quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Armando Palavras: um verdadeiro doutor da cultura Portuguesa

                                                                                      Clique na imagem para aumentar


BARROSO da FONTE


Em 1965 cheguei à Região dos Dembos, norte de Angola, integrado na Companhia militar 679, 
do Batalhão 770, aquartelado no Zemba que tinha Santa Eulália como capital da Região Norte, centro de reabastecimento de víveres, além de aeroporto para todo o tipo de mercadorias, correio e pessoas. Ainda não sabia que em Golungo Alto, em 17 de Janeiro, tinha nascido Armando Manuel Gomes Palavras, filho de pais Transmontanos. A «minha guerra» fazia-se na antiga Fazenda do Mucondo e servia, entre quatro outras Fazendas: S. Paulo, Daladaliata e zona de passagem para Maria Fernanda e Cova das Pacaças, sítio asado para permanentes emboscadas, a partir da Pedra Verde. Como oficial Ranger, tive a sorte de sobrevoar toda essa área, em helicópteros, sempre que se realizavam operações conjuntas, por terra, mar e ar.

Com este intróito pretendo regressar, 60 anos depois, à região dos Dembos, onde, o agora investigador Armando Palavras, já se debatia com a sobrevivência pessoal e familiar, regressando, em condições perturbadas, para a metrópole, como tantos outros milhares de vítimas da «descolonização exemplar».

                                                                    Clique na imagem para aumentar

Apesar dessas contrariedades, Armando Palavras superou, com louvável sucesso, esses obstáculos, regressando às origens e mostrando à sociedade como se pode chegar ao topo das carreiras profissionais, atravessando oceanos, abolindo vícios e construindo obra que basta para confirmar os méritos cívicos e culturais com que muitos sonham mas bem poucos atingem.

À data em que me chegou o seu mais recente livro, de uma série científica de seis volumes, todos na editora portuense 5 Livros que é «chancela de referência em Portugal para os autores que querem ver publicados os seus livros. Passados cinco anos e com centenas de escritores no seu catálogo, a 5 Livros é muito provavelmente uma das melhores opções para aqueles que querem concretizar o sonho do seu livro publicado». São já muitos mais os títulos de Armando Palavras, como por exemplo: «O Sal da História» (Ed. Cidade Berço) - sobre o Monumento aos Combatentes do Ultramar, erigido na zona de Belém, Lisboa. Mas o volume que há dias me chegou, da colecção que refiro atrás, tem por título «Igrejas do Padroado da Universidade de Coimbra - nas duas margens do Douro - Século XVIII». O primeiro livro da série chama-se: «A Actividade Construtora Setecentista em Penaguião - Documentos para o seu estudo (Vol.1)». E os quatro restantes abordam ângulos de visão dentro do mesmo âmbito temático e território, todos numa profundidade artística e religiosa que ressaltam das suas teses de Mestrado e Doutoramento. Não abundam, na cultura Portuguesa, tratados com semelhantes contextos que têm a ver com a região, com a história, com a crença dos seus habitantes e com a orografia regional.

Os meus 86 anos de vida, 72 dos quais dedicados ao jornalismo activo, aconselham-me a parar. Por ter origens minguadas em todos os aspetos, vali-me do jornalismo para me fazer ouvir. Aprendi o pouco que sei no convívio com os amigos. Todos nós temos direito a escolhê-los. Armando Palavras é um desses Amigos, e que me tem dado voz e vez, neste seu excelente blogue.

Devo-lhe este companheirismo que foi caldeado no norte de Angola. Aí fiz a militância cívica como jornalista, para o que tive de requerer autorização ao Ministério da Defesa Nacional. Usei mais a escrita do que a arma G-3. Em 23 de Janeiro de 1953 fiz o tirocínio. Armando Palavras nascera nesse palco de guerra subversiva que já durava há cinco anos. Regressei a casa em Maio de 1967. E só nos conhecemos pessoalmente quando, também ele, colaborava nos jornais e revistas transmontanos.

Com um ano de idade, após os acontecimentos do 15 de Março (1961), vem para Portugal acompanhado de sua mãe. Passa a infância em Lagoaça, onde conclui a escola primária. Regressa a Luanda, onde realiza o exame da 4ª Classe. Entre Luanda, Golungo Alto e a então vila de Salazar, onde passa os cinco anos seguintes. Quando se dá a “revolução dos cravos” regressa a Lagoaça, onde passa a juventude, repartida com cidades como Bragança e Porto.

Licenciado em Belas Artes (Pintura), Armando Palavras doutorou-se em História, na área específica de História da Arte. É investigador integrado do CITAD - Centro de Investigação em Território, Arquitectura e Design, do ILID (Agrupamento de Centros de Investigação), financiado pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), desde  01/09/2010. Tem publicado, na sua área académica, vários artigos em revistas como Brigantia (Bragança), Tellus (Vila Real), Beira Alta (Viseu) e Côa Visão (Vila Nova de Foz Côa). Foi também colaborador 9 Séculos - Revista da Lusofonia (sediada em Guimarães).

Eis alguns livros monográficos de Armando Palavras: A Bandeira processional de Lagoaça - Análise iconográfica (Ed. ExoTerra, 2020); As Igrejas Setecentistas do Padroado da Universidade de Coimbra (bispado de Lamego) – documentos para o seu estudo – Vol II (Ed. 5 Livros, 2021); As visitações de Alijó e alguns documentos dispersos - documentos para o seu estudo - Vol III (5Livros, 2022); As Mulheres nos Evangelhos Canónicos - A sua representação na periferia duriense (5livros, 2023); Artistas e Artífices no Século XVIII nas periferias Transmontana, Beirã e Duriense (5Livros, 2024). Noutras áreas da escrita coordenou duas antologias de autores transmontanos: Trás-os-Montes e Alto Douro – Mosaico de Ciência e Cultura (Exoterra, 2010/2011); Antologia de Autores Transmontanos, Durienses e da Beira Transmontana (Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa, 2018). Colaborou com a Comissão Técnica do IV Congresso Transmontano e Alto-duriense em 2018. Tem organizado vários eventos culturais e colaborado com a imprensa regional transmontana durante vários anos. Actualmente é proprietário do blogue Tempocaminhado, onde aborda assuntos sobre todas as áreas de actividade humana.

Barroso da Fonte


Sem comentários:

Enviar um comentário

Os mais lidos