a aprendizagem nas escolas da vida prática, em sociedade.

Foi neste contexto que o escultor transmontano José António Nobre e Américo Ferreira se conheceram e fizeram amizade com Silva Araújo, médico do hospital de Marco de Canaveses. O signatário deste texto foi visitado pelo escultor transmontano José António Nobre, que vinha com a missão de pedir emprestada a minha cópia do exemplar do, até então quase desconhecido, Aparato Histórico que eu possuía em versão latina e que consegui obter em 2011, após o valioso alerta que Pinharanda Gomes me fizera. Tudo o mais que se passou em torno da: tradução, edição, prefaciação, comercialização e “boicote” a esse livro de ouro, publicado no Vaticano em 1728 e "desaparecido" desde aí até 2011, quando dei a notícia da sua existência, foi um mistério.

Posteriormente, em 24 de Junho de 2014 foi apresentada, no Paço dos Duques de Bragança, a versão traduzida para português contemporâneo por Américo Augusto Ferreira.

Entre essa notícia bombástica contra os incrédulos, que saiu no Notícias de Guimarães, em 7 de outubro de 2011, e o lançamento, em 2014, da versão traduzida por Américo Ferreira, decorreram 14 anos. O tradutor tinha, então, 88 anos de idade. A providência cuidou dele e hoje, dia 4, dia de Carnaval, em que escrevo esta narrativa, completa um século de vida. Mas dele se esqueceram alguns hominídeos que galgam sem saberem andar. E nem andam, nem desandam. Diz o povo que guardado está o petisco para quem o merece.

Verdadeiramente quem alertou para esta obra (Apparatus Historicus), e para este autor, foi J. Pinharanda Gomes, por carta manuscrita, procedente de S. António dos Cavaleiros, datada de 9-8-2011. Acusava ele, aí, a receção do livro que fora lançado na sede das três freguesias da cidade de Guimarães, em 25 de Julho de 2011 (uma das prováveis datas do nascimento do nosso primeiro Rei). Daí o título desse livro: D. Afonso Henriques – 900 anos do seu nascimento (1111–2011). Nessas 478 páginas se procurou defender a tradição que consagrou a trilogia do nascimento do Rei Fundador: Guimarães, 25 de Julho de 1111. Não tendo, até agora, sido encontrado qualquer documento, cientificamente, comprovativo, prevalece a tradição.

Pinharanda Gomes, investigador incansável da Portugalidade, recebeu essa obra e foi prestimoso para com o autor e para com o livro que dele recebera. São suas as palavras que deram origem a quanto, depois disso, se escreveu sobre o assunto: «..recebi com júbilo a unificação das suas sagas a favor das origens de D. Afonso I. Como dizia S. Paulo acerca da obrigação de pregar o Evangelho – oportuna e inoportunamente – para não restarem dúvidas... Na verdade, enquanto não houver nova demonstração, credível e da época, o melhor é continuar a arguir a tradição de 1111 – não obstante outras fontes, em que também aparece 1109. Para que não fizesse como alguns que dizem conhecer, mas ignoram, por teimosia, aquilo que nunca se soube, foi pragmático: «O teólogo Vimaranense José Pinto Pereira que viveu muitos anos em Roma é o autor de uma Tese (positio) submetida ao Papa Bento XIII, com vista ao processo de canonização – Apparatus Historicus de Argumentis Sanctitatis Regis Alfonsi Henriques, Roma, 1728. Decerto que há a curiosidade de verificar se nesse documento o autor mencionava alguma data. O livro existe na Biblioteca Nacional (cota: R10375v)».

Um amante da cultura não dorme. Naturalmente foi correspondido com o pedido de averiguar e fornecer mais elementos sobre o assunto. O que fez com que o processo recomeçasse, em Guimarães, no semanário local de maior audiência. É que Pinharanda Gomes, por nova carta de 14-09-2011, dizia: «Já fui à Biblioteca Nacional, para consultar o Apparatus Historicus de Argumentis Sanctitatis regis Alfonsi Henriques (….) Benedicti Papae XIII. Roma, 1728, de José Pinto Pereira, da Ordem de Cristo, natural de Guimarães (1659-1733). A cota do livro: R103375V. O livro consta de dez Argumentos demonstrativos de que D. Afonso Henriques é Pius, Beatus et Sanctus. Verdade seja que o processo de canonização, bem adiantado no tempo de D. João V, acabou por não ter seguimento. Quanto à data de nascimento, nada diz o autor que, de fato, visa apenas lembrar que El-Rei é Santo. Desculpe a pobreza. Um abraço amigo do Pinharanda».

Aqui fica o inestimável contributo de Pinharanda Gomes. Não fora o seu lamiré e nada do que aconteceu, nestes catorze anos, teria sido acrescentado à História de Portugal, mormente à vida e obra de D. Afonso Henriques.

Em 2002 a Fundação Lusíada, fundada e dirigida pelo Doutor Abel de Lacerda Botelho, patrocinou o livro A Cristofania de Ourique - Mito e Profecia, da autoria de Manuel J. Gandra. Uma obra que foi citada e elogiada pelo coordenador da «Saga da Santidade de D. Afonso Henriques», igualmente patrocinada pela Lusíada e por aquele Benemérito. Nunca conheci pessoalmente o profissional da História, Manuel Gandra, para lhe agradecer aquelas gratificantes considerações que recolheu da Saga da Santidade. E das justas referências aos nossos comuns amigos: Pinharanda Gomes, Abel de Lacerda e ao tradutor do Aparato Histórico, Américo Augusto Ferreira. Sobretudo as gratas e mais que merecidas alusões ao mais sacrificado de todos os intervenientes, que acabou de fazer um século de vida. Misteriosamente, Manuel Gandra não citou o coordenador da Saga da Santidade, nas várias referências ao livro, que tem 478 páginas. Algumas dessas páginas órfãs ficam registadas, entre aspas, para lembrar ao aniversariante, Dr. Américo Ferreira, que valeu a pena tamanho esforço intelectual. Nem a Câmara de Guimarães o recompensou, nem a Grã Ordem Afonsina pôde atribuir-lhe mais do que um diploma de gratidão. Mas prestou um altíssimo serviço à cultura Portuguesa.

Barroso da Fonte

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